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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – O Olho da Lua

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Coluna do Adilson Cardoso – O Olho da Lua

Não somava mais os dias, horas passaram a correr sem medidas, nada mais podia valer naquele irrisório existir além das memórias que lhe quedavam as forças.  Não se olhava no espelho, preferia a  imagem de um passado distante a confrontar-se com aquele rosto de rugas profundas e olhar de derrota. O quarto era seu refúgio insalubre, catacumba abrigando um zumbi que se apoiava na languidez das pernas que às vezes se perdiam cambaleantes, após os porres corriqueiros.  Pelos fantasmagóricos uivos das noites Entoava seu hino de dor lembrando a magia daqueles  momentos ainda presos na memória. O coração enamorado não seguia outro ritmo senão este  que o conduzia ao mais relapso dos atos, havia um descompasso a poucos segundos da loucura cabal que jamais se acomodaria naqueles versos repetidamente declamados, mas tão distantes da harmonia, sua insanidade era a própria liberdade para voar, onde as ressentidas reflexões sempre estiveram. O céu era o mesmo tom das cinzas extraídas dos venenos dos cigarros, fumaça asquerosa rodopiando no ar. Ar cianótico, oxidado pelas amargas imagens do tempo transbordando lamentos, às vezes era tudo redundante. Buscou concatenar as idéias no intervalo do desespero, achou prudente uma descrição em pormenores de onde surgiram as primeiras chamas daquele inferno, voltaria quantos anos fosse possível, se viesse à cura para esse amor enfermo. Passava a mão pelo rosto, sentia a pele áspera e a calvície, descendo a mão notava um abdômen distendido sobre um pênis adormecido, as pernas eram duas frágeis muletas, mal suportando o próprio peso. Sentou-se na penumbra de uma casa abandonada, paredes se decompondo e caibros envergados sustentando cacos de telhas dependurados, enxergou sua carcaça naquele monturo, estava convicto que se aquilo desabasse sobre ele os destroços se misturariam. Levantou-se bamboleando, andou com uma sombra desconexa a lhe seguir, falou sozinho expressando nomes, confessou para alguém que a luz loura da lua se assemelhava a uma lanterna com foco direcionado a ele, fez algumas mímicas e disse que gostava, mas também tinha medo, já que a mesma lua também era um olho punitivo a vigiá-lo. Dentro da conturbada memória, algo surgiu mudando a direção dos seus delírios, olhou para traz e parou apreciando as ruínas daquela casa e, retornou aos caminhos que já havia pisado, no mesmo bar pediu a mesma bebida, engolindo com a ânsia costumeira, um cigarro e um aceno cordial, mas ninguém se interessava por cumprimentos de um bêbado sujo. De volta ao quarto insalubre, sentou-se na cama desarrumada tomando coragem para abrir o velho diário, passou vagarosamente as folhas, olhando datas e relendo acontecimentos sepultados. Sobre a cômoda uma dose de cachaça, estava no fundo do litro verde com rótulo de vinho branco. Virou em dois goles, abriu novamente o diário e retirou uma foto do meio das páginas, após observá-la por longos minutos, lágrimas se soltaram sobre ela e violentamente ele a rasgou em pedacinhos. Aos fragmentos daquelas lembranças juntaram-se as folhas do diário, destroçadas pelas mãos trêmulas e furiosas, as chamas do isqueiro vieram depois e consumiram a história do seu tormento.  Ele se deitou livre do peso que arrastava há tantos anos, O calor do fogo iluminou todo o quarto com suas labaredas enormes, ele dormiu para outro sonho, decidido a não sofrer mais por aquele amor.

Por Adilson Cardoso

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