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Crianças vítimas de tragédia foram veladas em Janaúba

Norte de Minas – Janaúba, um povo que não conhecia a palavra crueldade

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Norte de Minas – Janaúba, um povo que não conhecia a palavra crueldade

Com o neto sendo velado na sala, a avó diz que se o vigia não tivesse morrido ela reuniria todos os amigos dela para cuidar dele: “esse homem estava sofrendo demais para fazer tanta gente sofrer assim, filha. Ele precisava de tratamento”, disse Hilda Rodrigues, 67, avó de Luiz Davi Rodrigues, 4, uma das cinco crianças que morreram queimadas na creche Gente Inocente.

Crianças vítimas de tragédia foram veladas em Janaúba
Crianças vítimas de tragédia foram veladas em Janaúba

 

Essa fala dela é talvez o maior exemplo do quanto os moradores de Janaúba são pessoas que desconhecem a palavra hostilidade, pelo contrário, são de uma simplicidade que te abraça a alma. Nos velórios realizados dentro das casas, tradição mantida há anos – mesmo que já tenham sido criados locais oficiais para velar corpos – eles precisam estar no aconchego de casa, com café e biscoito, unidos. E assim velam à noite inteira seus mortos, ainda que jamais tenham imaginado ter em suas salas um caixão tão pequeno, muito menos pelo motivo que foi.

Hilda só queria que a dor que ela e a filha Fernanda Rodrigues, empregada doméstica de 24 anos, estavam sentindo pela falta que Davi já estava fazendo, passasse. Entre tantas lembranças fresquinhas do neto, ela citou uma cirurgia recente no umbigo. “Não esperava que Davi ia morrer desse jeito. Reconheceram ele pelo umbigo”, contou, referindo-se ao reconhecimento do corpo muito queimado, bem diferente da fotinha em cima do caixão.

Luiz Davi era um dos 14 netos de Hilda, uma conta que ela demorou a fazer e demorará mais ainda a não incluir o pequeno entre os seus herdeiros vivos de sua bondade. “Ele dizia que gostava de mim desse tantão” (e mostrava com os braços largos imitando o neto).

Já Janiqueli Silva Soares, 29, mãe de Ruan Miguel Soares, 4, também com um gesto mostrou onde seu filho apoiava para dormir, no ombro, agarradinho com ela. No terreiro,  junto aos seus amigos e familiares que lhe davam força no velório de seu filho, ela dizia: “Eu nunca mais vou ver meu menino, ô dózinha”, e olhava para cima sem parecer sequer enxergar aquele céu estrelado numa noite de lua cheia, que naquela e tantas outras casas de Janaúba seria das mais longas.

O velório de Ruan na casa azul da rua José Gorutuba, no bairro Barbosa, foi a alguns quarteirões do de Davi, e também era pertinho do da Ana Clara Ferreira, 4. Nas vias escuras de terra, era fácil encontrar as casas, pois várias pessoas estavam sentadas do lado de fora, com as portas abertas para quem quisesse prestar um conforto, e todos eram recebidos com carinho. Lá dentro estavam os caixõezinhos, ao lado de coroas de flores e símbolos religiosos, no meio da sala das casas pequenas, de chão batido.

Quase não dava para reconhecer Ruan, mas para os que estavam ali, só enxergavam o menino sapeca, que um dia botou fogo na casa que morava na roça. Ontem, ele salvou uma coleguinha do incêndio criminoso, mas quando voltou para buscar outro amigo, não conseguiu sair pela janela. “A menina que trabalhava na creche contou que eles morreram abraçados. Quando separaram os corpinhos, ficou a pele um do outro nos braços”, narrou Dinamar Dias Barbosa, vizinho da frente da casa de Ruan.

As informações são do Portal O Tempo

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