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Leandro Heringer
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Coluna de Leandro Heringer – Clube dos homens invisíveis

Papéis sociais são culturais. De tempos em tempos são modificados. Dentro das famílias, tanto o conceito quanto a alteração são nítidos. O questionamento dessas atribuições e dos rótulos que derivam das construções sociais é constante.

A figura do pai provedor e da mãe dona de casa responsável pelo núcleo familiar vem perdendo força ao longo dos anos. A independência econômica da mulher é uma realidade em muitas famílias. De acordo com o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o percentual de domicílios brasileiros liderados por mulheres passou de 25%, em 1995, para 45% em 2018. Os dados da pesquisa que 57% delas estão nessa posição sem a presença de um parceiro: 32% são mulheres solteiras com filho, 18% vivem sozinhas e 7% dividem a casa com amigos ou parentes.

Uma mudança de modelo e de experiência considerável e que impacta na população masculina. Ter uma companheira que ganhe salário maior passou a ser realidade. A postura dos pais em relação aos filhos também é reconsiderada. Não apenas ser provedor ou contribuir financeiramente, mas também estar próximo, dialogar e participar de atividades como reuniões escolares e idas aos médicos.

Nesse contexto, uma expressão foi criada: “pãe”. Termo que designa o pai que, teoricamente, realiza os papéis sociais de pai e mãe. É necessário ressaltar que a nova palavra remete a papéis sociais definidos em outros tempos. Cada vez mais é comum ver homens acompanhando filhos e filhas em consultórios médicos e em atividades escolares e em espaços que eram “exclusividade materna”.

A mudança cultural derruba a rigidez de “papel de mãe” e “coisas de pai” para focar nas famílias. O que é ideal para cada família? Qual o contexto mais apropriado para cada membro do núcleo familiar? As restrições passam a ser cada vez mais biológicas do que sociais.

Contudo, nesse contexto de mudança, situações são expostas. Em grupos escolares, por exemplo, é comum ler mensagens como “Bom dia, mamães” mesmo com a presença de pais. Um hábito simples que faz com que haja uma categoria cada vez maior de “homens invisíveis”. Não necessariamente formada por pai solo ou “pãe”, mas por pais que possuem jornada dupla ou tripla ou que fazem questão de ultrapassar a “expectativa social” em relação à função paterna.

É comum, por exemplo, ver memes nas plataformas digitais de mães reclamando ou ironizando o comportamento paterno. Em encontros entre amigos ou entre famílias escutar frases como “Com quem seu filho fica quando você sai?”.E a surpresa quando a mãe responde “Com o pai”.

O novo contexto social, econômico e cultural associado a valores enraizados encobre uma classe de “homens invisíveis” e, paradoxalmente, fortalece papéis sociais definidos em outros tempos. É uma demanda urgente valorizar pais e mães nos esforços em construir, por meio da família, uma sociedade melhor. Educar por meio de bons exemplos.

As mudanças nem sempre são visíveis. Todavia, pará-las nem sempre é possível ou desejável. Incluindo os papéis sociais na modernidade líquida. O clube dos homens invisíveis tende a crescer não por vaidade, mas tanto por necessidade quanto por opção.