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Adilson Cardoso

Coluna do Adilson Cardoso – Sem Lorotas nem Potocas

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Coluna do Adilson Cardoso – Sem Lorotas nem Potocas

Bem, primeiro quero dizer, antes de tudo, que não conto lorotas, tampouco algo que não seja verdade, não gosto de inventar coisas principalmente quando são coisas escutadas. Esta narrativa que vocês se comprometeram a destrinchar na sapiência da leitura em voz baixa ou cochichando, talvez até fazendo aqueles movimentos com os lábios, foi contada por um garotinho chamado de “Migo”, que por ser um carinha bacana tem o poder de falar com os animais, quando ele soube das peripécias do homem e sua cadeira que ainda tinha o Cãozinho de vários nomes quis uma audiência em caráter de urgência com a minha pessoa, mas eu não poderia aparecer desta forma humana que sou visto, Migo exigiu que eu fosse invisível ou minúsculo montado sobre um mosquito, das duas opções preferi a primeira, invisível. Pois já vi em um livro de insetos que têm alguns “linguarudos” que adoram esticar suas línguas e comer mosquitos, se acontecesse numa hora que pego a tal carona estaria em maus lençóis dentro de uma barriga cheia de gases. Abri meu guarda-roupa de efeitos especiais que trouxera de uma viagem ao Toco do Sendem e peguei a capa preta da invisibilidade, tomei banho de lua antes e me olhei no espelho, absolutamente irreconhecível, podia ver tudo no quarto, até meu carro voador que o deixo minúsculo quando volto das nuvens sobre a mesa de desenho, mas eu mesmo não poderia ser visto. Abri a porta sem fazer barulho tranquei e sai a rua, aquele homem que anda puxando a calça para cima estava falando sozinho, apontava para a esquerda e dizia que não era para lá, olhou o relógio e falou que chegaria atrasado, mas continuava no mesmo lugar. Quando uma moça com um fone no ouvido virou a esquina ele fingiu que estava assoviando e deixou que ela passasse para puxar a calça para cima, ele estava de cinto, mesmo assim tinha medo que a ciroula fosse vista. Minha mãe sempre disse que essas pessoas têm manias, quando ela era mocinha em São Domingos havia uma senhora que perguntava pelas horas de dois em dois minutos, quem não a conhecesse diria que ela estava lhe zombando, mas a coisa era mais séria do que podia parecer, segundo minha mãe essa senhora acordava a noite inteira para perguntar ao marido quantas horas eram, quando aquele lhe negava para continuar o sono, ela saia feito fantasma e batia na porta dos vizinhos, alguns respondiam, outros a chamavam de louca e ameaçavam chamar a policia. As autoridades se reuniram para julgar o caso, decidiram por unanimidade que a saída seria interná-la no Manicômio, Mas o Psicólogo disse que era melhor comprar um relógio para ela, assim ela não perguntava a ninguém. Boa idéia, responderam em coro. Com o relógio na mão ela poderia fazer as funções de dona de casa olhando suas horas a todo instante. Seu marido passou a dormir no sofá da sala para não ser incomodado de dois em dois minutos. Ao final de uma semana aquela senhora quebrou o relógio e disse que perguntar as horas para si mesmo era muito chato. Cheguei à casa de Migo e ele estava desenhando com giz de cera, fiz o sinal para que me reconhecesse e começamos a conversar, tomei suco invisível com uma deliciosa empada invisível. Migo já estava na escolinha fazia o Pré. Antes de ir embora perguntei a ele se tinha alguma dificuldade em aprender ele sorriu e recomeçou outro desenho.

Adilson Cardoso
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