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Coluna do Adilson Cardoso – As Viagens Sintéticas

Coluna do Adilson Cardoso – As Viagens Sintéticas

Era à hora do ângelus, suas mãos permaneciam amarradas, ameaçavam cãibras, estavam adormecidas há algum tempo. Fios amargos de lágrimas lhe escorriam pelos cantos dos olhos, tinha cordas também lhe atando os pés. Os repiques daqueles sinos denunciavam que a Igrejinha de São Sebastião não estava longe, porém não tinha ouvidos apurados para identificar direção, certa época frequentara aquela missa, fora aprendiz de sineiro, mas havia muito tempo, talvez dez anos, quando comeu a secretária da Diocese e roubou o lucro da festa para a construção da torre. Assim dera Adeus à vida pacata que lhe incomodava. Deliane era o nome da secretária tinha vinte e seis anos, recém casada com o motorista do Bispo, baixinha, clara de covinhas no rosto. De todo aquele passado que carregava na memória apenas uma imagem voltava insistentemente, Cristo dependurado numa cruz de madeira no centro do altar, com os braços abertos e um olho assustador a lhe punir. Enquanto isso o Padre dizia que era preciso confessar os pecados, velhas usavam véus fazendo sinais da cruz segurando velas acesas com suas mãos enrugadas, casais de jovens marcava datas de seus casamentos, as meninas com seus vestidos brancos, tomando hóstias defendendo a pureza. “Um caralho! saiam da Igreja direto para a cama do namorado, tinham que casar rápido mesmo!” Pensava irritado. Simbá fora o que lhe restara de nome e sobrenome, no passado havia assinado cheques fazendo rubricas e tivera seu nome anunciado como atração em clubes sociais. Restava-lhe um amargo indescritível na alma, tristeza imensa que lhe furtava a luz, nos últimos dias tudo se tornara cinza e o ar com cheiro de podre, o riso das pessoas pareciam irônicos e os ruídos de automóveis eram sons de pesadelos. Uma lembrança da ultima passagem pelo Manicômio descortinava um psicótico rodopiando no chão de piso grosso, em cada volta sugeria um lugar diferente, cidades históricas, praias, ilhas e condados americanos, mas depois de gritar por dezenas deles deparava-se com a mortal realidade de que não havia saído dali. A cabeça sangrava pelas constantes investidas no solo e as mãos soltavam pele da superfície palmar. Nem as revistas em quadrinhos tivera mais contato, todas as viagens que fazia nas selvas com os Escoteiros Mirins, o apoio que dava aos Irmãos Metralhas para os roubos a caixa forte do Patinhas e os inventos do Professor Pardal que por vezes tentara copiar na realidade, parece que tudo estava perdido. Um carro parou próximo do cativeiro, o som estava alto e tocava “Canção pra viver mais” musica da banda Pato Fú. “Eu vou te fazer chorar!” lhe escorria lágrimas que não estavam mais apenas no canto dos olhos, pela incomoda posição as pernas também adormeciam, os músculos repuxavam, o Vasto Lateral da coxa contraia, movimentou-se bruscamente, tentou se deitar em outra posição, mas os glúteos doloridos não permitiram, vinha cãibras pelos deltóides, a cada mudança os músculos tentavam se proteger e as cãibras migravam. A musica continuava incessante, “Eu vou te fazer chorar!”. Não se ouvia mais o sino, ali dentro era escuro e tinha cheiro de urina, sentia baratas pousarem sobre ele vindas de um buraco de privada próximo de onde estava. As cãibras lhe invadiam todo o corpo, mais baratas saia da privada, os Camundongos logo chegariam. Tocaram novamente a musica, fogos de artifícios explodiam intermitentes, o rosto de Cristo na cruz voltava a lhe punir, surgia na parede piscando sangue sem dizer nada, Simbá queria desviar a vista, mas os comandos cerebrais ordenavam, não fechem as pálpebras, “Cristo quer olho no olho contigo!”. Era voz que vinha de dentro, mas tinha som externo. Pediu perdão, repetiu todos os seus crimes, prometeu se tivesse mais uma chance trabalharia para ressarcir a Igreja, mas o olho de Cristo era cruel e piscava sangue, o outro não se abria a boca gesticulava, dizia palavrões. Seu desespero aumentava, Cristo parecia um mundano piscando aquele olho que não se fechava dizia “boceta de Deliane!” era a secretária da Diocese, filha de Cristo, vira por diversas vezes dizeres em sua camiseta “Pastoral das filhas de Jesus”. Cristo abriu o outro olho e esticou uma língua, era fina e bífida feito cobra, ele comia as baratas que pousavam sobre Simbá. Elas eram muitas, pareciam reproduzir-se enquanto voava, Cristo comia e piscava, naquele momento passou a piscar os dois olhos. As baratas se reproduziam tanto que o próprio Cristo parecia não suportar, vomitou sobre o que havia ingerido e deixou sua língua de cobra subindo pelas paredes, às baratas devoraram a língua. O corpo de Simbá já não sentia mais dor, rastejando como se fosse anestesiado passou a ignorar as baratas e os camundongos que mordiscavam seu corpo, com muito esforço julgou estar sonhando, pois passou ao lado dos pés de um homem que lia um jornal, conseguiu ficar de pé, havia uma janela aberta. Inexplicavelmente seus braços não tinham mais dor e nem as amarras que também não estavam nas pernas, sentiu-se alado e ouviu a voz de Cristo dizer: “Voe!” Simbá com suas longas asas saltou do vigésimo andar do prédio. Havia pedras de Crack e drogas sintéticas dentro do seu quarto. O gerente do Hotel disse a policia que o cliente chegou por volta das nove horas da manhã, ao meio dia saiu, educadamente cumprimentara todo mundo, voltando uma hora depois. “Nada demonstrara de anormal!”. Concluiu.

Por Adilson Cardoso

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

 

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