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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – Meu dedo é Inocente

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Coluna do Adilson Cardoso – Meu dedo é Inocente

Era nove e meia da manhã. Havia acabado de ver um vídeo no computador, bandidos se confrontaram em um presídio e fizeram sangue jorrar. Uma mão segurava a faca afiada, a voz que a conduzia recitava uma espécie de poema da morte, gritava o nome de uma facção e concluía sua atividade maléfica dando um chute numa cabeça arrancada do corpo, quem filmava dera zoom naquela cena cruel comemorando em nome da tal facção. Vivo atormentado pelo medo sou como os injustiçados que pagam por crimes não cometidos. Quando fazia o ensino médio tivera um desentendimento com um carinha, seu nome era Carbureto, nunca me interessara por saber se aquilo era nome ou apelido, sei que era um sujeito forte de cabelos ruivos que estudava numa sala em frente a minha. O motivo foi uma confusão de dedos, estávamos na fila da merenda, ele na minha frente com os braços esticados e prato nas mãos a espera da concha de feijão tropeiro, retaguarda descoberta e uma turma de delinqüentes  juvenis atrás de mim, loucos para extravasar um pouco da abundante adrenalina. Por sempre morar  no mundo da lua, naquela hora estava olhando  as meninas que pulavam “amarelinhas” com suas saias rodadas e cabelos em rabos de cavalos, eram tão iguais as vestimentas que às vezes se confundiam. Carbureto tinha na mão direita o prato quente e na esquerda os talheres, por trás de mim minuciosamente calculado viera um dedo médio  para mirar o centro nervoso das suas nádegas, para ser exato na linguagem do Cearense, lhe meteram o dedo no “Boga” ou no Fiofó como queira. Foi quase que involuntário o fechamento do orifício para evitar a entrada do dedo, esqueci de dizer que ele estava com um short de coton e uma camiseta, acabara de sair da aula de Educação Física. Mesmo com a rapidez com que trancara as portas, o dedo se livrara da detenção e a culpa fora depositada em mim,  era quem estava mais próximo. Carbureto namorava uma garota da minha classe, a líder da turma seu nome era Aldanusa. O rapaz cheio de ira e pudores, ameaçara  de jogar o prato quente na minha cara, mas fora contido pelo Inspetor que estava por ali,  de orgulho ferido dissera todas as coisas que minha mãe jamais aceitaria que alguém dissesse sobre ela,  Jurando  pelo que houvesse de mais sagrado que me quebraria a cara na saída, eu não tinha medo, dizia que estava tudo bem a briga, mas não teria cometido o delito ao qual era acusado. Quando Carbureto parecia ter começado a entender que a  diplomacia era mais importante que a caverna,  e,  o Inspetor pedindo  que fizéssemos as pazes, Um dos zoadores que provocara a contenda, tinha uma “carta bomba” na manga. Chamara em um canto particular,  Aurélia, também  conhecida como “miss fofoca” da escola.

— Avisa para Aldanusa que o cara da bicicleta amarela enfiou o dedo no “Anel” de Carbureto!

Eu havia ficado conhecido pejorativamente como o cara da bicicleta amarela por ter sido atropelado em frente à escola por uma bicicleta amarela dos Correios, foi na hora da saída, portanto dezenas de testemunhas, as vezes até os professores me chamavam assim. Em poucos minutos já havia uma platéia incitando a vingança. A própria Aurélia tratara de dar mais uma versão, dizendo  que alguém havia presenciado a cena dentro do banheiro. A verdade é que a coisa saiu  do controle que antes de terminar a aula, eu fora retirado da sala pelo Inspetor temendo pela minha vida. Era sempre ameaçado, até a dona que limpava o pátio prometera uma vassourada em mim.  Até o dia em que a diretora entregara-me a transferência, fora  um alivio, apesar de não ter medo do Carbureto. Os anos se passaram e as feridas não se curaram no orgulho daquele sujeito. Foi por estes dias, estivemos em um mesmo clube conforme relatos. O destino quis que ele e Aldanusa se reencontrassem muito anos depois, se casaram e tiveram filhos. Nesse dia do clube fora ela quem me reconhecera segundo a própria em boletim de ocorrência.

— Amor, e aquela época da escola hein? – Disse ela lhe fazendo cafuné, mas olhando para mim.

— Que é que tem? – Respondeu ele com pouca convicção.

— Nada. É que eu me lembrei de uma coisa engraçada! – Falou sorrindo sem perder-me de vistas.

— Daquele dia que aquele cara da minha sala lhe dera uma dedada!

— Vá para o meio dos infernos com suas lembranças! Um dia ainda encontro aquele filho da puta! – Exclamou Carbureto tirando a mão da mulher da sua cabeça.

Fui para casa naquele dia com a mesma tranqüilidade, após uma “Pelada” e um churrasco com amigos. Mais tarde os jornais noticiavam a agressão do senhor Antonio Marcos de Maria vulgo “Carbureto” a sua esposa Aldanusa. No boletim de ocorrência ela narrou os motivos da agressão sendo por fatos ligados a época de escola. Carbureto  estava foragido, mas  deixara um aviso a um ex-colega.

“Passarei o resto dos meus dias na cadeia. Mas você pagará pelo que fez!”

 Era eu, tinha certeza e ela também. Carbureto já havia sido preso por Latrocínio, Trafico de drogas, agressão física e estelionato. A casa estava toda fechada, somente uma pequena fresta entre a cortina e a janela me dava direito de olhar o portão. Já estava naquela condição há vários dias, passava tudo pela minha cabeça, menos uma  saída lógica para me entender com Carbureto, olhei de novo aqueles vídeos sangrentos  e tive vontade de fazer parte de alguma facção, queria cortar a cabeça de Carbureto para fazê-lo entender que não fui quem lhe aplicou aquela dedada. Tem um cara batendo todas as manhãs com roupas dos correios, bicicleta dos correios e dizendo ser o próprio correio. Outro dia assaltaram uma casa na rua de baixo, bateram e  os moradores abriram a porta pensando ser  alguém do centro de Controle de Zoonoses mas eram bandidos fantasiados.

Por Adilson Cardoso

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