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Coluna do Adilson Cardoso – Batalha e Pedra Lascada

Coluna do Adilson Cardoso – Batalha e Pedra Lascada

Quando comecei a freqüentar o centro da cidade, acho que não tinha nove anos completos. Fui convidado por dois irmãos que moravam na rua de trás, mas que não saiam de frente a minha casa jogando bolinhas de gude. Eles vendiam jornais, madrugavam para dar as primeiras noticias antes de raiar o dia. Naquela época, um gole de café no boteco sem comentar o acontecido do dia anterior não tinha o mesmo gosto. Eram vários garotos, pequenas criaturas na maioria negras com um calhamaço de papeis em baixo do braço e um bornal de tiras de pano atravessado ao corpo, era uma corrida frenética, severa, disputada casa a casa, quem tinha menos pernas passava batido. Não havia lealdade, a necessidade do ganho transformava todos em selvagens, canibais do materialismo. Eu me encontrava naquela selva de bipolares, já sabia as malandragens, os cortes para os lugares certos, quem pedia fiado corria o risco de ficar sem o jornal ou ler quando fosse tomar seu pileque no bar do Luiz. Elcio era o mais velho da turma, fumava, tinha bigodes e um topete no cabelo feito calopsita, diziam que a idade era quase vinte, semi-analfabeto, dispensado do exercito por ter o pé esquerdo fora do eixo. Gastava o dinheiro em um Cabaré que ficava acima do barzinho Gandaia. Com todas as malandragens que eu havia aprendido naquele meio nos últimos seis meses, não fora capaz de detectar sua antipatia comigo, achei que fosse o natural dele, pois parecia que era sempre afrontado pelo mundo. Por possuir aquela exorbitante pisada do pé esquerdo, sua movimentação não acompanhava a dos outros vendedores, mas ninguém se atrevia entrar nos lugares que ele tinha preferência seu território era sagrado. Foi por isso que nunca mais apareci para vender meu jornal. Além dele havia dois pivetes de onze anos; Batalha e Pedra Lascada que não morriam de amores por mim, deles eu sabia, mas não me importava, pois tinha os irmãos que moravam próximo a minha casa que pareciam confiáveis numa situação adversa. Era sábado e por volta do meio dia acertei a minha venda, sai em direção ao ônibus quando fui abordado pelos dois pivetes. Batalha o negão de beiço largo falava cuspindo, o outro era mais baixo e gaguejava, no meio de cusparadas e palavras entrecortadas, entendi que havia um prédio acima de uma ótica na Rua D. Pedro II que os moradores compravam jornal, mas ninguém estava levando, quando questionei o porquê deles mesmos não irem, me disseram gaguejando e cuspindo que o porteiro era um ex-comissário de menores que já havia os prendido. Mas algo dizia no meu ouvido que aquilo não cheirava bem… no ar de segunda-feira não havia anormalidades além dos dois que me olhavam por soslaios, da mesma maneira eu retribuía e os via em cochichos. Com os jornais nas mãos fiz ok com o polegar e engatei a marcha veloz, corria, cortava um, passava por outro que ameaçava; “Se tomar meu freguês tem porrada!”, lá ia entrando em bares, “Jornal do Norte ai freguês?” “Moço olha ai acharam uma mulher morta no fundo na praça!” O dia não estava bom para as vendas, o jornal encalhava, “Menino eu hoje não quero ler noticia ruim!” dizia o freguês do caixa que comprava todos os dias. A voz interior que antes dizia que algo não cheirava bem alertava que havia contas a pagar, o caderno de português se acabara, a professora havia pedido para levar o dinheiro para ajudar a consertar o mimeografo. Fui então aceitar a proposta feita pelos pivetes, andei com uma pressa dosada, olho de Sherlock Holmes, aqui, ali, sempre com cautela, quando virei à esquina de frente com o prédio, Elcio com seu topete de calopsita estava na porta, não só ele, mas o Batalha e o Pedra Lascada estavam juntos. Ao ouvir o primeiro palavrão que envolvia o órgão genital da minha mãe, lembrei que a deficiência do pé, me dava vantagem para fugir dele. O resultado da venda daquele dia e os jornais que sobraram deixei na casa dos irmãos que moravam na rua de trás e jogavam bolinhas de gudes frente a minha casa. Tomei outro rumo como ajudante de Capotaria, o topete de calopsita apareceu tempos depois na página principal do jornal que vendia, “Homem rouba e mata prostituta no barzinho Gandaia”. Com os dois pivetes me reencontrei dez anos depois no xadrez, eu havia furtado a bolsa de uma cega dentro do ônibus e esfaqueado o trocador que viera me deter.

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso