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Coluna do Adilson Cardoso – Biblia na mão e bala na cabeça

Coluna do Adilson Cardoso – Biblia na mão e bala na cabeça

Eu era o único da turma que ainda não tinha fumado maconha. Mas andava com os malucos e gostava de ser chamado de maconheiro. As meninas que cabulavam aulas no “Colégio Edgar Romão” gostavam do cheiro do bagulho. Os caras sabiam que eu era o maior cuzão, fazia tipo, mas só tomava guaraná, foda-se eu queria pagar de louco e ter fama de interado para comer as meninas, algumas não deixavam consumar o ato, mas também não impediam que mãos e bocas passeassem livremente. Tudo fluía na maré mansa do bom Baiano, até um dia na quebrada, eles fumavam um mesclado e eu com um walkman no ouvido escutando “Veraneio vascaína” do Capital Inicial, viajava no som e, não cumpri com a parte no trato de ficar espreitando a policia que rodava no fusquinha de sirene apagada. Num dos refrãos da musica em que eu balançava a cabeça, tomei um safanão na orelha que o fone quase me estrangula, os amigos literalmente ligados, cada qual deu seu pinote, sobrou eu. Um policial branquelo de olhos ictéricos puxou meu fone com mais um solavanco e colocou nos ouvidos, me borrei   quando suas pupilas dilataram encaradas em mim, juntamente com um inchaço nas veias do seu pescoço. Só pensei no cara com a boca costurada de arame que assisti num Documentário.

— Olha só o que o maconheiro filho da puta está ouvindo! – Gritou colocando o fone nos ouvidos dos outros fardados. Ele tinha uma babugem de cólera escorrendo no canto esquerdo da sua boca.

Naquele instante eu não tinha mais o que dizer, os ossos das pernas, pareciam ter se  diluído, estava bambo quando fui apresentado ao telefone, golpe comumente aplicado pelos torturadores da Ditadura Militar. Consegui ver só  até o momento em que duas mãos em conchas emparelhavam nas minhas orelhas.

— Gosta de ouvir a Veraneio vascaína, hem seu veado maconheiro? Responda filho da puta! – A voz parecia distante misturada a um zumbido enlouquecedor.

— Quero o endereço dos outros! – Gritava o sargento de olho ictérico tentando me fazer ficar de pé.

Eu sentia náuseas com uma cólica infernal no intestino, soltava uns peidos secos, outras vezes aguados, os sentidos ora se organizavam ora se perdiam numa espécie de pesadelo relâmpago.

— Acorda maconheiro desgraçado! Senão vou te arrastar no pára-choque da viatura com um cabo de aço preso na língua! – Berrou o sargento com os olhos ictéricos já avermelhados.

Quando senti que a única luz que poderia cintilar para mim, era a trivial no fim do túnel, ouvi um deles urrar com um pequeno radio de pilhas, dizendo que o Brasil havia feito o segundo gol contra a Polônia. Os outros saíram correndo e pulando, chamando pelo nome de Josimar, autor do gol. Andei cambaleante torcendo para que não voltassem, a peleja parecia sem fim, quando de repente surge Ruy, um dos que fugiram momentos antes, estava no Dodge empoeirado do pai, trazendo no banco do carona, Gal, seu irmão mais velho, fornecedor de frascos do Cheirinho da Loló e comprimidos de Artane para os garotos que curtiam Punk Rock na garagem Hell Sound. Respirei debilitado, dando graças a Deus, Jogaram-me dentro daquele carro e me levaram para o sitio de uma tia, além das zoeiras pelo meu estado fétido, literalmente na merda, colocaram na minha cabeça que a partir daquele dia eu seria procurado pela polícia, devia segurar a onda. Fiquei uma semana dentro do quarto, tinha medo de sair lá fora e ter um helicóptero sobrevoando com uma arma para atirar em mim. A tia era dona Abigail, uma simpática senhora de quase sessenta anos que tinha os cabelos curtos e pintados de marrom, o marido dela era o Cirineu, eles não se falavam, ela fazia a comida e colocava na mesa, eu ajudava embalar drogas e lavava as louças. Ruy e Gal voltavam ao sitio a cada quinze dias trazendo dinheiro, descobri que a dona da droga era Tia Abigail, vi quando  ela ameaçou Gal, dizendo que cortaria o pescoço dele, caso tentasse lhe  passar a perna. Eu tinha saudades da minha mãe, mas Ruy argumentava  que nos jornais tinham fotos do meu rosto, eu ainda estava sendo procurado, para amenizar, falavam que minha família estava bem. Meus pesadelos eram pavorosos, via meus pais sendo levados pela policia e  torturados para dizer onde eu estava. Vi também quando atiraram na “Bolinha” minha cachorra que ainda amamentava, por conta destes sonhos eu pouco dormia.  Num domingo de céu nublado,  Cirineu saiu cedo na  Rural esverdeada,  vestia uma camisa xadrez e  calça de brim preta e uma  bota ocre  que tinha a cara de um cavalo de prata de lado.

— O desgraçado deve ter arranjado uma rapariga, levou todas as roupas! – Falou Tia Abigail, olhando o carro sumir na vegetação, ela  tinha lágrimas nos olhos.

Eu estava no canto da sala, encostado na parede, debruçado sobre a mesa, embalava os frascos do Cheirinho da Loló em caixas de leite vazias. Tia Abigail saiu com uma toalha para o banho e voltou minutos depois, tinha um cheiro agradável de Alfazema, sua boca estava bonita emoldurada de batom vermelho. Ainda enrolada na toalha passou a fitar-me, interrogando sobre a minha vida.

— Keith Richard, você tem um nome diferente! – Disse ela sem tirar os olhos dos meus. Notei que eles eram esverdeados.

— Meu pai é fã do guitarrista dos Rolling Stones! – Falei em tom despretensioso.

— Eu também coloquei nome de artista, na minha filha que mora no Espírito Santo! – Disse ela sorrindo.

— Como se chama? – Perguntei.

— Nalva Aguiar! Sou fã dela. – Falou tentando cantar uma musica que eu não conhecia.

Também não procurei saber que musica era.

— Keith Richard, você já viu uma aranha  peluda assim? – Senti um tranco por dentro, ela desnudou a genitália mostrando os pêlos que subiam até o umbigo.

— Sou velha, mas gosto de rapazinhos! Prometi ao Ruy que se for bonzinho comigo, no final do ano vai ganhar uma moto! Você quer ser bonzinho  com a Tia Abigail também? – Disse roçando os grandes seios no meu rosto.

