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Norte de Minas – Janaúba se despede de nona criança

Norte de Minas – Janaúba se despede de nona criança

A noite já ia avançada, mas no quintal da casa de dona Santa não parava de chegar gente. Com o semblante cansado e o olhar de quem já viveu muita coisa, uma senhora se aproximou do portão. Lá na esquina, o carro da funerária apontava, e rapidamente o murmurinho agitado deu lugar a um silêncio de dor. Quatro dias após a tragédia na creche “Gente Inocente”, Janaúba velaria sua nona criança.

Matheus Felipe Rocha Santos, de 5 anos
Matheus Felipe Rocha Santos, de 5 anos

 

O pequeno caixão de Matheus Felipe Rocha Santos, de 5 anos, foi carregado sem dificuldades e instalado no meio da sala, onde um delicado altar já o aguardava desde cedo. Na parede amarela descascada pelos anos, uma toalha de renda branca, enfeitada com flores, amparava um crucifixo e uma foto de um Matheus sorridente, bem diferente daquele que chegava de Belo Horizonte para se despedir dos seus.

Logo uma fila enorme se formou do lado de fora. Todo mundo queria fazer uma última homenagem àquele menino brincalhão, que adorava correr pelo quintal da avó. Por pelo menos 30 minutos a fila durou: crianças, idosos, família e amigos, todos precisavam daquele momento de adeus. “Ele era muito querido e amado. Olha o tanto de gente que passou por aqui”, comentou mais tarde Adelaide Sena de Jesus, tia do garoto.

Com 50% do corpo queimado, Matheus havia sido transferido entre a madrugada de sexta para sábado para o Hospital de Pronto-Socorro João XXIII, na capital, onde precisou passar por cirurgia. Durante o procedimento, o garoto sofreu três paradas cardiorrespiratórias e não resistiu. A notícia da morte veio às 2h20, mas só às 23h o corpo chegou a Janaúba para ser enterrado. “No início foi aquele desespero. Mas depois até a mãe dele entendeu que agora ele descansou. Imagina, ele ia ter que amputar as duas pernas, logo ele que gostava tanto de correr”, conta a tia.

No meio da noite, alguém decidiu que a foto sorridente da parede deveria estar mais próxima, e o retrato foi colocado sobre as pernas do garoto no caixão, como em um lembrete dos dias de riso fácil e alegria genuína. “Dia de domingo ele vinha aqui e pedia para eu fazer suco pra ele. Depois brincava a tarde toda com o primo Nicolas. Eram a alegria da casa”, lembra dona Santa, avó das crianças.

Matheus e Nicolas Eduardo Freitas Borges, que completa cinco anos nesta terça-feira (10), cresceram juntos e estavam em salas vizinhas na última quinta-feira, quando o vigia Damião Soares dos Santos, de 50 anos, ateou fogo à creche. Nicolas teve queimadura das vias aéreas mas está fora de perigo, se recuperando em Belo Horizonte.

“Esses dois viviam juntos. Fico pensando no dia em que o Nicolas voltar para cá e perguntar: ‘vovó, cadê o Têu?’ O que a gente vai responder pra ele? Como a gente vai contar?”, pergunta dona Santa, com o olhar longe em busca de respostas. “Só Deus para dar força pra gente mesmo nessa hora”.

Lembranças

Do riso alegre à fascinação com a polícia e o sonho de andar de avião. A avó lembra que uma vez o netinho conversou com policiais na rua e fingiu também ser policial. Já a tia Adelaide conta que o sobrinho era louco com carros e com aviões: “Quando via um no céu ele falava: ‘mamãe, um dia vou andar num desses'”.

Como em uma peça do destino, Matheus, em estado grave, foi transportado de avião de Montes Claros até Belo Horizonte para tentar se salvar. A tia conta que, mesmo inconsciente desde a manhã da tragédia, o sobrinho em alguns momentos demonstrava reações à família, e foi o que aconteceu naquela hora. “A mãe dele chegou pertinho e falou: ‘Têu, você vai andar de avião mais o papai’. E aí uma lágrima escorreu no rosto dele. Ele entendeu”.

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