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Coluna do Adilson Cardoso – Sob a Sombra da Dor

Coluna do Adilson Cardoso – Sob a Sombra da Dor

Não tinha noção do que havia andado, nem conseguia esconder a fome e a sede que aumentavam a cada passo. Um ruído de tiro ouviu-se não muito distante dali, era espingarda, como aquela que o marido tinha para caçar, antes que continuasse a descrição mental da arma, outro estampido foi ouvido, desta vez um pouco mais perto e seu coração disparou como se fosse a própria bala tentando correr de dentro dela, o atirador estava próximo e poderia ser quem dona Geralda mais temia não se lembrava de ter visto o marido saindo com a espingarda. Ou poderia ter voltado em casa, ter se armado para tocaiá-la, um suor frio e medonho lhe escorreu das faces, as pernas tremiam sem controle a ponto de não permitir que seguisse em frente, quanto mais pensava em saídas mais forte eram as batidas do coração, a garganta seca ardia e os olhos molhados buscavam o agressor em todas as direções. Próximo de onde estava percebeu uma espécie de circulo formado por um emaranhado de galhos, pontas retorcidas e tiras de cipós deslizando feito cobras, com pressa de se livrar daquele mau-presságio agachou-se e quase de cócoras atravessou o arco e continuou aprofundando aquela vegetação de árvores galhadas, espinhos e folhas secas ditando as cores do chão. Naquele instante um tropel de cavalos surgiu como raio faiscando a areia quente. Em um rápido mergulho dona Geraldo escondeu-se sob as folhas rezando a todos os santos que não deixassem os olhos malfeitores daquele que tanto temia mirarem para o seu lado, e, daquela forma inerte e silenciosa ficou por diversas horas, na sua cabeça atormentada qualquer movimento que fizesse atrairia o seu algoz. Dentro da camuflagem lhe restava uma fresta miúda em que os olhos cansados, mas atentos seguiam de soslaio os espaços enquadrados da estrada. Poderia não ter sido o marido, já que a pouca coragem não permitiu que ela levantasse a cabeça para confirmar, mas poderia ser ele e estar atirando a esmo para assustá-la. Se fosse, com certeza voltaria com outras pessoas para farejar seus rastros e demonstrar o poder de carrasco que sempre mostrou a ela e aos filhos. Jamais conseguira se livrar das imagens do dia em que assistira por azar a morte de Chico Capenga era um fevereiro quente, o pasto estava baixo e as pontas de capim surgiam como lanças sobre as touceiras, o Angico do cerrado que ficava próximo a cancela se sustentava com poucas folhas e a presença de incansável Pica-pau a bater sua cabeça durante grande parte das horas, era dia de acerto de contas pelo fim da empreitada que pegaram com o Nonô de João Galinha, Chico Capenga supervisionava os trabalhos e era o responsável pelo pagamento, dona Geralda não sabe ao certo o real motivo da contenda, já que chegara com o almoço no exato e cruel momento em que o marido desferia um golpe de faca na barriga do encarregado, depois mais um no peito, na sua memória ainda permanece congelada a cena de um filme de horror, aquele homem caindo aos gritos de socorro com o sangue jorrando do seu corpo, e seus olhos esbugalhados perdendo a luz até ele tombar sozinho sobre um formigueiro. O assassino parecia estar de combinação com os outros que correram dali sem a menor tentativa de prestar socorro. Outro tiro parecia que os cavalos estavam retornando… (continua)

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso
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