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Coluna do Adilson Cardoso – Estrada 11

Coluna do Adilson Cardoso – Estrada 11

Bom dia, gravando! Fila para mim sempre foi sinônimo de tédio, hoje especialmente, por estar a vários dias longe de casa. Estou no Posto Caititu, um nome de letras sombreadas na placa e nada de extraordinário a vista. Estou querendo tomar um conhaque, mas um policial de bigode retorcido, escorado numa viatura enlameada, a todo o momento olha para mim, acho melhor não arriscar, não tenho pretensão de ser enquadrado na Lei Seca. Chegou a minha vez na bomba de gasolina, enchi o tanque, entreguei o cartão ao frentista que me olhou de jeito estranho, Talvez me veja com cara de ET ou algum lunático que fala sozinho. Acelero a moto e vejo pelo retrovisor que o frentista se aproximou do policial, falam apontando para mim. Não me importo, saio tranqüilo com destino a minha casa, Optei por uma velocidade moderada para contemplar a natureza, ás chuvas que caem nos últimos dias, renovaram as cores das matas. Verdes de vários tons se contrastam com os vermelhos, roxos e amarelos das flores, a vista é soberba, apesar do céu turvo e das duas cruzes toscas a beira da estrada. Ali na frente, vai uma senhora andando com dificuldades e ainda carregando um feixe de lenha na cabeça, meu Deus quanta pobreza desta região! Ao seu lado se arrasta uma criança magérrima de pés no chão. Caramba! Estão visivelmente machucados, olhe os rastros de sangue por onde passam! Meu Deus que horror! Aproximo-me consternado para oferecer ajuda. Mas eles continuam seguindo, parecem surdos, estão gemendo! Quanta crueldade! Que será que houve? Passo por eles e paro á frente, a visão é terrível, estou petrificado por dentro, parecem zumbis, que horror! Eu não estou sonhando, estou plenamente acordado, mas isto é surreal!  Seus rostos são esqueléticos com porções de carnes azuladas nas maçãs do rosto, escorrem um liquido grosso e amarelado das órbitas, dos trapos das suas vestes expõem pontas de ossos feito espetos, eles cheiram a carne podre. Meu Deus o que é isso? Estas pessoas não parecem vivas! Retorno trêmulo, meu coração parece querer saltar de dentro de mim, não posso acreditar! Não estou ficando louco! De volta ao Posto, o policial torce os bigodes de olhos em mim. Não sei se o meu estado me dará condições de dizer alguma coisa! Peço água, ele se aproxima seguido pelo frentista.

—Poderia apostar que você encontrou a velha e a criança! Já faz um ano que morreram atropelados! Mas Parece que a desgraçada não está em paz, ela escolhe alguns para vê-la, dizem que está se vingando! Não quero assustá-lo, mas contam também que os infelizardos costumam ter fins trágicos! Eu não acredito, Penso que são coincidências, ontem a vi por volta do meio dia, mas estou tranquilo, até agora nada me aconteceu, e nem vai! – Falou o policial olhando o céu tenebroso e torcendo seu bigode.

O frentista não diz nada, seus olhos são amarelados e vazios. Minha cabeça está em chamas, continuo gravando cada passo que dou, ainda sem conseguir acreditar no que vi, descarto a menor possibilidade de estar sendo vitima de alguma armação deste policial, do frentista e daqueles trapos de gente! Confesso que nem sei mais o que dizer. Aquelas imagens são mais fortes que tudo que já vi em toda a minha vida. Meu corpo se arrepia, tenho vontade de vomitar. Aquele cheiro de podre está impregnado em mim. Há um chamado no radio da viatura, o policial escuta com atenção mexendo no bigode, pela sua fisionomia não está entendendo direito, repete seguidamente a palavra positivo. Agora desligou o aparelho e manobrou o carro. O frentista continua me olhando feito uma estátua de praça, xô ave agourenta do capeta!  Trovões urram neste céu que está cada vez mais tenebroso, estou aflito, me aperta o peito, Meu Deus que loucura!  A viatura saiu em disparada, o chamado parece urgente, vou atrás, acelero, calafrios invadem meu corpo. Vou contando placas, como fizera a pouco,  acelero   sem perder o foco na viatura. Nossa!  O carro desviou de alguma coisa, caramba, meu Deus! Esta capotando, está capotando! Ai, bateu na rocha! Preciso parar, estou trêmulo demais, não consigo segurar o guidão, minha nossa! O policial foi decapitado. Meu Deus, Pai nosso que estais no céu santificado seja vosso nome! O corpo do homem estirado no asfalto, sem a cabeça! Repito o corpo do homem estirado no asfalto sem a cabeça! Não é sonho! É cena de horror!  Olha a velha novamente, olha a velha saindo de dentro do carro com a criança e a cabeça do policial nas mãos. Meu Deus…

— Que coisa impressionante! Eu já havia lido reportagens dele numa revista! A batida vem logo após esta suposta visão carregando a cabeça do policial?

— Sim. Segundo o motorista da carreta ele andava em altíssima velocidade olhando para trás e batendo com o braço esquerdo, como se tivesse alguma coisa na garupa da moto!

— Cadê as fotos?

— Está no arquivo “Estrada 11.”

— Mande a testemunha entrar. Escuta! Não temos nada a dizer para a imprensa ainda!

— Sim Doutor, entendido! Vou chamar o rapaz.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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