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Adilson Cardoso

Coluna do Adilson Cardoso – Frivolidades Diárias

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Coluna do Adilson Cardoso – Frivolidades  Diárias

Charlene pisava forte na escada, bufava, demonstrava intenso cansaço, era o ultimo degrau para ascender ao terceiro andar. Colocou a mão no peito e mais uma vez prometeu que abandonaria  o cigarro, a sacola plástica dependurada nas mãos parecia ter dobrado o peso.

— Ladrão miserável, a gente paga tanto para ter que ficar subindo a pé, pior é para quem mora lá em cima! Bem feito, quero que se fodam! puxa-sacos!

-Resmungava contra o Sindico corrupto que não fizera manutenção dos elevadores e, seus apoiadores que não assinavam o abaixo-assinado.

Embaixo da porta do 304 um envelope com carimbo da justiça, estava quase  inteiro para o lado de fora,

— Provavelmente as janelas do apartamento estão abertas e um vento soprou de volta! – Pensou Charlene curiosa.

Morava ali uma  mulher sardenta que não olhava no rosto dos  vizinhos, cumprimentava sempre de cabeça baixa, era espancada quase todos os dias pelo marido gordo com cara de lutador de Sumô. Contrário dela ele olhava com sorriso cínico e o olho apertado de Japonês gordo lutador de Sumô cumprimentando todo mundo, mas a voz era tão baixa que quase não se ouvia. Ao Charlene manifestar-se a intenção de agachar para furtar o envelope, recuou por ouvir que passos ligeiros vinham do corredor ao lado, era o entregador de Jornais, corria amedrontado, moedas despencavam-se dos bolsos e partes dos jornais se soltavam. Paralisada  Charlene apertou-se contra a parede esperando que a qualquer momento surgisse alguém com uma arma na mão, portas bateram forte. O  envelope do 304 foi puxado para dentro,  a  mulher sardenta gritou pedindo socorro ,  a sacola plástica  desprendeu-se  da  mão de Charlene  e uma abobora rolou escada abaixo, o vidro de azeitonas partiu-se  espalhando  frutos e  cacos pelo chão, alguns foram recuperados por ela, já que ali não tinha câmeras podia-se tudo. Do corredor de onde surgira o assombrado  Jornaleiro  um cão furioso latia, outros cães se deram também por latir da mesma  direção. Isso também não era novidade no prédio já que o Sindico corrupto recebia “mesadas” a parte para não notificar algumas coisas. A mulher sardenta continuava a pedir socorro, implorava para que não a matasse, os vizinhos não se incomodavam mais, até as crianças de colo dormiam com aquele barulho, por diversas  vezes intervieram e chamaram a policia,  mas ela retirara as queixas sem querer passar  pelo Corpo de Delito. Aquele homem com cara de lutador de Sumô não dizia nada, mantinha sua tática de agressão silenciosa, apenas a mulher saberia quais eram os termos usados por ele ao iniciar as torturas. Ouvia-se  estalos de  copos quebrando, coisas pesadas caindo no chão batidas na parede, poderia ser a cabeça dela, mas tudo aquilo era normal. Charlene  apertou a campainha do 303, por uma, duas e três vezes, após  alguns minutos, era o seu apartamento.

— Aprendi isso em um filme brasileiro dos anos 70 era uma pornô chanchada. A atriz era uma loura que usava  uma calça branca, mas eu não assisti o final para saber o que significava aquilo!

Falava para si mesma enquanto girava a chave na porta.

Por Adilson Cardoso

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