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Coluna – Ordinário

Naquela calçada imunda dormia um homem imundo, ao seu lado infestado de moscas estava um saco de lixo. Lixo para quem passava com olhar de repugna, lixo para a dona da casa que lhe expulsara dali com um jato de água. Para ele o saco era o tesouro, bens que conseguira com o esforço que lhe fora possível. Bens que nada mais era além de trapos, farrapos de cobertores e restos de comida em uma vasilha rachada. Sem contar diversos papéis que anunciavam ofertas de supermercados que ele jamais consumira. O homem com sua imundice saiu cambaleante sem dizer uma só palavra, talvez sem saber o que dizer por não conhecer o que lhe era direito, atordoado com dor no estomago e na alma, esperou o carro passar para atravessar a rua movimentada. O céu cinzento tinha cheiro de morte, mas a morte que vivia diariamente tinha um cheiro de sujeira. Estudantes fazendo arruaças tomaram-lhe o saco das mãos e como bola de futebol chutaram de passe em passe. Para eles era apenas um saco de lixo que saltava de um canto a outro, diversão… Para o homem era o que ele tinha… seus olhos anictericos acompanhavam com lágrimas brotando nos cantos mas suas mãos grossas de sujeira não conseguiam conter a brincadeira. O homem tinha fome de pão, todavia, naquele momento, queria se alimentar da justiça e da paz. Queria poderes para embargar aquelas ações, mas acima de tudo queria seu tesouro de volta. Um garoto que não participava do evento, chutou o homem na perna, Sem forças nos músculos caiu e sangrou a cabeça outro garoto sorrindo chutou-lhe o rosto e mais um que zombava ao lado socou-lhe os flancos esqueléticos. Um guarda que patrulhava o bairro apitou e a arruaça se desfez, correram todos, mas o homem não se levantou, seus objetos de apreço espalharam-se pelos arredores, pessoas saiam nas portas e olhavam o sangue se escorrer daquele homem sujo e mal-diziam o cheiro do saco do lixo, o cheiro do único bem conquistado pelo homem que não se levantava para reclamar a violência sofrida. Um senhor de ternos e óculos escuros com cabelos grisalhos viu aquele vulto caído, sangrando um sangue anêmico, perguntou ao guarda que patrulhava o bairro como faria para chegar ao Shopping. Quando os curiosos saíram um jato de água jorrou sobre o muro, o guarda havia saído de volta à patrulha do bairro, o homem não estava bêbado como muitos acharam, porém estava morto como muitos queriam.

Coluna de Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
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