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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – Paquiderme Pirata

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Coluna do Adilson Cardoso – Paquiderme Pirata

Eu estava sentando na esquina, o pequeno salão recém pintado recendia o cheiro da tinta. Um azul desbotado com riscos do rolinho sem uniformidade, a proprietária era uma baixinha de bunda grande com uma tatuagem de borboleta na panturrilha esquerda. Seu marido, um velho de óculos quadrados que a deixava todos os dias próximo às nove da manhã, o carro dele era um Siena branco. Não sirvo para o papel de vigia, definitivamente ficava mais apreensivo que ela e o vendedor de DVDs piratas. Paquiderme foi o nome que acharam para lhe batizar, tentara outras atividades antes desta; Vendedor de roupas, servente de pedreiros e entregador de pizza, esta ultima não era mais possível, já que a moto que usava estava cheia de multas e impostos atrasados não sairia mais do pátio do DETRAN. A idéia de entrar para o mundo da pirataria surgira numa oportunidade dada pelo seu irmão que era o dono do carrinho e das mercadorias, mas paralelo aos produtos falsificados também vendia anabolizante, até o dia em que um dos seus clientes sofrera um ataque cardíaco fulminante. Paquiderme tinha dois filhos e um atraso secular na pensão alimentícia, só não estava atrás das grades porque o pai ajudava morrendo um mês e sobrevivendo o outro, em um comprava os remédios para a cardiopatia no outro enviava uma cesta básica para os netos. Eu estava bem próximo a porta, a ponto de ouvir os gemidos daquela mulher e imaginar todas as performances daquele corpo sedento, Às vezes batiam no aço da porta que ecoava, eu batia de volta para chamar atenção, mas estavam muito tranqüilos para serem incomodados. Eu quem me sentia indisposto com as pessoas passando e olhando para mim como se eu houvesse escrito na testa que era cúmplice de um adultério em plena quarta-feira pela manhã.   Parou um gol com sinal de batida no lado esquerdo da parte traseira, um homem baixo de camisa de manga comprida por fora calça e jeito de maníaco aproximou-se com uma caneta e uma agenda na mão, anotou o numero de um Sacolão em frente, olhou para cima soletrou a placa pare, leu o preço dos DVDs e se voltou a mim;

— Quanto é o DVD?- Perguntou coçando a barriga.

— Um é três reais, dois são cinco! – Respondi seco.

— Tem filme de putaria? – Falou baixo, mas sem demonstrar pudor.

— Parece que sim! Mas não sou o vendedor, apenas estou olhando para o rapaz que foi ao banheiro!

— Ah é? Ele foi ao banheiro?

— Sim foi ao banheiro! – Respondi ressabiado.

— E onde é o banheiro? – Perguntou olhando diretamente nos meus olhos.

— Como assim? – Disse levantando.

— Você parece nervoso? – Continuou sem tirar os olhos de mim.

— Engano seu! – Falei também lhe encarando.

— O salão costuma ficar fechado a esta hora da manhã? – Perguntou olhando para a porta.

— Como é que é? – Tentei ganhar tempo para achar o que responder.

— Isso mesmo que você ouviu! Aliás, parece estranho, já que o patrão acabou de me dizer que deixou sua mulher no trabalho, será que ela passou mal e precisou de hospital?

— Eu não posso te informar! Moro na outra rua, estava passando e parei para fazer um favor ao rapaz vendedor! – Falei quase tremendo.

— Então acho melhor ligar para ele não é?

Fiquei calado neste instante, com sinais visíveis de pânico, submetido aquele interrogatório que ficava cada vez mais confuso.

— Oh me desculpe acabei me esquecendo de apresentar! Rigoberto Leite, Policial Civil! Mas faço bicos como Detetive Particular no momento estou investigando uma traição onde um vendedor de piratarias se encontra com uma senhora casada com a cumplicidade de alguns filhas da puta! Você vai colaborar comigo ou quer dar uma volta na viatura?

Felizmente eu estava em frente ao ponto de ônibus e naquele momento chegava um. Minha resposta foi um salto sem medidas me infiltrando naquele formigueiro de gente. O Detetive com a calma que a profissão requer não se incomodou com aquela atitude, da janela ainda pude vê-lo sentar-se despreocupado, segurando o celular em posição de contato.

Por Adilson Cardoso

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