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Norte de Minas – Missa de sétimo dia pelas vítimas de Janaúba

Norte de Minas – Missa de sétimo dia pelas vítimas de Janaúba

A entrada do Hospital Regional de Janaúba amanheceu lotada de gente. Ao contrário da agitação e desespero da última semana, porém, dessa vez, o momento foi de silêncio, fé e muita oração.

Momento foi de silêncio, fé e muita oração em Janaúba
Momento foi de silêncio, fé e muita oração em Janaúba

 

Centenas de pessoas se reuniram nesta quarta-feira (11) para orar na celebração da missa de sétimo dia das vítimas da tragédia. Juntos, familiares, amigos e funcionários do hospital silenciaram corpo e mente para lembrar das almas dos que não resistiram ao incêndio e para pedir proteção aos que ainda lutam para viver.

“É com muita dor e sofrimento que eu venho aqui. Agora, o único sofrimento que não consigo sentir é de raiva, até mesmo porque meu filho nunca sentiu raiva, nunca conseguiu odiar alguém”, disse no altar Valdirene Santos, mãe do pequeno Matheus, de 5 anos, que faleceu na última segunda-feira. “Não vamos ficar nos perguntando por que, para que, vamos simplesmente pensar que nosso senhor Jesus Cristo estava precisando desses anjinhos lá no céu”.

Em um relato emocionado, Valdirene contou que desde quando chegou em Montes Claros, para onde o filho foi transferido inicialmente, e viu seu rosto, ficou muito chocada. “Não parecia o meu menino. Eu sempre fui uma mãe muito carinhosa, sempre gostei de beijar e abraçar os meus filhos. Mas por um momento eu sentei na calçada de Montes Claros e pensei assim: ‘Meu Deus, todos os dias eu beijava o meu filho, hoje eu não posso beijar o rostinho dele’. Não podia porque não tinha condições, não tinha onde eu beijar”, contou Valdirene. “Aí eu fiz uma oração e pedi para que Deus amolecesse o coração de todas as mães, para que elas beijassem mais os seus filhos, dessem mais carinho a eles. Porque eu queria beijar meu filho e não podia. O momento que eu pude beijar e abraçar meu filho, pegá-lo no colo de novo, ele já não estava mais aqui entre nós”.

Valdirene, que entrou no momento da oferenda na missa carregando a imagem de Nossa Senhora Aparecida, fez um pedido à comunidade. “Peço a vocês que não sintam raiva, porque raiva é um sentimento muito negativo e só vai trazer coisas negativas. No momento, o que precisamos é de muita oração. Meu coração não parava de doer hora nenhuma naquele dia, aquela sensação de estar ali e não poder fazer nada, nem mesmo dar a sua própria vida para salvar o seu filho. Então peço a vocês que rezem. Rezem pelos que já foram e pelos que estão aí lutando pela vida, porque eles são muito guerreiros”.

Momento foi de silêncio, fé e muita oração em Janaúba
Momento foi de silêncio, fé e muita oração em Janaúba

 

Durante a celebração, o padre Carlos Alves dos Anjos, reitor do Seminário da Diocese de Janaúba e capelão do hospital, tentou transmitir força e tranquilidade aos presentes. “É uma mensagem de paz, de esperança e de ressurreição. Apesar da tragédia, da dor, do luto, nós devemos continuar nossa missão, nossa caminhada no reino de Deus, construindo a vontade de Deus aqui na Terra. É uma mensagem de tranquilidade, para motivar nosso coração nessa caminhada que tem que continuar”, afirmou. “Quando estamos diante de uma catástrofe ou desgraça, antes de fazer qualquer barulho precisamos silenciar e orar. Na oração encontramos a paz”.

Ainda internado por conta da fumaça que inalou no dia da tragédia, o embalador Elton Batista de Oliveira, 47, que ajudou a salvar pelo menos 30 crianças, foi até a entrada do hospital para acompanhar as orações. “Eu ia pagar uma dívida de supermercado e estava passando em frente da rua quando uma mulher chamou dizendo que a creche estava pegando fogo. Arrombamos o portão e entramos lá dentro. Não pensei um segundo. Tenho filho, acho que qualquer pai faria isso. Eu pegava umas cinco, seis crianças de uma vez e jogava para fora”, conta. “Agora o coração está batendo a mil. Queria ter podido salvar mais”.

Presente na celebração, o vice-prefeito de Janaúba, Sargento Elton, disse que o momento ainda é difícil e de muita comoção para a cidade. “A gente tem que se apegar à fé, crer em Deus. A vida continua. Estou admirado com as palavras da mãe do Matheus. São palavras que nos dão força para prosseguir, para cuidar da nossa cidade, para a gente voltar ao normal”, disse.

Segundo o vice-prefeito, apesar do momento de luto, o recomeço já está sendo pensado. “Sexta-feira será apresentado o projeto de uma nova creche. Estamos recebendo ajuda de todos os lados, de empresários, do governo federal. Sem uma creche essas crianças não vão ficar”, garantiu Sargento Elton, explicando que a ideia do prefeito é fazer no local da tragédia um monumento de homenagem às vítimas. “Se Deus quiser na segunda-feira nós estaremos já colocando em prática a construção da nova creche, em outro espaço”.

Homenagens

No fim da missa, algumas pessoas fizeram pequenas homenagens às vítimas. Um cortejo de funcionários do hospital carregando balões brancos com os nomes das vítimas caminhou até o altar. O padre leu nome por nome e soltou os balões ao céu. O último a ser lido foi o da professora Heley, que recebeu longos aplausos da comunidade.

“Os dias estão mais longos e as noites mais frias. Ficamos esses dias tentando chegar a uma conclusão, tentando encarar a situação de um jeito menos dolorido. Ainda dá para ouvir o barulho das sirenes e dos helicópteros, ainda dá para sentir o choro entalado na garganta. Ainda sentimos que estamos vivendo o dia 5 de outubro todos os dias. Mas queria dizer que Deus tinha um propósito para os filhos de vocês e para nossa querida professora”, disse Giovana Rocha, de 16 anos, da Equipe Ser Solidário, que desde 2014 reúne jovens voluntários para trabalhar com crianças.

“Fiquei esses dias me perguntando, que propósito era esse, qual missão Deus deu a eles e por que levá-los tão cedo. Foi aí que Deus me mostrou e me fez ver o quão importante os filhos de vocês foram para todos nós. A nossa cidade estava um caos, triste, cheia de ódio, com hospitais a beira de fechar e causar enorme dor na cidade”, continuou Giovana. “Eles foram os anjos que Deus nos enviou para vermos que união, amor e solidariedade são as forças necessárias que faltavam em nossa cidade. Graças a esses anjos, nossa cidade se encontra cheia de amor ao próximos. Graças a eles, nossa cidade luta por dias melhores, para honrar o nome deles, todos os dias”.

*Por Luiza Muzzi do Portal O Tempo


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