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Coluna do Adilson Cardoso - O próximo da lista | Jornal Montes Claros
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Coluna do Adilson Cardoso – O próximo da lista

Coluna do Adilson Cardoso – O próximo da lista

O medico é Deus, assim eles se acham, mas quando se vestem de branco e dependuram um estetoscópio no pescoço, grande parte das pessoas concorda. Foi assim que Zico Nunes saiu pensando depois de receber alta de um hospital, onde estivera se tratando de ferimentos.

— Foram sete dias porque o desgraçado conseguiu pular o muro rápido de volta para a rua, se ficasse do lado de dentro mais um minuto, teria virado paçoca! – Comentou o vizinho e dono da casa invadida por Zico Nunes.

Do hospital nem beirou os limites da casa dos pais, apenas enviara um bilhete mal escrito, “Fiquei bom e me mandei. Vou arrumar um serviço de medico!” O neto leu para a Vó analfabeta que deu graças a deus a peste ter subvertido para os quintos dos infernos. Quem não ficou satisfeito foi o vizinho da casa invadida, pois já tinha preparado alguns pedaços de paus e uma tocaia para fazer a vingança. Zico Nunes parecia ter aprendido a lição. “Nunca mais entro em residência alheia para furtar” pensava entre o outro pensamento fixo de querer ser medico a qualquer custo, mas passar em vestibular precisava estudar muito, além de ter que completar os anos que deviam para o segundo grau. Foi então bater a porta do Doutor Peres, um medico cassado pelo CRM, em prisão domiciliar usando tornozeleira eletrônica, por fornecer receitas de Artane e Rupinol para estudantes seminaristas, receitar medicamentos proibidos pela ANVISA a custo de propinas de Laboratório clandestino, por fazer toque vaginal em pacientes com suspeitas de Dengue e sugerir Eutanásia como controle da população do asilo Nossa Senhora da Piedade.

— Boa tarde Dr Peres! Então nóis já pode começar as aulas pra ser medico? – Falou Zico Nunes espremendo a boca no interfone.

Estava tudo combinado e o ex-medico saia vestido de branco e óculos escuros, sem dizer nada abriu a porta e mandou que uma lourinha de avental azul o conduzisse até os fundos. O “acadêmico de medicina” ganhou estadia na casa do preceptor, teria um mês para aprender todos os tratados, a linguagem e a postura que um médico precisa ter. Sem dinheiro o estudante, teria quatro horas de folgas durante a noite para sair e roubar as coisas que o Dr Peres pedisse, este era o pagamento.

— Doutor o problema é que ainda dói no lugar que foi costurado as mordidas! – Disse o rapaz acanhado.

— Se vira, nem na Universidade pública se estuda Medicina de graça! Preocupa não, se doer muito eu lhe faço uma Morfina!

No primeiro dia aprendeu quem foi Hipocrates, Sistema Nervoso Central e Sistema Linfático. Saiu a noite para roubar uma casa, lá apenas dois velhos dormindo dopados por Diazepan, a enfermeira facilitou tudo, no cofre tinha muito dinheiro. Este foi fácil, Zico se interessou pela barganha. No segundo dia viram o restante das funções do corpo humano e começaram a estudar os processos infecciosos do sistema respiratório. A noite saiu para roubar um carro que ficava estacionado em frente à Boite Bronha´s. O manobrista estava sabendo, facilitou a ação, foi fácil. Zico nem sentia mais dores, autoestima elevada e uma vontade tremenda de fazer sua primeira consulta, já sabia que num adulto a pulsação normal era entre 60 e 80 batimentos por minuto. No terceiro dia Fizeram uma revisão geral de todo o corpo humano, Zico se admirava dos nomes das pressões arteriais, Sistólica máxima e Diastólica mínima, já queria vestir o guarda-pó e laçar aquele negócio no pescoço.

— Como é que estão as aulas? – Indagou o professor.

— Adorano, já queria dar uma consultada nalguém! – Respondeu empolgado.

— Nossa aula amanhã será de Dissecção de Cadáver! E hoje á noite você vai sair e trazer um!

Zico se contorceu, a dor da costela mordida pareceu retornar. Fez cara de quem não aprovaria, mas em nome da sua profissão aceitou.

— Pois bem, o endereço está aqui. Você sai rouba uma arma o mata e arruma alguém para te ajudar colocá-lo no carro! Partir de amanhã você estuda de dia e dorme a noite no seu quarto espaçoso, sem precisar pagar mais nada!

Zico Nunes olhou com os olhos no horizonte distante, parecia razoável a proposta. Entrou no carro que o aguardava na esquina e andou para a favela. Ele e mais uma turma de meros drogados comiam a Tia Silina, uma velha de cabelos roxos, receptadora de produtos roubados e dona da boca de fumo.  Estava sozinha, deram uma bimbada ali mesmo no sofá da sala, ela gozava rápido quando lhe batiam na bunda. Fumaram maconha olhando para o teto descascado relembrando coisas desimportantes. Pediu a ela uma arma, mentiu o motivo, comentando que estava sendo perseguido, recebeu um 38 de cano curto e numeração raspada, mas em troca de outra bimbada, desta vez na cama, ele fingiu aceitar, mas saiu correndo sob os protestos da velha que já havia tirado a roupa. Enquanto descia as vielas se lembrou dos médicos falando aos pacientes, as mãos dentro do bolso do jaleco e balançando a cabeça em sinal de concordância, assim ele também faria com os seus doentes. Zico Nunes queria casar-se com uma medica alta e gostosa que passava pelo corredor fazendo barulho com o salto do sapato, se chamava Samira.  Dentro do carro carregou o revolver, girou o tambor com agilidade e deixou do lado. Puxou um pino de Cocaína do bolso e cheirou com ruído alto, passou ao. Motorista e conferiu o endereço. O carro saiu em alta velocidade, no lugar indicado a rua estava deserta, havia dois homens na porta, um grisalho com uma maleta na mão e outro robusto com pose de segurança. A descrição do Medico batia com o grisalho, era preciso chamar pelo nome. O carro foi parando lentamente em frente à dupla, a janela estrategicamente aberta, e a arma engatilhada na mão direita.

— Boa noite! Por acaso o Doutor Argélio mora aqui?

— Sim… Sou eu! Respondeu mansamente o homem sem mudar de posição.

Antes que a mão de Zico se levantasse em direção ao lado de fora do carro, o braço do motorista já estava esticado com o silenciador do revolver encostado na cabeça dele, foram dois disparos simultâneos com um calibre 22. Miolos saltaram próximo aos homens que viram o vidro da janela se levantar e o carro sair em disparada.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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Um comentário

  1. ANETE VANITE ARAUJO

    Sou Montesclarense e nunca tinha lido crônicas tão agradáveis!! Me alegrou o coração!!

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