O hálito dela era uma mistura de doce com fumaça de cigarro, senti sua língua quente passar nos meus lábios e suas mãos fortes apalparem minhas pernas. De repente um ruído de carro, Tia Abigail saiu feito um raio, se enrolando na toalha e batendo a porta do quarto, eu corri até a janela entreaberta e pude ver dois homens desconhecidos, eles desciam  do carro com armas na mão, um  não me era estranho, mas o medo não deixava organizar a pasta de lembranças, temeroso fugi pelos fundos, me embrenhando num bambuzal. Durante mais ou menos trinta minutos, permanecia um  silêncio de expectativa hedionda, o que estaria acontecendo dentro da casa? Até que gritos de socorro começaram  ecoar, era ela, Tia Abigail, que  passados outros trinta minutos,  gritou novamente sendo calada por uma rajada de tiros,  seguidos por um  novo e mórbido  silêncio, desta vez,  quebrado pelos ruídos do  carro acelerando e  saindo  em alta velocidade. Com o coração dando socos no peito, fui dando voltas entre as folhagens com cuidado para não ser visto, até que pude chegar próximo da casa e ver que estava tudo pegando fogo. Não havia o que fazer, as labaredas sedentas tomaram conta das entradas, os produtos químicos usados nas drogas começaram a explodir, exalava um cheiro macabro de carne assando… Certamente eram os restos da velha. Novas explosões e, as madeiras arcaicas da casa não suportaram,  indo tudo ao chão. Fiquei por ali espreitando a volta do Cirineu, precisava dizer a ele o que vira, era capaz de descrever um dos homens, mas não conseguia me lembrar de onde o conhecia. Durante três aflitivos dias, ninguém apareceu. Estava tudo muito estranho, quando consegui voltar a minha cidade, soube que meus pais não moravam mais lá, haviam sido expulsos da casa e jurados de morte, por eu ter matado a velha Abigail, no jornal dizia que a traficante era procurada pela polícia, aqueles maconheiros miseráveis haviam armado para mim. Era para eu ter sido morto junto dela. Meu padrinho Bené transportava cargas de algodão para o Norte do Brasil, ele acreditou em mim, deixando que eu fosse escondido na boléia até Santana no Amapá. Fiquei numa Igreja Evangélica de amigos dele, ajudava na limpeza do ambiente e  aprendia  os bons caminhos da vida, tinha direito as refeições e um quartinho nos fundos. Comecei a pregar, vendo as mensagens subliminares que enriquecem os Pastores,  aos dezoito anos, pude abrir meu próprio templo “Igreja da Força e Fé em Cristo”, me casei aos vinte e um ano depois, realizei meu sonho de consumo, comprando uma Ferrari GTC4 Lusso. Mantinha contatos, mas  não tão freqüentes com meus pai, eles  ainda me culpavam, por terem abandonado a velha morada, mas eu os compensava com depósitos volumosos em suas contas, todos vão descobrir um dia, que seus  pais são os seres mais corruptíveis  e filhas da puta que existem. Semana passada, graças a Deus, retornei a minha cidade natal para quitar algumas dividas, vinte anos se passaram e pouca coisa havia mudado por lá. Não me reconheceram, jamais imaginariam  que aquele pastor com a Bíblia na mão, pregando contra as drogas e os males do mundo, era o mesmo maconheiro, esculachado e, desaparecido em 1986. Há um prazer em certas  pessoas em te reencontrar, após alguns anos, maltrapilho e desorientado, esticando a mão implorando esmolas. Ruy e Gal coincidentemente estavam almoçando na casa dos pais, o mesmo endereço, Ruy  há pouco tempo se livrara de uma cana por trafico de drogas, o irmão se fingia de advogado, mas ainda vendia drogas para a garotada.  Eu disse ao cara  que contratei que era para matar todo mundo e colocar fogo nos corpos, o vídeo que recebi não perdia nada para as produções de Tarantino. Lucas era o terceiro que estava no dia da quebrada, mas não fizera nada para prejudicar minha vida, deixei ficar de boa, se foderia  logo no cachimbo do Crack. O velho Cirineu bancava o cidadão honesto, gerenciando um Hipermercado que era proprietário. Cheguei no final do expediente, estavam quase fechando, eu usava terno e gravata, a bíblia na mão, voz suave e  palavras harmônicas,  entrei e fui  direto ao velho, falei  que era mensageiro da palavra de Deus, ele ficou desconfiado, mas aceitou, não me reconheceu, ou nem se lembrava mais que eu existira. Falei, sacando a pistola ponto quarenta;

— Deus quer falar contigo, verme filho da puta!

A sala era a prova de sons, eu havia pesquisado. Os miolos de Cirineu ficaram espalhados pelo chão, peguei um maço de notas graúdas  e pus no bolso. Sai com um pacote de biscoito recheado e outro de  balas sortidas. Não me deixaram pagar, os abençoei dizendo um versículo da Bíblia;

—        Como é feliz aquele que não segue o conselho dos ímpios,
não imita a conduta dos pecadores,nem se assenta na roda dos zombadores! Ao contrário, sua satisfação está na lei do Senhor, e nessa lei medita dia e noite. Salmos1:1-2

Entrei num taxi e desci num hotel de luxo, quando olhava a cidade do vigésimo quinto andar, acendi um baseado e me lembrei dos pentelhos da Tia Abigail, dos seus olhos esverdeados e sua boca de batom vermelho. Penso que se ela não tivesse morrido eu teria topado.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso