Publicidade FENICS 2108 - RESERVE JÁ,JÁ, SEU STAND!  

PUBLICIDADE

COPASA - MONTES CLAROS
Inicio » Colunistas » Adilson Cardoso » Coluna do Adilson Cardoso – As Pedras Rolam

Coluna do Adilson Cardoso – As Pedras Rolam

Coluna do Adilson Cardoso – As Pedras Rolam

Estava disposto a esquecer o passado, recomeçar a vida após o  divorcio, ser um novo homem. A cidade era pacata e minha casa ficava num bairro de classe média, os vizinhos saiam de manhã e voltavam no inicio da noite, no sábado o do lado esquerdo costumava ligar o som quando lavava o carro, o da direita no domingo, quando fazia churrasco  das dez ás quatorze horas no máximo, ouviam Zeca Pagodinho e Eliana de Lima, a mulher cantava junto errando as letras. Depois que fui assaltado dentro de casa não coloquei mais anúncios pedindo empregada, mas contratava a Cibele que fazia faxina ás quartas e sextas no Bar do Jubileu. Ela me atendia as terças, quintas e sábados sempre reclamando que o marido estava desempregado e não procurava emprego, bebia todos os dias e ela tinha que pagar as contas.  Jubileu havia contado que a comia nas quartas, quando sua mulher saia para levar a mãe dele  no Fisioterapeuta, aquilo atiçava  minha fantasia, Cibele era moreninha, falsa magra, peitinhos redondos não usava sutiã, eu olhava descaradamente o volume dos biquinhos sob a blusa, ela fingia não perceber, a espiava no banho e me masturbava. Passei a agradá-la com pagamentos a mais, apertava sua mão e elogiava sua beleza, ela sorria faceira esperando ouvir mais, porém me  faltava coragem de ir além. Jubileu seguia contando prosa, descrevendo os detalhes do corpo dela. Numa quinta-feira  eu estava realmente decidido, iria à forra, comprara novas camisinhas, vinhos, queijos e incensos afrodisíacos.  Ela não se atrasava, mas justo naquele dia  não fora, eu passara  envolto num tesão aflito,  no inicio da noite os vizinhos da direita chegaram com a noticia de que Cibele havia sido assassinada pelo marido,  estava  na cama com um vizinho. Tirei duas conclusões do acontecido, Jubileu não estava inventando e Cibele era uma puta. Peguei um taxi para ir ao Blue World, uma casa de Strip-tease de luxo, a poucos quarteirões de chegar,  fomos interceptados por dois marginais numa moto, nos levaram para um barraco e mandaram que ajoelhássemos, queriam  dinheiro, cartões e relógios. Um deles olhava profundamente para mim, eu retribuía e baixava a cabeça, sabia que  não me era estranho. Até que ele deu um grito assustador, “Caralho!” Eu fiquei totalmente congelado, o coração disparou, ele segurou meu queixo e encarou me obrigando a olhá-lo também, meu pavor era dantesco, tinha certeza que o conhecia, mas não conseguia me lembrar de onde.

 — Tá lembrado de mim não doutor?

— Não! – Menti com a voz sufocada pelo medo.

— Então se lembre, dez anos atrás, lá em Januaria, quase meia noite na lanchonete perto da prainha. Dois garotos batendo num negrinho que cheirava thinner, se lembra? Você puxou um dos dois e começou a dar nele!

Ele falava obrigando-me a encará-lo, eu tremia recordando a cena. Ele se exaltava repetindo se eu me lembrava, seu revolver estava à mostra, eu não sabia se rezava ou  tremia, só balançava a cabeça tentando interagir. Senti a morte dar passos ruidosos ao meu redor.

— Se lembrou agora? Você salvou o negrinho e quebrou o outro! A vida da voltas doutor e as pedras se encontram!

Eu não tinha realmente nada o que dizer.  Não sei se fezes ou urina,  mas algo descia  quente pelas minhas pernas, à memória estava viva, era capaz de ouvir o garoto pedindo que o soltasse, era ele, infelizmente a vida dera uma volta foi em mim! Pensava aflito. Baixara a cabeça respirando fundo, tinha cheiro de pólvora saindo do meu nariz, era a premonição, viera o arrependimento pelas coisas que fizera, senti que estava morrendo, próximo ao fim dizem que todos são acometidos por arrependimentos. Senti um leve toque na cabeça, provavelmente  mirando o lugar da bala.

— Levanta a cabeça ai meu salvador! Eu era aquele negrinho que apanhava dos pivetes!

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

Leia Também

Técnicos da Emater-MG participam de capacitação para trabalhos com povos e comunidades tradicionais no Norte de Minas

Técnicos da Emater-MG participam de capacitação para trabalhos com povos e comunidades tradicionais no Norte de Minas

* Por: Jornal Montes Claros - 16 de junho de 2018. Técnicos da Emater-MG participam …

Aviso: Nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto e esperamos que as conversas nos comentários de artigos do JORNAL MONTES CLAROS sejam respeitosas e construtivas. O espaço de comentários em nossos artigos é destinado a discussões, debates sobre o tema e críticas de ideias, não às pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão tolerados de maneira nenhuma e nos damos ao direito de ocultar/excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, preconceituoso, calunioso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem nome completo e/ou email válido).



Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *