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Coluna do Adilson Cardoso – Do mesmo cesto de lixo

Coluna do Adilson Cardoso – Do mesmo cesto de lixo

Nem sempre saímos de casa com o humor que a luz do dia merece como também não é todo dia que um envelope duvidoso endereçado a uma mulher desarticula dramaticamente  nossos planos. Um dia daquela  semana de pouco tempo para a diversão, fui à loja de piratarias em busca de um filme interessante que quebrasse a minha rotina medíocre de jornais e novelas. Dentro da Loja sentei-me como de costume e mergulhei na leitura das capas. Ao lado do meu banco uma revista destas sensacionalistas semanais chamou minha atenção pela capa antiga que trazia a foto de um ex-senador e ex-presidente do Brasil, segundo a oposição do seu Estado, está cumprindo horas extras na terra. Naquele dia a temperatura estava baixa, fazendo com que nós, escravos da sequidão e do calor Norte Mineiro andássemos embotados em busca de abrigo, isso fez com que a vendedora se sentasse encolhida ao lado da porta, como outros clientes e passadores de tempo por ali, seu intuito era absorver um pouquinho do calor de um sol que vazava tímido por um buraco da telha de zinco que servia de toldo. Folheando abri na crônica de Lia Luft e me preparei para a leitura, pois apesar de não concordar com a ideologia da redação a escritora me cativa. Foi quando  caiu do seu interior um envelope amarelo com os dizeres “aos cuidados de Márcia”. Estava lacrado com grampos e dentro era possível sentir certo volume provavelmente de papéis, a curiosidade queimou nos meus dedos com uma série de fantasias invadindo a razão. Olhei para a moça no banquinho bocejando displicente e, pensei em retirar aquele papel para saber do que se tratava. Seria algum dinheiro?  O que mandavam dizer a tal Márcia em um envelope esquecido numa loja pirata? De repente um cliente procurando “Tropa de Elite” entrou rompendo com o impasse que me afligia. Despistei a caçar meu filme devolvendo o envelope para o interior da revista sob a banca de DVDs.  Escolhi um Glauber Rocha que já tinha e um Babenco que me faltava, paguei e sai, quando passava da porta, a moça encorujada chamou-me e entregou a revista como se eu a estivesse esquecido, olhei com a consciência de alguém que esta prestes a cometer um crime, mas que sente algo compensador pedir que siga. Passou-me ainda pela cabeça um demoniozinho vermelho de chifres pequenos dizendo que fiz a coisa certa, mas como clichê de programa pop, no lado oposto um anjinho personalizado com cabelo de caracol e camisola branca tentava endireitar meu caminho. O mesmo cliente que a pouco queria o “Tropa de Elite” voltou indagando por alguma coisa perdida. Mandei o anjinho se danar e rompi em passos largos, olhei para trás certificando que a moça não estava à porta para dizer que a revista não era minha, mas nada de anormal acontecia, o cliente havia achado sua chave,  passou rápido  ao meu lado  pedindo que  alguém do outro piso esperasse. Fui à caça de um lugar tranquilo que satisfizesse minha curiosidade que ardia com uma multidão de interrogações sem respostas. Assim minha cabeça tentava argumentar as situações da Márcia: Talvez fosse um caso extraconjugal e uma carta anônima estaria chantageando-a, ameaçando de entregar tudo! O que poderia querer em troca? Um cara sem escrúpulos que para não arruinar sua vida, queria sexo e dinheiro. Ou será que Márcia estava metida em alguma ação criminosa? Trafico de drogas? Tráfico de crianças? Tráfico de órgãos? Seria ela uma garota de programas? Daquelas que aparecem com a silhueta avantajada e fumando cigarros nos pontos insalubres das esquinas? Márcia pode estar sendo vitima de traição do namorado e uma garota que ainda não se assumiu como homossexual deseja sua primeira experimentação com ela! Está enviando de forma anônima para denunciar e reivindicar prazer, poderia ser qualquer coisa, algumas notas de cem reais, Márcia era seqüestradora e ali seria o encontro para a entrega do resgate? Não pude mais conter o fogo mastigador da curiosidade, entrei em um banheiro público e li que teria que pagar 50 centavos para usar, tudo bem, precisava de um tempo de solidão, agachei e Joguei a revista no cesto de lixo, fiquei olhando o Senador misturar-se aos papéis sujos de bosta e cheguei à conclusão que qualquer semelhança não é mera coincidência. Não tive pena. Na ânsia de descobrir os segredos de Márcia, retirei o volume com avidez e fui congelado na decepção.  Li em voz alta o nome do candidato que pedia votos a Márcia, o volume eram santinhos e alguns chaveiros.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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