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Dia do Professor – Tragédia em Janaúba revela dedicação sem limite de professores de creche

Dia do Professor – Tragédia em Janaúba revela dedicação sem limite de professores de creche

No porta-malas do Uno prata, três sacolinhas de plástico guardavam presentes coloridos que não puderam ser entregues. Seria uma semana especial, a mais importante do ano, e, na sexta-feira, durante a festa das crianças, os alunos ganhariam as lembrancinhas, tão cuidadosamente preparadas pelas professoras da creche Gente Inocente. Não deu tempo. O fogo se alastrou rapidamente no dia 5 de outubro, interrompendo vidas e sonhos cedo demais.

Selma conta que professoras se unem para conseguir dinheiro para eventos infantis
Selma conta que professoras se unem para conseguir dinheiro para eventos infantis

 

Por acaso, os presentes da turminha da professora Heley de Abreu Silva Batista, 43, ficaram no carro. Eram pequenas bolsinhas coloridas, personalizadas com o nome de cada criança e recheadas de balas, pirulito e pipoca. Hoje, dez dias após a tragédia que deixou 11 mortos e dezenas de feridos em Janaúba, no Norte de Minas, as lembrancinhas intocadas ainda guardam parte do amor de uma professora, um amor tão grande que a fez dar a própria vida na tentativa de salvar suas crianças.

“O fundo do meu carro está cheio de presentes que só agora (seis dias depois) vi. Ela tinha esse carinho de fazer um presentinho bom para cada um dos meninos”, conta Luiz Carlos Batista, 49, marido de Heley.

Heley deixou no carro presentes personalizados que iria distribuir aos alunos
Heley deixou no carro presentes personalizados que iria distribuir aos alunos

 

Acolhida. Assim como Heley, muitos outros professores se dedicam e se entregam para além de suas obrigações, na tentativa de, mesmo com estruturas precárias, dar, além de conhecimento, acolhida e amor a seus alunos. “Por mais que não tenha tanto apoio, a gente faz acontecer. É um esforço que faz a diferença na vida deles, um reconhecimento que dinheiro não paga, não”, diz Selma Rejane Pereira da Cunha, 42, professora do maternal 2 na creche Gente Inocente.

Colega de Heley, Selma conta que o grupo de 12 professoras da unidade trabalhou o ano inteiro para realizar, por conta própria, uma semana especial em comemoração ao Dia das Crianças.

Ajuda. Em meio à dor da tragédia e tentando superar a perda da amiga Heley, a professora Selma da Cunha não esquece de seus alunos e suas famílias. “Estamos buscando em Deus força para ajudar também as famílias que perderam seus filhos. A gente vai aceitando, mas a dor continua. Perdemos uma amigona (Heley), mas, aos poucos, essa dor já começa a se transformar em saudade”, afirma ela.

Vítimas. Dentre os mortos na tragédia do último dia 5, a maioria era da turminha de Heley.

Endereços. Ainda tentando se reerguer da tragédia, o marido de Heley, Luiz Carlos Batista, já decidiu: vai procurar os endereços de cada aluno para entregar às famílias os presentinhos que a mulher preparou.

Fotos. “Ela me mostrava foto daqueles meninos todo dia, me contava deles com muita alegria”, diz o marido.

Como seriam as comemorações da Semana da Criança

Organização Para conseguir dinheiro para comemorar o Dia das Crianças, as professoras da creche Gente Inocente realizaram diversas atividades ao longo do ano, como festa junina e bazar, conta a professora Selma da Cunha.

Brincadeiras A Semana da Criança teria três dias de atividades, incluindo um passeio das crianças ao clube da cidade, brinquedos como pula-pula e piscina de bolinhas, banho de mangueira e apresentações de animadores.

Tristeza “A gente fez um cronograma, estava tudo tão organizado, não podia terminar desse jeito”, lamenta Selma da Cunha. Ela diz que, normalmente, são os professores que buscam patrocínio para esse tipo de evento.

ESCOLAS

Estrutura é problema comum

Assim como na creche Gente Inocente, que não tinha extintores de incêndio ou saídas de emergência, a falta de estrutura de escolas da rede pública no Brasil é um problema recorrente. Sem poder fazer muita coisa, professores se desdobram e arriscam a própria segurança para continuar lecionando.

“Os bombeiros estão fazendo vistorias em todas as escolas da cidade. Das nossas 26 unidades, apenas uma ou duas estão adequadas em termos de infraestrutura. Tenho ciência disso, mas do meu quadro de professores não posso reclamar”, diz a secretária municipal de Educação de Janaúba, Luzia Angélica de Fátima Aguiar Santos.

“Continuamos porque temos esperança de que as coisas vão melhorar”, diz a professora Selma da Cunha, da Gente Inocente. “Mas, depois da tragédia, sou outra pessoa. A gente aceita tudo. Mas temos que aceitar? Vamos questionar mais por que as coisas são assim. Está certo essa quantidade de alunos por sala? E essa estrutura? Por que foi aprovado aquele PVC no teto da escola?”, reflete.

De acordo com a secretária, o município tem 800 professores, e 99% têm graduação completa. “Pagamos o piso de ensino médio porque não temos condições, mas eles merecem muito mais. Professor não tem dia, hora ou local. Fazem muito por amor à profissão, porque, pelo que recebem, não valeria a pena”, afirma a titular da Educação.

Por Luiza Muzzi

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