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Coluna do Adilson Cardoso – O bico do Homem Pato

Coluna do Adilson Cardoso – O bico do Homem Pato

O hospital tinha um cheiro insuportável de comida, não que Pietro nutrisse antipatia pelos alimentos, mas era a mistura que se processava naquele ar. Medicamentos, desinfetantes, tinta nas paredes, até as vozes espalhadas nos corredores pareciam ter cheiro de injeção. Pietro estava com treze anos, era o limite para autorização do visitante como dizia a placa ao lado da grade do portão. “Favor não entrar com crianças menores de treze anos.” A missão dele ali não era das mais suaves, visitaria o avô que estava com um pé no tumulo e outro no leito. Até aquela idade os dois não se conheciam, a mãe dele e única filha do velho não o tinha como bom pai, mulherengo e agressivo, estava sem contatos nos últimos treze anos.  A pessoa que estava com Pietro era um motorista de taxi indicado pela mãe, além da corrida, receberia compensação financeira para acompanhá-lo, porém depois de passar por um quarto, onde um paciente trocava o curativo de uma ulcera na perna, ele com o coração acelerado e as vistas ficando turvas disse que precisava usar o banheiro, dali saiu com um suor frio escorrendo pelo corpo para se deitar no carro, padecendo de um súbito desmaio. No interminável corredor Pietro se preocupava em achar o avô, mas também de saciar sua curiosidade apertando botões de aparelhos, olhando monitores cardíacos com suas linhas inquietas e uma senhora gorda sobre uma cadeira de rodas, ela lançava palavrões na direção de quem a olhasse. O quarto dos velhos parecia ser aquele, seu avô teria que ser um deles, mas sem conhecer ao menos por foto não era tarefa fácil. Mas Pietro não desanimou parado com a mão no queixo viu que o primeiro não estava acordado, roncava diferente do ronco do sono, lembrou-se que seu pai era o rei dos roncos e aquele ronco não se parecia nada com o dele. O velho ainda tinha uma mangueira enfiada na boca que saia para trás da cabeça para se juntar com outras que se conectava a um visor, parecia computador, mas não aparecia imagem, eram letras que de vez em quando apitava. Outros cinco estavam com o mesmo ronco, um leito estava vazio, na sua cabeceira se lia “Foi ao RX”, o ultimo estava acordado, tinha um cacoete estranho de projetar os lábios fazendo um bico como se fosse um pato, era burlesco e Pietro não conseguiu prender o riso.

— Moço porque o senhor faz este bicão? Fica parecendo um Pato! – Perguntou Pietro sorrindo.

— Quem é você garoto? Por acaso é agente secreto da KGB? – Falou o paciente cobrindo a cabeça.

— Não moço, vim aqui pra visitar meu avô, mas eu não sei quem é ele!

— Deixa de sugesta garoto, não se visita um avô que nunca se viu! – Ponderou o paciente desembrulhando apenas os olhos.

— Mas foi por que ele sumiu! Assim disse a minha mãe. – Pietro reagiu com voz baixa de lamento.

— Meu Deus garoto, será que eu sou seu avô? Eu sumi uma vez! Foi quando os homens do disco voador me seqüestraram!

— É sério?  Então é isso! Oi meu avô só me responda por que o senhor faz aquele bico tão grande? Parece um Pato.

— Desde quando fui seqüestrado para outro planeta, faço este bico, tenho a impressão de que irei me transformar no Homem Pato!

— Mas quais os poderes que tem o Homem Pato? — Interrogou de olhos brilhantes o garoto.

— O homem Pato é mais forte que Homem Aranha e Super-Man juntos, destrói Batman numa bicada só! – Disse o paciente alongando o bico.

— Mas o Super-Man é o homem de Aço! É o mais forte do mundo! – Falou gesticulando as mãos.

— Ai que está o engano garoto, os olhos do Homem Pato, são cryptonitas puras! Chupa Super-Man!

— Urruu! Que massa, quando você vai se transformar? – Perguntou Prieto apertando o braço do velho.

— Preciso exercitar um pouco mais este bico!

— Então você é o meu avô?

— Não tenhas duvidas garoto!

— Eu queria ser o menino Pato então!

— Não é tão simples garoto, você precisa ser seqüestrado pelos alienígenas, tomar o antídoto e depois esperar!

— Onde é que os alienígenas estão?

— Não sei garoto, tem que esperar eles te acharem!

— Liga para eles me acharem logo!

— Eu não tenho telefone deles!

— Tem sim!

— Garoto eu não tenho! Não tive tempo de bater um papo com nenhum deles. O processo de aplicação do antídoto é demorado!

Enquanto os dois discutiam, adentrou uma moça brigando com o velho paciente, disse a ele que voltasse ao seu quarto, da próxima vez que se levantasse seria amarrado. Sem dizer uma só palavra, o velho se levantou e foi andando para o lado contrário do corredor, seu cacoete era intermitente, esticava e diminuía os lábios. Pietro teve então a idéia de ir praticando o bico do Homem Pato, dentro do taxi a boca não ficavam quietos.

— Pietro está se sentindo bem? Perguntou o motorista incomodado.

— Estou. Isto é para ficar com o bico igual ao do Homem Pato! Quando eu for seqüestrado pelos alienígenas vou me transformar mais rápido do que meu avô!

Em casa a mãe e o pai estavam aflitos, já que o avô dissera ao telefone que voltou de um RX apressado para ver o neto, mas ele já havia ido embora.

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso