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Coluna do Adilson Cardoso – O Magnata e a Criméia

Coluna do Adilson Cardoso – O Magnata e a Criméia

Quando eu era garoto, me apegava á força das palavras, fantasiava com viagens, títulos e romances, mas nem sempre me saia bem. Tinha uma colega loura e sardenta filha de um cara bigodudo que a deixava na porta da escola num Opala Diplomata preto, ela se chamava Bia Askof. Dona Maria do Carmo, a diretora baixinha de sapatos barulhentos, puxava o saco dela, dizia que eram parentes distantes, pois descendiam de uma região próxima da Ucrânia. Toda manhã eu fingia estar fazendo alguma coisa do lado de fora do portão da escola, para ver a chegada de Bia Askof, ela tinha doze anos de idade, mas era alta e tinha a voz mais forte que dona Dilma, professora de Português. Eu gostava de olhar a Bia quando ela estava distraída, depois contava aos meus vizinhos que tinha uma colega parecida com o povo estrangeiro que passava na televisão.  Durante uns dias notei, que ela chegava  de taxi, um Fiat 147 vermelho, descia sem dizer nada ao motorista e batia forte a porta. Ele era gordo e careca,  seu semblante mudava, odiando a atitude de Bia, ela passava e não falava com ninguém. Mas quando a diretora puxa-saco a bajulava no corredor, entendi que o seu pai estava na Criméia, e só voltaria no mês seguinte. Eu nunca tinha ouvido uma palavra tão estranha quanto aquela.  “Criméia, Criméia” Fui embora com varias interrogações na cabeça, meu tio Frederico era motorista de Trator da Prefeitura, naquela hora ele estava chegando para almoçar, usava um macacão azul dobrado na altura das canelas e uma bota preta, minha mãe dizia que o pé dele fedia mais que a privada aberta.

— Bença Tio!

— Deus abençoa!

— Tio, o senhor sabe onde fica a Criméia?

— O quê?

— A Criméia, o senhor sabe onde fica?

— Se ocê que estuda num sabe! Imagina ieu, que sei mal, mal assinar meu nome!

Lá em casa não adiantava perguntar, pois meu pai não sabia nem a tabuada de 02. Minha mãe andava tentando ler revistinhas em quadrinhos, mas lia tão mal que perdia a paciência ao tentar soletrar tantas páginas. Mas tinha o lunático metido a poeta, Zé Cabeleira, primo da minha mãe, meu pai não queria que eu me aproximasse dele, dizia que o tal era pervertido e maconheiro, Zé gostava de olhar revistas pornográficas e tomar cachaça, ele fazia artesanatos de massa epóxi e vendia na praça, tinha um Toca-Discos e muitos Vinis de Led Zeppelin, Uriah Heep, Black Sabbath e Mutantes. Quando meu pai saiu á noite para tocar sanfona, eu saltei a janela e fui ao barraco do Zé, era uma moradia simples, as paredes pintadas de verde, azul e amarelo tinha corações vermelhos enfileirados, na sala tinha uma mesa de madeira e quatro cadeiras, um tronco de arvore que servia de banco e pôsteres de Jimi Hendrix emoldurados, ali também era cozinha e num cantinho próximo a porta ficava o fogão de apenas duas bocas, uma pequena geladeira marrom, e uma caixa com vários litros de bebidas, a musica estava alta e um cheiro de maconha empestava o ar, ele falava que eu era um carinha de fé.

— Zé Cabeleira, você sabe  onde fica a Criméia?

— Pá malandro, mas que doideira é essa? Que é que tu quer com a Crinéia?

— Estou querendo ir lá! É Criméia ou Crinéia?

— Caralho velhinho! Que ponta foi essa que tu fumou? É Crinéia e fica do outro lado do mundo sacou? Tipo pra chegar lá, tu tem que vender sua alma pro capeta e ainda ficar devendo umas parcelas, tem que voar de avião e passagem de avião é só magnata que pode pagar! A porra é no leste Europeu, lá onde aqueles Russos malucos se fodem se tanto tomar vodka.

— Quando eu tiver grande e tiver uma filha vou colocar nome de Crinéia!

— Agora isso você pode! Aliás, pode até mais de uma, pois pobre adora fazer uma cara de filhos e botar nome estranho! Ta ligado que meu nome é Matusalém né?

Eu deixei Zé Cabeleira falando sozinho e, fui pra casa com uma vontade louca de ser filho de um magnata. Achei legal aquela palavra. No outro dia fiquei de fora aguardando Bia Askof, jamais tive coragem de dizer ao menos oi, pois ela também sequer olhava na minha direção, ela desceu do seu taxi com o mesmo ritual, braços cruzados e bateu forte a porta. O motorista com certeza lhe amaldiçoara pela centésima, milésima vez. Ela usava uma blusa branca de mangas compridas com estampa da banda Menudos, calça jeans e botas.

— Oi Bia! – Falei com voz miúda e olhar titubeante.

Ela virou-se, incrédula e passou o olho com desdém em toda a extensão do meu corpo. Mas eu não desisti.

— Meu pai é Magnata, ele vai de avião pra Crinéia!

— Pra onde?

— Crinéia!

Bia Askof soltou uma gargalhada tão longa, que todos os seus dentes ficaram a mostra. A diretora puxa-saco viera como sempre ao seu encontro, ao vê-la se derretendo em risos quis saber o que acontecia.

— Esse daí disse que o pai é magnata e que está indo de avião para a Crinéia!

— Crinéia! Aháháháháhá! Magnata da carroça de pegar lixo que o pai dele é! – Falou a diretora gorda com aquela bunda de tabua.

Só fui entender o motivo do riso,  quando dona Juliana professora de historia me corrigiu.

— Não é Crineia é Crimeia!

Antes eu estava falando certo, voltei da escola cuspindo marimbondos, fui até a casa de Zé Cabeleira e dei-lhe uma pedrada na testa.

— É Crimeia seu veado fi de rapariga!

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso