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Coluna do Adilson Cardoso – Dona Augusta

Coluna do Adilson Cardoso – Dona Augusta

Ouvidos  atentos absorvendo as  primeiras noticias do rádio naquela  manhã   de quarta-feira. O locutor se indignava.

— Não é possível, não é possível! O sol acaba de raiar e mais uma pessoa de bem  perde a vida! Desta vez uma senhora, uma senhora minha gente!  Que  saiu de casa  para comprar o pão  e deixou o marido,  filhos e  netos esperando por ela! O café  na mesa aguarda o  pão que dona Augusta levaria, e agora autoridades, o que vocês tem dizer a mais esta familia?

O motorista do ônibus tinha os olhos na via e os ouvidos na noticia, um guarda noturno que voltava  sempre no mesmo horário  se sentava ali na frente. Queria saber  as ultimas da Rádio do Povo, e não se importava com as inscrições acima, “Não fale com o Motorista!”

— O que é que eu já perdi ai? – Perguntou  o guarda.

— Passaram fogo numa mulher  que ia  comprar pão!

— Coitada. Falou a idade?

— Não, mas já era avó, falou no jornal que tinha maridos, filhos e netos esperando o pão.

— Deus me livre! Outro dia eu chamei a policia para uns vagabundos que usava drogas na esquina do prédio e um deles descobriu que fui eu. Deixou um bilhete falando que vai cortar minha língua e jogar para o cachorro.

— E o senhor entregou o bilhete a policia?

— Eu não! E se for a policia que estiver me entregado para o cara?

— Será?

— Eu tenho minhas duvidas! Uma vez tinha um som desgraçado de alto perto da minha casa, liguei para a policia e eles estavam perguntando meu nome! Mas eu questionei, querem meu nome para quê? É só vir no endereço e descobrir. Eu me identifiquei e eles não vieram.

— Eu já dei uma porrada na orelha de um policial! – Sussurrou o motorista.

— O senhor  é doido! Por quê?

— Eu não sabia que era policia, estava sem farda. Fui levar o cachorro para cruzar com uma cadelinha que fica sempre no parque perto da minha casa. Quando o bichinho já tinha engatado a primeira, apareceu  um sujeito careca de camisetinha colada, gritando comigo! Falou que ia dar um tiro no meu cachorro, quando  apalpou assim que eu vi que era mesmo uma arma, eu deixei o cachorro grudado na cadela e cai fora.

— E a porrada na orelha?

— Ah, foi no ônibus! Era minha ultima corrida, feriado de Carnaval, entrou um sujeito bêbado e falando palavrão, ficou de pé ao lado da minha porta. Disse  que era policial  e ordenou  para eu,  o trocador e mais duas pessoas que estavam no ônibus tomarmos no cú! Quando eu vi a cara dele, reconheci na hora, abri a porta devagarinho  e brequei, ele bambeou e caiu por cima de mim. Fechei a mão e bati com força. O filho da égua foi parar  dentro de um capim da beira da rua.

— E depois, te prendeu?

— Prendeu nada, aleguei legitima defesa e tinha testemunha, mas fui obrigado a  mudar de cidade! O corno disse que me mataria.

— Olha ai o exemplo da policia? Estou com este bilhete de ameaça  sem poder  denunciar. – Disse o Guarda reflexivo.

— O senhor acha que esta dona Augusta era bonita? – Interrogou o motorista.

— Sei lá! Por quê?

— Não gosto quando mulher bonita morre! Mesmo sendo velha.

 

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso