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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – Trágicos Segundos de Fama

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Coluna do Adilson Cardoso – Trágicos Segundos de Fama

O auditório estava claro, o ar condicionado ligado e as pessoas cheiravam a perfumes diversos, sabonetes importados, cabelos tingidos e escovados, era clima de festa. O mestre de cerimônias lia com esmero os nomes daqueles que iriam compor a mesa, platéia eufórica, era o dia das homenagens. Todos que ali estavam passaram grande parte do ano se doando para fazer a alegria daquele hospital de clientela pobre, mantido pelo SUS.  Muitos miseráveis atravessavam a cidade a pé por falta de condições para pagar ônibus, quando a doença importunava.  Outros vinham de cidades sem recursos, sem uma moeda no bolso, passando fome sobre carrocerias inseguras ou porta-malas se misturando a coisas e animais. Os homenageados daquela tarde eram responsáveis por provocar sorrisos nos lábios das crianças tristonhas que tomavam remédios pelas veias e velhos com frio de afeto com seus corpos caquéticos. Era gente que  corredores a fora se vestia de palhaços, dançavam e tocavam canções para livrar as almas do medo rigoroso de resultado ruins dos exames. Dentro do auditório as falas se confraternizavam, abraços surgiam da espontaneidade, o mestre de cerimônias seguia seus formalismos, pediu que todos se posicionassem para o hino nacional. Como sempre é à hora cômica do espetáculo, impossível prestar atenção na musica com tantas caretas sem rumos tentando adivinhar a letra. Uma das homenageadas já tinha suas décadas acumuladas e mais algumas semanas, não se importava com quem lhe tirava o sarro, gostava se aparecer, por isso resolveu assoviar no ritmo da canção com o bico espichado se sentindo uma flauta, até seria interessante, se não fosse traída pela dentadura que se soltou da boca batendo na cabeça de um baixinho à frente, sem perda de tempo passou os olhos para certificar-se de que não havia sido flagrada e imediatamente acomodou os dentes de volta na boca. Quem viu tratou de baixar a cabeça e seguir cantando. Disfarçando o constrangimento a senhora passou a usar as mãos para acompanhar o hino em forma de palmas. Encerrado o canto obrigatório, o mestre de cerimônias montou a mesa de coordenação dos trabalhos, sisudo de voz aveludada iniciou a leitura dos nomes dos agraciados, um a um ia se levantando e  com eles  à chuva de palmas  conduzindo  ao local dos abraços e das fotos. Eurídice sentia-se mal, comera um molho com creme de leite no almoço, suava frio, um zumbido nauseante invadia seus ouvidos, sua pele eriçava, mas era preciso suportar, não podia se arvorar naquele momento. Se o celular estivesse ali seria um bom álibi, levantaria fingindo atender como se faz nestes casos, mas não estava, tinha que criar um plano B. O mestre de cerimônias não cessava, lia o nome, a pessoa se levantava e as palmas eclodiam. Uma onda de peristaltismos formou-se nas entranhas da moça, ela sentia que um desastre de proporções incalculáveis não tardaria. Enquanto isso o mestre de cerimônias continuava lendo os nomes, as pessoas se levantando acompanhadas pelas palmas. Um pum soltou-se  espremido feito trompete sem ritmo, seus olhos medonhos congelaram-se  na parede branca, antes que viesse o segundo,  levantou-se abruptamente após o mestre de cerimônia ler o nome de uma homenageada que não estava presente.  Eurídice  desesperada constatou um trovejar no intestino, andou o  mais rápido que podia enquanto as palmas insistentes lhe acompanhavam, estava correndo contra o tempo, direcionando o cérebro para não liberar as comportas do reto. A pressa era necessária, mas antes passaria ao lado da mesa das homenagens, onde as palmas se agitavam ainda mais, ali foi preciso um movimento de contração traseiro e uma detenção arbitrária no pum traiçoeiro que se encaminhava. Enfim, chegou dolorosamente ao banheiro e por lá passou um quarto de hora. A noite deitada ao lado do marido remontara as cenas daquele dia inesquecível. E sorriu lembrando-se dos seus trágicos segundos de fama.

 

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