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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – O Maníaco da Rua Melquiades de Abreu

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Coluna do Adilson Cardoso – O Maníaco da Rua Melquiades de Abreu

Seu nome era Luciano. Somente na hora da chamada em sala de aula, aceitava ser tratado assim. Fora disso era Dú. Du cu ou Du Caju, os dois últimos soavam ofensivos na avaliação do rapaz, que traiçoeiramente aplicava um golpe que batizara por “Gafanhoto voador” um pulo com as duas pernas nas costas de quem se atrevesse, a gravidade do ataque dependeria da altura da vitima. De um metro e setenta acima o chute se localizava na região costelar, rumo dos pulmões ou pouco abaixo, já os menores geralmente tomavam nas orelhas e pescoço. Houvera um caso de desmaio e fuga ás pressas para o hospital, por pouco não dera em morte e cadeia.  Beto Leitão, um baixinho invocado e destemido “Só respeito Deus no céu! da terra aos infernos encaro qualquer um!” Dizia sempre como forma de se impor pela falta de altura. Morava no bairro das Gameleiras e viera até ali a mando do pai para receber uma encomenda. Ao ter ciência da alcunha do Luciano, aguardara o momento oportuno, alguns atiçavam com insinuações de que ele não possuiria tal coragem, mas Leitão queria publico, seu espetáculo era de casa cheia. Cabeça erguida observação ao redor, esquina repleta de zombadores para o desafio ser cumprido. Eis a hora, “Fala aê Du cu? Como vai à onda? Seu nome é Du cu ou Du Caju?!” Dissera o baixote para dezenas de expectadores caírem na gargalhada. “Conheço-te de onde tamborete de zona?! Vociferou o ofendido buscando se afirmar. “De lugar nenhum Du cu ou Du Caju, estou visitando sua área e apenas lhe fiz um cumprimento”!” Du traiçoeiro, ferido e vingativo se fechara num silêncio venenoso, cobra acuada armando bote, semblante animoso de intimidação a quem ainda se aventurasse seguir no escárnio. Ninguém daria as costas, exceto Beto Leitão que não sabia da existência de o “Gafanhoto Voador” ou sequer fora informado.  Du esperava que o agressor baixasse a guarda, se virasse para colher os louros do grande feito em frente à plateia. “Madeeeira!” Gritara um bêbado que assistia de braços cruzados. Um dos pés se alojara entre a cabeça e o pescoço, provocando  efeito-chicote imediatamente cortando os sentidos, o outro pé em igualdade de força atacara  pouco abaixo  interrompendo o fluxo de  oxigênio, ao verem o baixote  estendido  no chão se batendo feito galinha sangrada, trataram de  cada um procurar  seu moquifo e  se entocar. Isso foi lá nos idos de oitenta, oitenta e sete e oitenta e oito, auge da fama de Luciano “Du”, então com dezoito anos, venerado entre nas rodas de delinquências por ser o cara que facilmente passava a mão nas partes intimas das meninas, mulheres e idosas. Relatos dão conta de que começara no décimo primeiro aniversário, quando o pai sem preocupação com as responsabilidades de casa, se esbaldava em bares e casas de prostituição o levando junto e, que a primeira genitália que tocara seria de uma puta alta e cabelos louros curtos, uma que o pai priorizava. Naquele dia ordenara que ela levantasse a saia e “batizasse o garoto” Seu nome era Enitalma. Du tinha uma irmã, mais velha quatro anos, mãe de um filho que morava com os avós paternos, amante do sexo em troca de algumas notas que custeassem suas roupas de grifes. No bairro também  era odiada pelas mulheres, principalmente ás casadas. Quando ia para as compras na Mercearia do Nerêu, subia  lentamente a rua Melquiades de Abreu com seu short jeans, minúsculo e desfiado, sem muito esforço se via  partes generosas  das suas nádegas bronzeadas. A camiseta preta com o símbolo vermelho da banda AC/DC era outra atração, não pelos Australianos que faziam sucesso entre os Metaleiros, mas pela cava sob os braços e a falta do sutien que obrigava os seios desfilarem quase nus por todo o trajeto. Até os velhos ociosos  em cadeiras de rodas  aprumavam os olhares  e admiravam saudosistas. Néia era seu nome, em conversas no bar do Pedro Sinuca, os homens que haviam se fartado naqueles deleites, comentavam em pormenores, desde a abordagem com os beijos molhados, ao ato copulativo com seu gemido peculiar, os pêlos descoloridos sob o umbigo e uma tatuagem de coração no alto da coxa esquerda. Os mais jovens e sedentos das primeiras experiências idolatravam-na, era a musa dos sonhos, nem as dançarinas do Chacrinha invadiam tanto aqueles imaginários. A mãe do casal de pervertidos era a dona Evita uma humilde e católica lavadeira que todos os dias transitava feito formiga com a folhinha na cabeça em direção à toca, no seu caso eram trouxas de roupas, vinham sujas e voltavam limpas ininterruptamente. Quando um vizinho alertava que tamanha labuta fazia mal a saúde, ela respondia mansamente: “Um dia Deus da o descanso!” Era dos seus braços de pouca carne que vinha o sustento da casa. “Néia, ajude sua mãe, olhe como a coitada anda descorada, dia e noite só se vê esta pobre trabalhando!” Aconselhava a tia, irmã do pai deles que fugira com a sobrinha (filha dela).  Mas Néia tinha outro discurso. “Tia eu tenho alergia do cheiro destas roupas, qualquer dia arranjo um homem rico e dou o fora desta pobreza, minha mãe poderia ter estudado para trabalhar no Banco como a Dona Izaura da rua de cima!” Du estudava pela manhã, nas tardes fazia sua turnê indecente em busca de garotas desavisadas. A tia também tentava com ele: “Luciano tome juízo, estão dizendo coisas horríveis sobre você, olhe o exemplo do seu pai! porque não ajuda ao menos sua mãe entregar estas roupas? olhe como a coitada está magra, Tenha dó!” Ele também se esquivava sem a menor sensibilidade. “Tia não gosto deste nome, me chame de Du, meu pai é meu pai e eu sou eu!” Dona Evita, além de todos os fardos, precisava conviver com as perversões dos filhos, em qualquer canto que fosse alguém estaria comentando sobre um ou outro. “Tem garota nova no bairro!” alertou ”Pintado” um dos delinquentes amigos de Du. “Se chama Enitalma, lourinha de corpinho escultural, cabelinho curto, joga Vôlei no time da Ferrovia!” Encerrou a descrição da mesma forma que ouvira. “Está morando na Violeta!” exclamou esperando a reação do parceiro. Aquela era a rua dos nobres, pessoas de classe superior ás demais das ruas de baixo, suas profissões variavam entre: policiais, bancários, comerciantes do centro da cidade e agiotas, tinham até clube particular, só dos moradores. Nos delírios de Du, Enitalma havia voltado, sentiu inexplicavelmente aquele cheiro de perfume adocicado se misturando ao hortelã da bala na boca e, viu a fumaça do cigarro rodopiando no ar, sua voz era rouca e risonha enquanto ele a tocava. Seus estímulos foram aquecidos e uma sede repentina lhe ressecou a garganta, andou de um lado para o outro como se estivesse sozinho numa ilha deserta, disse impropérios gesticulando ao léu. Depois deste dia desbravou nova rota para chegar à escola e, sucessivamente para outros lugares que frequentava todas passando pela Rua Violeta. Precisava rever Enitalma, precisava dizer que já era homem e a queria, não só com um simples toque, pois tinha a necessidade de sentir-se dentro dela.  “Fui entregar a feira do seu Lazinho, frente à casa dela, na hora em que eu estava amarrando a caixa vazia na Cargueira, adivinhe quem apareceu no portão com uma minissaia branca e uma camiseta azul Rock in Rio 85? era cada coxa, e os peitinhos Hummm! Os bicos faltavam furar o pano, cara o trenzinho é gostoso demais!” Falou Frediflinston o entregador de feiras da Mercearia do Nerêu, para ampliar o fogo ansioso que consumia o maníaco Du. Naqueles dias a mãe havia comparecido a escola para ouvir da diretora que ele era um tarado e assinar uma suspensão por ataque violento ao pudor. A mãe da aluna denunciou que a filha não queria voltar a estudar. Também nesses dias Néia relatava a dona Evita que ás vezes em sonos leves, parecia sentir o irmão lhe apalpar. Frediflinston não tinha caráter, poderia ser facilmente nivelado ao amigo. Trabalhava para disfarçar a sua verdadeira ocupação de vendedor de drogas, desonesto, de toda compra que um cliente fazia subtraia um produto na entrega. Não nutria apreço por amigo algum, fazia o jogo dos dois lados, adorando Deus e diabo de acordo a conveniência. Por acaso o endereço para entrega de uma vassoura e um pacote de ração para cães era da novata na Rua Violeta, ao entrar na casa a primeira vista foi á garota deitada em um sofá com as coxas expostas sob um short de Coton, um grande fone nos ouvidos e um pequeno toca-fitas sobre o corpo, os olhos estavam cerrados e os lábios sibilando uma canção. A empregada o guiava, mas seus olhos não se desgrudavam das formas denunciadas pela roupa de Enitalma. “O senhor perdeu alguma coisa ali seu entregador?” Uma voz ríspida e grave emergiu de um canto próximo à janela, era um homem forte, calvo, olhos pequenos e cicatriz no rosto, vestia uniforme militar, por pouco Frediflinstoni não caiu sobre as pernas com cinqüenta quilos de ração nos braços. Sem nada a dizer prosseguiu de cabeça baixa, na volta o homem esperava no portão limpando tranquilamente um revolver, sua boca secou, o coração parecia bumbo de fanfarra, os olhos começaram a ver manchas amareladas e as pernas pediam para arquear. “Fale-me uma coisa, por acaso você é amigo de um taradinho ai que anda passando a mão nas meninas?” Interrogou o homem girando o revolver no dedo indicador. No bordado da sua vestimenta se lia Tenente Ferreira. “De jeito nenhum doutor!” Visivelmente nervoso. “Eu nem gosto daquele cara, ele é um tarado mesmo, já pegou até na xereca da irmã e, olhe lá se nunca tentou na velha mãe dele também!” O policial não desviou o olhar do atordoado entregador que pedia a todos os santos para sair vivo dali. “Responda apenas o que eu perguntar, e eu não sou doutor não, sou o anjo da morte! Diga ao seu amigo tarado que se ele chegar perto da minha filha, aliás, não, diga se eu ao menos enxergá-lo passar nesta rua vou cortar o saco dele e enfiar-lhe os ovos garganta abaixo com gasolina, entendeu? agora some daqui!” Frediflinstoni saiu desorientado, na hora de pedalar falhou os pedais jogando a bicicleta sobre um entulho, por pouco não foi atropelado pelo caminhão do Gás. Mais tarde em um  dos intervalos  das  entregas estava de papo com Du, relatando em pormenores  as silhuetas expostas na roupa da moça, com voz de herói não disse nada além do que fabulou. Naquele instante Du não se propunha  acovardar para o dragão  que protegia  a torre, qualquer que fosse o  preço para chegar até a princesa, estava disposto a pagar. Enitalma era a santa demoníaca que o levara ao pecado, era ela quem  o perseguia em sonhos eróticos com seu cheiro adocicado no corpo e hortelã exalando dos lábios. Era mil novecentos e oitenta e oito, o barzinho Power age se destacava como ponto de encontro dos amantes do  Heavy Metal, principalmente da banda AC/DC, favorita de Néia.  