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Coluna do Adilson Cardoso – Coisas de Família

Coluna do Adilson Cardoso – Coisas de Família

Não acredito em Deus nem no diabo. Mas creio  que existem forças do bem e do mal pairando sobre nós, dependendo da nossa conduta atraímos uma ou outra. Mas para o meu pai, tia Heliodora fora vitima das teias do demônio. Sou filho único, naquela época  morávamos na Rua dos Inconfidentes numero 1154, apartamento 206. O andar era todo da nossa família, meu tio Helio Garrucha  dois anos mais velho que meu pai,  parecia ter a minha idade, raspava o cabelos dos lados e deixava uma tira colorida no meio, tocava violão e gaita, fumava maconha e  se embriagava todos os dias. Casara-se quatro vezes, a primeira esposa se chamava Sulamita, Boliviana que conhecera na delegacia, quando havia sido detido fazendo sexo com um gay  num lote vago. O que ela tinha de gostosa tinha também de pilantragem, minha mãe repetia todas as vezes que entrava em TPM que meu pai era um calhorda, pois  comia a mulher do próprio irmão, ele negava, porém  pessoas os viram, entrando em hoteizinhos de encontros rápidos. Sulamita era pesquisadora do sexo, por isso também se deitava  com   vizinhos e amigos do marido. Mas meu tio era muito louco e achava tudo divertido, não escondia de ninguém sua tara por prostitutas, fazia aniversário no puteiro de Carmesina e dava presentes caros a Lucia Tigrona, uma branquela de peitos enormes que entre uma foda e outra fazia bicos de Cartomante. Ele gostava também da Mirela uma moreninha de olhos puxados de  alcunha  “Japinha.” Durante o dia ela fazia  plantões como Enfermeira no Hospital Madre Serafina e a noite distribuía  no puteiro de Carmesina. O tio Heliodoro era o inverso do irmão, caseiro e católico,  casado com Marizia minha ex-professora de OSPB. Tia Heliodora era a única mulher, mimada pelos meus avós, crescera usando as melhores marcas e estudando nos colégios da nobreza, era racista e não gostava de pobre, comprara um exemplar do livro “Minha Luta” de Hitler, mas felizmente era muito burra e não entendera nada, abandonado o livro. Meu avô Capitão reformado do Exercito tinha raízes negras na família, mas não se importava que a filha se comportasse como Neonazista, minha avó, herdeira dos Gomes França só pensava nos produtos caros para esticar a pele, se reunia com as amigas ás quintas-feiras para assistir filmes pornográficos e tomar licor de catuaba. Minha mãe não gostava dela, a chamava de velha biscateira, nos dias de TPM gritava aos ventos que minha vó pagava o Renato para transar com ela. Eu morria de curiosidade para saber quem era o tal, mas infelizmente minha mãe não dizia, e eu não teria  coragem de perguntar ao meu pai quem era o cara que comia a mãe dele.  Depois de muito tempo tentando passar numa prova de redação para entrar na faculdade de Medicina, minha tia Heliodora desistira de insistir no Brasil, com o apoio da família fora subornar os Reitores de uma Faculdade na Bolívia.  Universidad Santa Madre Nuestra, parecia que a moça de tantas contradições começava encontrar seu rumo, seis meses se passaram, a família cada vez mais orgulhosa, só falava  na futura medica que retornaria dali a quatro anos, quando chegavam visitas, minha avó apontava com um sorriso sem graça, por causa do excesso de botox, um pôster da tia Heliodora de jaleco branco e um estetoscópio jogado no pescoço.

— Esta é a doutora Heliodora!

Quando a visita se despedia, minha avó retomava as bajulações.

— Você não acha que a doutora Heliodora é linda?

Os “lambe-botas” diziam além do perguntado. Outros um sim com meio sorriso aberto, outros apenas balançavam a cabeça positivamente. Dois anos se passaram como vento em janela de Trem, porém há um ano e meio tia Heliodora não mandava noticias dos estudos, Ligava algumas vezes para dizer correndo que não se preocupassem com ela. Até que um telefonema anônimo delatava que tia Heliodora estava no Presídio Carlos Alberto Jonas Giordano em Corumbá no MS. Meu avô usando de sua influencia ligara para o seu fiel capacho, deputado Samuel Anastácio do PMDB, que imediatamente solicitara um relatório ao diretor Jaliezio Mundangá Silverino, indicado por ele, em poucos minutos um e-mail estava na mesa do deputado relatando que a presa era de alta periculosidade, e que fazia parte de uma Facção criminosa que traficava armas e drogas, meu avô depositara a mão sobre o peito ameaçando um ataque fulminante do coração, minha avó se apressara em lotar um copo de wisque e virar na garganta. Talvez fosse aquela a primeira vez que eu vira minha família toda reunida, meu tio Helio estava na quarta esposa, dois filhos que corriam com seus tênis que acendiam  luzes vermelhas no calcanhares, enquanto ele pedia calma com seus óculos redondos e o hálito de marijuana. Eram lamentações clichês como; “onde foi que eu errei” e “Mas nunca lhe faltou nada.” Naquele instante de depressivas reflexões, o deputado ligava  para o meu avô avisando que havia acontecido o milagre, o desembargador Pereira da Silva expedira um alvará de soltura para ela e que por falta de provas o caso fora  arquivado.

— Minha nossa senhora, meu São Judas Tadeu, foi um milagre eu pedi tanto a Deus! – Bradou meu avô com o deputado na linha.

— Tem que ter  muita fé mesmo seu Heliodoro! Pela gravidade do crime o milagre realmente foi muito grande! Mas escuta, o dinheiro deve estar na conta até ás dezesseis horas de hoje! – Silenciou-se a conversa e festa começou, pessoas que ouviram a noticia chegavam aflitas, em busca de respostas, minha avó com seu sorriso botox, fumava uma cigarrilha e tomava sua bebida deixando que o advogado da família repetisse a mesma coisa,

— Foi um grande equivoco, a doutora Heliodora foi confundida com outra pessoa quando atravessava a fronteira, mas está tudo esclarecido.

Duas semanas depois, minha tia era  assassinada com quarenta e oito tiros, estava com o namorado Aragon Elias Mendieta numa Land Rover, no seu interior havia cento e cinqüenta quilos de pasta base de cocaína e quatro Fuzis Russos, além de  trinta caixas de munição. Meu avô fora  parar no hospital com um AVC isquêmico, não morrera, ficando em estado vegetativo, numa cama montada por uma equipe contratada pela minha avó, foi lá que descobri que o Renato era um Fisioterapeuta que cuidava da vizinha que havia sofrido acidente de carro. Num daqueles cheguei sorrateiro, estava com saudades das historias do meu avô, fui direto ao quarto em que ele guardava suas lembranças de combatente da bandidagem, quando abri a porta vi uma cena que jamais me esquecerei… Minha mãe estava certa, minha avó era uma “velha biscateira”.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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