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Cinema – A taça do mundo é nossa

Cinema – A taça do mundo é nossa

Ainda está para ser escrito o livro sobre a curiosa, e inegável, relação entre a história social do Brasil e o futebol. Apenas como exemplos recentes, existem dois marcos bem claros: o pênalti de Baggio, em 1994, dando início a um período em que tudo daria certo para o país; e o 7 a 1 para a Alemanha, assinalando o fim desse oba oba e o começo de uma derrocada rumo ao inferno de Hades, que não tem previsão para acabar.

Cinema - A taça do mundo é nossa
Cinema – A taça do mundo é nossa

 

Nesse sentido, o roubo da taça Jules Rimet em 1983 é uma narrativa folclórica, quase mítica, de como o Brasil é um país totalmente desprovido de valores e com uma moral fragilmente descartável. Nada aqui é sagrado: nem o voto, nem a democracia, muito menos o troféu do primeiro tricampeonato mundial da história do futebol. O coletivo comumente denominado “Brasil” é algo que tem significado até o interesse pessoal falar mais alto – a partir daí, é um por si e Deus (se existir) por todos.

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É por isso que um sujeito, de codinome Peralta (Paulo Tiefenthaler, da novela “Haja Coração”), decidiu que a melhor solução para pagar as dívidas em que estava afogado era roubar a Jules Rimet. “Eu tinha 12 anos quando roubaram a taça e lembro bem a comoção que foi”, conta o diretor Caíto Ortiz, que transformou a história no longa “O Roubo da Taça”, que estreia nesta quinta (8).

A ideia do filme veio alguns anos atrás, quando o cineasta paulistano se deparou com uma reportagem que revelava fatos curiosos sobre o infame roubo. “Era muito divertido, meio ‘Trapalhões’, e eu vi que uma história, que podia ser um policial ou um filme de perseguição, podia render, na verdade, uma comédia de gente bem torta”, descreve.

E é isso que Ortiz fez: uma mistura de “Fargo” com chanchada, que não é nem tão bom quanto o longa dos Coen, nem tão escrachado quanto o gênero dos anos 1940. A trama acompanha Peralta, malandro carioca viciado em jogo que, prestes a ser executado devido a uma dívida milionária, junta-se ao amigo Borracha (Danilo Grangheia) e decide roubar o que acreditam ser a réplica da Jules Rimet exposta na CBF – e era, na verdade, a original.

“O Roubo da Taça” não é sobre o planejamento desse assalto, que ocorre bem no início da projeção. Não há um plano elaborado, à la “Onze Homens e um Segredo”. A dupla simplesmente entra no prédio da CBF à noite e pega a taça. O que Ortiz jura ser a mais pura verdade.

“A gente não fez nada, só contou a história real. Quando o Stepan (Nercessian) diz na tela que a CBF é uma instituição séria, é a maior risada do filme porque, o que posso fazer, ela é um órgão patético cujo presidente não pode sair do Brasil sem ser preso”, dispara o diretor.

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A maior liberdade tomada pelo roteiro escrito por Ortiz e Lusa Silvestre (“Mundo Cão”) é a criação de Dolores (Taís Araújo), namorada de Peralta. Personagem 100% ficcional, ela é a melhor parte do filme – mesmo narrando a história com um off “para gringo entender”.

Se os dois ladrões são completos jacus pelos quais é difícil torcer, Dolores é quase a femme fatale do longa – mais esperta que a dupla, com as melhores falas do roteiro. E carrega em si a essência da trama: a partir do momento em que você rouba a Jules Rimet (assim como quando extingue a democracia) e vende para quem eles venderam, não existem mais regras, nem honra entre ladrões, e a história vira uma série de pequenas traições que vão determinar seu desfecho.

“A gente sabia os fatos principais e foi romanceando os detalhes, tratando todos os personagens como pessoas tortas tentando acertar e metendo os pés pelas mãos sem parar”, explica Ortiz. Outra falseada necessária foi a reconstituição do Rio de Janeiro dos anos 1980, já que a cidade mudou – e muito – nos últimos 30 anos.

A solução foi fazer as internas num estúdio em São Paulo, as externas em Santos – cidade litorânea com arquitetura portuguesa mais preservada – e apenas algumas tomadas no Rio. “Mesmo essas externas que fizemos no Rio, em época de Copa e Olimpíadas, foram muito difíceis, um inferno”, admite o cineasta. O esforço teve sua recompensa: “Roubo” venceu os Kikitos de direção de arte e fotografia no último Festival de Gramado, além de roteiro, e ator, para Tiefenthaler.

E com todas essas falseadas e “liberdades poéticas”, o mais curioso é que uma parte que realmente aconteceu foi uma das únicas que ficou de fora. Ortiz revela que, na verdade, os ladrões foram presos duas vezes. “Na primeira, a polícia carioca extorquiu todo o dinheiro que eles tinham conseguido, o Karmann Ghia que tinham comprado e soltou os dois caras. Deixei isso de fora porque era louco demais, pensei ‘vou fingir que não sei disso’”, confessa. Às vezes, até para a ficção, o Brasil é um país inverossímil.

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