MG - Em Minas Gerais, Febre maculosa mata 4 em 10 doentes; autoridades estão em alerta
MG – Em Minas Gerais, Febre maculosa mata 4 em 10 doentes; autoridades estão em alerta

 

As mortes confirmadas nessa segunda (3) pela Secretaria de Saúde de Contagem são de dois homens, um de 19 anos e outro de 41, da mesma família. Eles viviam no bairro Vila Boa Vista, no distrito Nacional. A prefeitura trabalha com a hipótese de que eles teriam contraído a bactéria após capinar um lote perto de casa, onde há uma criação de cavalos, que, assim como as capivaras, são hospedeiros do carrapato.

Dois adultos, de 81 e 69, que moravam no mesmo local também vieram a óbito, mas a análise toxicológica, para saber se a causa é febre maculosa, está sendo feita. Outros 13 casos de pacientes com suspeita da doença ainda são investigados.

Ao todo, 150 pessoas residem na região, que concentra 35 casas. O espaço foi inspecionado, com controle químico, e a administração municipal recolheu animais para dar banho e aplicar carrapaticida.

Semelhante à dengue

Febre alta, manchas na pele e dores no corpo são os primeiros sintomas da febre maculosa. Como a doença tem os mesmos indícios da dengue, isso pode acarretar uma demora no tratamento, diz o infectologista e professor da Faculdade de Medicina da UFMG, Unaí Tupinambás.

“O mais importante é o paciente dizer que teve contato com mato, se encontrou carrapatos no corpo. Sem isso, fica difícil a equipe de saúde chegar na febre maculosa, tendo em vista a epidemia de dengue”, frisa.

No entanto, como já se sabe que os casos estão relacionados à enfermidade transmitida pelo carrapato, o médico reforça que a detecção precoce e o tratamento com antibiótico podem reduzir a alta letalidade.

Para se prevenir, a população deve evitar o contato com o vetor, usar roupas claras de mangas compridas, sapatos fechados e de cano alto, além de inspecionar o próprio corpo. “Ao sinal de febre, a pessoa deve ir a uma unidade de saúde”.

Medo da enfermidade lota unidade básica de saúde na cidade da região metropolitana

O clima é de preocupação e cuidado redobrado no bairro Vila Boa Vista, onde moravam os quatro pacientes que morreram em Contagem. No domingo, o Executivo municipal havia solicitado que os familiares deles comparecessem à Unidade Básica de Saúde (UBS). Das cerca de cem pessoas contactadas, 90 tinham ido ao posto para fazer o primeiro atendimento até as 15h de ontem.

A proximidade com as vítimas fez com que a UBS ficasse lotada de moradores da região. Um deles era o faxineiro Reginaldo Santana, de 48 anos, que vive no local há pelo menos 15. Ele teve que dividir o tempo entre o velório do pai, cuja causa do óbito está sendo investigada, e a fila na unidade. A esposa dele também compareceu. “Senti algumas dores no pescoço e, sabendo do risco, preferi vir para solicitar alguns exames e não correr perigo”, afirmou o faxineiro.

O mesmo alerta levou o pedreiro Genoval Mendes, de 40, a aguardar por atendimento no complexo. Ele chegou a realizar o exame, mas, como havia feito uso de um medicamento, foi orientado a buscar uma nova avaliação, daqui a três dias. Genoval garante que vai seguir todos os procedimentos para evitar ser diagnosticado com a febre maculosa. “O clima está muito ruim, todo mundo está abatido. Eu conhecia todas essas pessoas que morreram. Ninguém imaginava uma tragédia desse tamanho”, disse o pedreiro.

A médica Giulliana Cantoni, gestora responsável pela clínica municipal em Contagem, diz que a vigilância é crucial nesse momento. “As pessoas podem vir à UBS, saber se existe algum exame e medidas de prevenção à febre maculosa. Estamos trabalhando no sentido de orientar e acalmar essas famílias”, explica a médica. (Lucas Eduardo Soares)

Casos podem ter relação com as capivaras da Pampulha; PBH garante monitoramento constante

Transmitida por carrapatos, a febre maculosa é comum em áreas perto de lagoas, matas e no meio rural, como explica o infectologista Tupinambás. A região em que as vítimas viviam fica na divisa de Contagem com BH, próximo à lagoa da Pampulha, onde há capivaras.

A prefeitura da cidade metropolitana diz que a infestação pode estar relacionada a esses animais. Conforme o veterinário José Renato de Rezende Costa, da diretoria de Vigilância Ambiental e Controle de Zoonoses, há um córrego que liga os dois municípios. Ainda segundo ele, os roedores transitam pelo curso d’água.

Em nota, a Secretaria de Meio Ambiente da capital afirmou que todos os bichos que vivem na orla da lagoa foram esterilizados e receberam aplicação de carrapaticida, sendo que nenhum novo indivíduo teria chegado ao local. A pasta ressalta ainda que as capivaras são “exaustivamente monitoradas”, a pé, por barco e inclusive por drones.

“A secretaria tem dedicado atenção especial ao local onde ocorre o desassoreamento da lagoa da Pampulha, por ser de difícil acesso. Estamos contando com a empresa contratada até o fim de 2019 e qualquer nova capivara identificada sem manejo será tratada (captura, cirurgia de esterilização e aplicação de carrapaticida)”.

Em Belo Horizonte, três pacientes estão internados com suspeita de febre maculosa no hospital Eduardo de Menezes, no bairro Bonsucesso, no Barreiro. A informação é da Fundação Hospitalar de Minas Gerais (Fhemig). Não foram dados detalhes sobre as localidades onde residem os doentes. O estado de saúde também não foi divulgado.