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Coluna do Adilson Cardoso – Alípio Capataz o Emissário da Morte

Coluna do Adilson Cardoso – Alípio Capataz o Emissário da Morte

Desde que passou a Cancela dos Priquiteiros, Alípio vinha observando um vulto que se movia a frente. Algo pesava no ar, além da lua acanhada, que se escondeu atrás da nuvem, arrepios involuntários passeavam pelo seu corpo. Mas ao mover a cabeça para os lados em sinal de alerta, a coisa desapareceu misteriosamente, deixando menos densa a atmosfera. Pensou sem cisma, que pudesse ter sido alma penada vagando sem rumo, por ali tinha incontáveis naquela situação. Ou o tal bicho homem montando tocaia, mas se fosse isso ele estava  preparado. Deu duas baforadas no cigarro de palha e ficou imóvel mergulhado no silêncio, nem um fiapo de vento se atreveu a soprar a fumaça. Alípio Capataz era devoto de Nossa Senhora da Boa Morte  e a ela entregava seus passos, puxou as rédeas da Egua parda, fez o sinal da cruz no peito e foi num trote sorrateiro, ajeitando a cartucheira em posição de tiro. No local em que avistara o banzé, esticou a lanterna de pilhas novas e fez a luz atestar que nada havia ali, além de entrelaçados de ramos com galhos secos e touceiras de capins, pendendo sobre o barranco. Um pouco mais embaixo entre a margem da estrada e o sopé da ribanceira, estava uma cruz recém fincada. Alípio tirou o chapéu e apertou contra o peito, entoou um Pai Nosso com Ave Maria, fez novamente o sinal da cruz e partiu.  A Egua bufava o cansaço de muitas léguas e o peso dos sacos com aqueles cranios, a parada estava prevista para dali á uma hora, na Baixa do Capitão, próximo ao Riacho das Lavadeiras, lugar que ele conhecia muito bem as entradas e saídas. Levantou a cabeça para observar mais uma vez a sua volta, era um hábito que trazia da época de criança, quando saia para caçar com o pai ficava em determinado ponto com um piador na mão, o pai subia na arvore e aguardava seu sinal, era preciso ficar alerta. Mas certa vez entreteve-se com um pequeno redemoinho que soprava umas folhas, se esquecendo de olhar o lado que vinha a Capivara. Alípio apanhara com a pirata de bater em cavalo e passara a noite do lado de fora da casa com polacos dependurados no pescoço, sem direito a fechar os olhos para um simples cochilo que fosse,  depois daquele dia dobrara sua atenção, entrando em estado de vigilância ininterrupta. Seu pai era Esperidião Felisberto de Jesus conhecido como Zé da Extrema, filho do Cangaceiro Muquiado, homem de confiança do Capitão Corisco. Vinha os gritos  de  Hermetina pedindo para não morrer,  junto com um arrepio feito agouro interior. O cheiro de carne podre era insuportável, mas precisava cumprir a missão da forma que fora confiada. Um ruído atípico veio da mata, ao virar-se  notou que havia um caixão esticado no meio da estrada próximo a cruz, algumas pessoas estavam em volta, a Egua relinchou com assombro e acelerou o trote, Alípio sem pânico conteve o animal, retirando o chapéu fez o sinal da cruz e uma nova prece.

– Em nome de Jesus e Nossa Senhora, eu rezo que a paz tu encontres Agora! A todas as almas que penam, pelos pecados seus, eu rogo em oração que encontrem a Deus! Em nome do pai, do filho e do espírito santo, amem!

A lua surgia pálida por de trás das nuvens clareando a estrada, as árvores espichavam suas sombras e uma Coruja Buraqueira observava imóvel de cima do formigueiro, pouco a frente mais uma cruz, esta com visíveis sinais de abandono, uma Cobra avermelhada  estava enrolada sobre ela. Zé da Extrema era um sujeito rude e cruel, o dialogo dentro de casa se resumia a surras e ameaças de morte. Maria da Piedade a irmã mais velha de Alípio estava com dezesseis anos, quando ficara cega do olho esquerdo por conta de um soco que o pai dera. Por motivo banal, ela estava folheando uma revista de fotonovelas que uma tia levara da cidade, se esquecendo de fazer  um café que ele havia pedido. A mãe era santa até no nome, Jesuína Santa Maria de Jesus, assassinada por ele por ter pegado na mão do Vaqueiro Mirtão da Soledade um sujeito que a chamava de filha. Naquela época Alípio já tinha dezoito anos e estava levando um Gado na fazenda Palmito  para o Coronel José Rodriques. Sentira tanto a perda da mãe que desnorteara todos os sentidos, embrenhara-se no mato sendo dado como morto, já que a região era famosa por ataques de Onças Pintadas á pessoas. Dois anos depois, em um fim de tarde do dia vinte e três de junho, véspera de São João, Zé da Extrema estava deitado numa rede amarrada entre dois Cajueiros, Dona Lica do Bejú uma velha conhecida estava junto, os dois balançavam sorrindo feito  adolescentes. Antes de morrer a mãe comentara que sabia por outras línguas que os dois viviam um romance antigo.  Alípio tinha um Rifle Papo Amarelo que herdara do Avô Cangaceiro, era inseparável e estava sempre carregado, dentro da casa não havia ninguém,  os irmãos foram expulsos  após a morte da mãe. O balanço da rede emitia um ruído peculiar do atrito, cadenciado às vezes até harmônico, os dois se beijavam sorridentes, Alípio pisou de leve, se aproximou com cautela, pois sabia que o pai não desgrudava do seu Colt Cavalinho niquelado, cheio até a tampa.  Quando buscava posição para a mira, alguns Passarinhos que estavam na copa do Cajueiro voaram assustados, Zé da Extrema saltou da rede de  arma em punho, mas Alípio abriu fogo, quando o corpo se estirou no chão a amasia ajoelhou-se clamando pela vida , seus olhos eram de pavor, tinham lágrimas escorrendo por todo o rosto, Alípio a pegou pelos cabelos e atravessara o punhal no seu pescoço, naqueles últimos instantes da agonia dela, fizera uma prece em nome da mãe, levantara a cabeça olhando para os lados e arrastara os dois corpos para o chiqueiro dos porcos Duroc. Depois daquele tempo  passara  a vagar pelo mundo, tendo o firmamento como teto e a morte como profissão. Era um assassino que tinha suas condutas, alguns princípios  que seguia implacavelmente, por exemplo; Não saqueava o bolso do morto, exceto se o mandante exigisse. Não atirava em partes que poderia causar sofrimento, não estuprava as mulheres e sempre fazia uma oração em favor da alma do infeliz. Chegaram ao Riacho das Lavadeiras, banhou-se, deixou que a Egua bebesse a vontade, havia capins novos brotando as margens, mas um vapor quente vindo de um braseiro recém apagado fez com que Alípio girasse violentamente sua cabeça, subiu ao topo de um pé de Jatobá e esperou, foi possível ouvir um longínquo tropel seguido de vozes em algazarra, já era hora de ir, passando por dentro da Trilha dos Brocados conseguiria chegar antes do raiar do dia. A lua voltou a se esconder atrás das nuvens, a Egua às vezes se recusava a andar, Alípio esporava e seguia tentando enxergar no escuro, daquele lado o caminho era estreito, bichos se moviam constantemente dentro dos matos, cobras se arrastavam pelo chão e gemidos ecoavam das árvores. O odor de podre estava ainda mais intenso, ele empunhava a Cartucheira mirando em todas as direções, esporava a Egua para andar mais rápido. Por volta das quatro horas da manhã atravessava o Lajedo e entrava nas terras do Coronel João Simplício Saturnino de Alcântara Neves. Uma enorme fogueira estava acesa no Terreiro e vários cavalos amarrados, também muitas pessoas sentadas do lado de fora em bancos improvisados e até em cadeiras, como se tivessem dando uma festa. Alípio sentiu-se amplamente aliviado, a missão estava sacramentada, aquilo so poderia ser uma recepção de boas vindas, no seu pensamento o Coronel deduzira que chegaria por àquelas horas e mandara preparar o banquete, Lucidio, Hermetina, os três filhos e a sogra, seis cabeças apodrecendo para mostrar  que seus serviços são de qualidade. Com ar de herói Alípio desatou o nó que prendia os sacos ás ancas da Egua e arrastou despreocupadamente em direção ao grande salão da fazenda onde se concentrava aquela gente. Havia muito choro, lamentações e um caixão enorme com uma coroa de flores a sua frente, dentro dele o Coronel João Simplício, com as mãos cruzadas sobre o peito, o pescoço a vista mostrava uma mancha negra numa espécie de colar. Alípio boquiaberto sentiu todos aqueles olhares lhe furando como se fossem afiados espinhos, o saco podre com os restos mortais foi arrancado da sua mão e espalhado ao lado da fogueira.

— Aqui estão os restos dos meus familiares que foram sepultados faltando pedaços! – Falou um homem barbudo de voz tremula.

— Meu filho, minha nora, meus netos e dona Eglantine! – Falou uma senhora de cabelos brancos amparada por uma moça de botas longas.

Alípio Capataz girava novamente a cabeça, estava dentro de um enorme circulo, ele e as cabeças daquelas pessoas que ceifara as vidas. Matara a família do Coronel que por desgosto se enforcara. Havia caído numa terrível armadilha do Velho Veridiano Passos, que encomendara as mortes em nome do Coronel Simplício, outras pessoas vinham depor, falavam sobre cada um daqueles, sobre o futuro das crianças, sobre o altruísmo da dona Eglantine e o ódio que sentiam no coração. Alípio sentia um cheiro de sangue no ar, era como se um vaso houvesse rompido no seu interior e exalasse aquela morbidez. Não conseguia mais  olhar para aquelas cabeças que passaram a ser cabeças de pessoas diferentes, pessoas que não deveriam ter sido  mortas  daquela forma cruel. Vinha a voz de  Hermetina novamente, os clamores para não morrer, para não matar o marido, para não matar os filhos, para não matar a mãe. O velho Veridiano havia tramado tudo. Não se esquecera da morte do seu irmão Eufrazino pelo pai de Alípio, conseguiu se vingar. As vozes ficaram mais ásperas, pedras começaram a ser atiradas contra ele que nada dizia, a viúva do Coronel saiu acompanhada pela moça de botas longas com se desse  permissão para vingança, “não quero olhar, mas façam o que quiserem” talvez fosse isso. Mais pedras eram atiradas, pedaços de paus e brasas da fogueira. Alípio sentiu medo, tentou explicar que havia sido vitima, mas uma porretada na cabeça lhe tirou os sentidos, quando voltou, sentia uma terrível sensação de queimor por todo o corpo. Em sua volta, centenas de pessoas observando ele dependurado naquele Girau sobre a fogueira. Do salão onde estava o corpo do Coronel era possível ouvir; “Quando as águas do mar da vida quiserem te afogar, seguras na mão de Deus e vai…”

 

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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