O lugar além da musica alta e bebidas alternativas, possuía uma  biblioteca contando a história dos grandes clássicos do Rock mundial, trocava-se revistas, Vinis, vendiam-se  camisetas com estampas underground  e pulseiras de couro com arrebites. O proprietário que pedia para ser chamado de Head  na identidade  assinava  Noslida Osodrac, nome estranho que seu pai também curtidor de rock lhe arranjara. Entre um atendimento e outro  se refugiava no banheiro para cheirar uma carreira de coca que já ficava no ponto.  Naquela tarde Néia se aproveitando da ausência do irmão e da mãe, fuçava um guarda-roupas antigo no  quarto de entulhos em busca de pontas  de maconha que costumava esconder por lá , Porém  ao invés da droga, descobriu  uma espécie de caderneta/diário  do seu irmão onde se lia  mais de duzentos nomes de garotas e mulheres de todas as idades que ele havia tocado. Doentio, violentamente bizarro, a dinâmica de abusos eram descritos em sórdidos detalhes. As folhas eram passadas lentas  com  dedos trêmulos e  saliva  amarga, pessoas conhecidas  iam surgindo, outras estranhas, parentes, palavras medíocres usadas para a glorificação dos  crimes, o prazer psicopata do vilipendio.  O pior surgiria  numa  página  adiante seu nome estava  lá, Néia lia e relia em estado de choque, “Já cansei de pegar na minha irmã, quando ela chega bêbada em casa,  pode se fazer qualquer coisa que ela não acorda!” Mas viria  algo pior, dona Evita de todo respeito e resguardo estava em exposição naquela feira de obscenidades, assim como uma qualquer daquelas sem direção na vida, a mãe se reduzia aos termos sujos e pecaminosos daquela escória nominada de gente, incestuoso que não poupa seus adjetivos para narrar tais atrocidades. Os olhos de Néia  brilhavam aguados dentro do espelho sujo, o  sentimento de asco e impotência dilacerava-lhe a alma. Du crescera feito o pai, o lixo que dissecara dona Evita para se amasiar com uma  imunda que o tratava por  tio. Voltava a se olhar no espelho emoldurado por teias de aranha, sentia-se mulher no corpo de uma cadela maldita. Guardou para si aquela Odisséia de sordidez, lacrou-a apertando contra o corpo, mas relembrava continuamente os nomes, as descrições com seus pormenores, o ritmo famigerado do qual o verme se apossava saciando as fantasias. Andou pisando alto sem saber aonde caminhava, subiu a mesma rua sem ouvir os galanteios dos homens e os insultos das mulheres. Já não estava mais no mesmo lugar, a cabeça parecia ter rompido com todos os seus conceitos, mostrando algo enormemente errado na sua conduta, sentia culpa. Du voltava em seus devaneios, seus olhos obscenos, seus passos friamente marcados, seus jargões desordeiros ao referir-se ás mulheres que abusava. Néia andava e a cabeça flutuava, as nuvens realmente eram de algodão como ouvira alguém dizer. Que dia seria aquele?  Movimento atípico na rua da sua casa, seria  alguma festa surpresa? Não conseguia se concentrar, seu nome descrito daquela maneira, quem mais havia lido?  Revirava na memória, sentia ânsia de vomito, pulsava dolorido feito punhal em chamas cravando no seu peito. Era na casa dela, ambulância? Policia?  O passo alargava  e um sombrio presságio lhe viera  ao amago, sua ira aumentava, deduzindo que o irmão estivesse  à frente de mais um escandalo. La vinha Frediflinstoni de olhar triste, limpando os olhos para abraça-la.

“ Ai Néia, que desgraça! Du violentou a filha do Tenente e fugiu, o Tenente  veio ai procurando ele com outros policiais  e quebrou tudo dentro da sua  casa. Bateram na sua mãe,  quando eles saíram ela amarrou uma corda no pescoço e pulou de cima da laje!”

 

Adilson Cardoso
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