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Objetos nazistas são vendidos livremente em sites brasileiros

Objetos nazistas são vendidos livremente em sites brasileiros

No momento em que movimentos de extrema-direita tomam as ruas com mensagens de ódio e intolerância pelo mundo, produtos nazistas são vendidos livremente em site de oferta brasileiro. Moedas, livros, DVDs, capacetes, tijolos e anéis podem ser comprados desembolsando de R$ 10 a R$ 2.500, segundo levantamento feito pela reportagem.

Vendedor diz que anel era de seu avô, que deixou vários objetos nazistas como herança
Vendedor diz que anel era de seu avô, que deixou vários objetos nazistas como herança

 

Uma nota da moeda em circulação na Alemanha Nazista (1935 a 1945), a Reichsmark, é negociada por R$ 390. Nas imagens, há um destaque nos símbolos que ilustram a cédula. Um capacete, que segundo o vendedor foi usado por soldado alemão, é vendido por R$ 180. Ele ressalta ser a última peça no estoque. Em outra oferta, há um soldado nazista em cera por R$ 110.

Os objetos são de pessoas do Rio Grande do Sul, Santa Catarina, São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Goiás. Apenas em Minas Gerais, são 56 registros de vendas dos produtos. Selos e moedas com rosto de Adolf Hitler, por exemplo, partem da cidade de São Lourenço, no Sul de Minas.

O site de vendas não permite troca de telefones para negociar os produtos. A reportagem pediu o contato de vendedores, mas eles disseram que passariam apenas depois de o produto ser comprado, o que não ocorreu. Toda negociação deve ser feita por troca de mensagens.

Um anel de prata com a suástica nazista sai por R$ 2.500. Quatro pessoas enviaram mensagens ao vendedor de São Paulo demonstrando interesse em comprar o objeto, que pode ser adquirido à vista ou parcelado em cartões de crédito. Eles queriam uma prova da autenticidade da joia. Em uma das respostas, o vendedor fala que o produto era de seu avô e que há outros objetos nazistas com ele. “Infelizmente, meu avô deixou o certificado na pasta com os documentos nazistas, então eu não sei qual é. (Está tudo em alemão). Pois então, o certificado existe, mas não sei qual é. Grato, boa noite. Confira nossos outros produtos” (sic).

Prisão. Para alguns, não há problema em comercializar e manter os produtos nazistas. Porém, lei federal de 1997 proíbe qualquer tipo de divulgação do nazismo no Brasil. De acordo com a lei, “fabricar, comercializar, distribuir ou veicular símbolos, emblemas, ornamentos, distintivos ou propaganda que utilizem a cruz suástica ou gamada, para fins de divulgação do nazismo”, a punição vai de dois a cinco anos de prisão e multa.

A legislação ainda prevê que o Ministério Público pode pedir a apreensão dos objetos à Justiça antes mesmo de um inquérito policial ser aberto.

Professor travou batalha judicial por coleção

Entre 1998 e 2017, um professor de história de Santa Catarina travou uma batalha nos tribunais para conseguir os objetos nazistas apreendidos em sua casa. De acordo com dados do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul, o professor natural de Blumenau (SC) não poderia reaver as fotografias, quadros, livros, revistas, camiseta com a imagem de Adolf Hitler e objetos com a suástica por se tratar de apologia ao nazismo. O professor alegou em sua defesa que os produtos eram para estudo, o que não foi aceito pelos desembargadores.

A movimentação mais recente do processo é de agosto deste ano, quando a ação voltou para Blumenau para ser arquivada. O professor não conseguiu de volta seus pertences nazistas.

Wander Pugliesi ficou conhecido em todo Brasil por causa da apreensão. Em dezembro de 2014, Pugliesi voltou a ser destaque nacional. Policiais em uma aeronave da Polícia Militar de Santa Catarina, que se deslocavam para um resgate, fotografaram uma suástica no fundo de uma piscina. O dono da casa era Pugliesi. O professor não foi punido.

Incentivo à cultura do ódio

Especialistas alertam que a venda de objetos nazistas cria um incentivo ao ódio na cultura brasileira. “Nas escolas e universidades, o aluno vai ter acesso ao conteúdo, mas vender para colecionar vai incentivar a cultura do ódio”, diz Eduardo Lima, mestre em história social pela Universidade Estadual Paulista (Unesp).

Lima afirma ainda que a venda de produtos nazistas não é uma questão de liberdade de expressão. “Liberdade de expressão é para ampliar direitos. A extrema-direita não vai aparecer no Brasil com proposta racial. É burrice, já que a maioria é parda ou negra no país. Vão apelar para quebra de direitos de minorias. Esses produtos incentivam isso”, afirma.

O cientista político Rudá Ricci diz que o movimento de extrema-direita reaparece com força principalmente na Europa e nos Estados Unidos. Uma das justificativas dos grupos é a xenofobia. Segundo ele, o movimento ideológico atual do Brasil mistura os fatos históricos, e os vendedores de produtos nazistas deveriam ser presos. “Está na Constituição e ela deve ser cumprida”, diz.

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