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Coluna do Adilson Cardoso – A fuga de João Noiado

Coluna do Adilson Cardoso – A fuga de João Noiado

A rua estava tomada por curiosos, muito barulho e um homem espremido naquele canto da parede com uma arma apontada para a própria cabeça. A mãe derramava lágrimas de desespero, implorando que o filho mudasse de idéia, o pai estava bêbado e insensível.

— Quer morrer, morre! Se todo corno fosse tomar a decisão de tirar a vida, logo num ia sobrar quase ninguém! Acho que no mundo tem mais corno que Pombo, e olha que em todo canto tem Pombo! – Exclamou o velho falando consigo mesmo.

Uma senhora com um rosário tentou se aproximar para fazer oração.

— Fica ai dona! Num dá um passo a mais senão eu estouro meus miolos! – Berrou o pretenso suicida apertando o cano contra a cabeça.

— Não meu filho! Pelamor de Deus, num fala isso! Sai daí desgraça agourenta ou lhe planto um tijolo na fuça! – Disse a mãe amparada pela vizinha que lhe trazia um chá de boldo!

— Chá de boldo é bom pra desespero de mãe? – Perguntou a velha ao degustar o amargo.

— Não sei dona Venina, no desespero a gente bebe até folha de caderno! – Respondeu á vizinha de olho no Whatssap.

Para entender a pendenga: Gil Pedro é o marido da Gioconda, estão   próximos dos trinta anos de idade e dois de casamento, por vontade dela, fizeram a opção de não ter filhos. Ele é  um pequeno empresário do ramo de tintas, ela,  agenciadora de menores ao mundo da moda. Segundo denuncias anônimas, as garotas que não se encaixam nos perfis das grandes Grifes, são levadas para casas de prostituição no Distrito Federal. Gil Pedro abdicara de tudo para ficar com Gioconda, enquanto ela guardava segredos e cartinhas dos antigos namorados. Naquela manhã, fotos nuas  dela  estampavam as páginas da Internet, os amigos de Gil Pedro curtiam e comentavam maliciosamente.

— Oxente minino, mais que lapa de rabo é esse?! – Falou um Sanfoneiro Nordestino!

— Uai sô, cum trem dêssincasa ieu ia mamá mais que bizerro novo!- Comentou um internauta de Minas Gerais sobre os seios da mulher.

 No primeiro momento ele pensou em trucidá-la, mas uma diarréia emotiva lhe frustrara  os planos. Cautelosa, enquanto ele estava no vaso ela fugiu com o motorista do UBER. Gil Pedro não queria perdoar aquela afronta, mataria a ele mesmo para dar exemplo de que a desonra deve ser vingada, nem que seja com o próprio sangue. Fez selfies com o dedo no gatilho e mandou para a esposa, queria comovê-la. Na rua sem saída, lá estava ele, acuado, com o revolver apontado para a cabeça, continuava  fazendo mais selfies. Cinco metros era o limite estabelecido entre ele e os curiosos.

— Fique ai, se der mais um passo eu estouro meus miolos! – Falava a quem ousasse se aproximar.

— Olha o picolé! Olha o picolé! – Gritou um homem de chapéu de palha, empurrando um carrinho.

— Moço tem de côco branco? – Indagou a vizinha que amparava a mãe do Gil Pedro.

— Roubaram minha carteira! Pega ladrão! – Berrou um gordo que filmava o rapaz com um celular.

— Olha! La vai ele, é João Noiado! Pega ladrão! – Falou uma voz no meio dos curiosos.

Um grupo grande de justiceiros deixou o rapaz de lado e seguiu na caça ao ladrão, uns corriam a pé, outros iam de bicicleta, e tinha aqueles que ficavam nas janelas dos prédios apontando a direção do fugitivo.

— Peçam a Gioconda que volte para mim! Prometo que desisto de estourar meus miolos! – Bramiu o solitário suicida vendo todos se afastarem.

O gordo dono da carteira era o ultimo, gritava ofegando que pegassem o ladrão, mas tinha que se preocupar com a sua bermuda que caía lhe expondo o rêgo suado. Sorte dele, a poucos passos de ser detido pelos populares, João Noiado sacou uma arma da cinta e mirou na multidão, um breque violento fez com que pessoas, bicicletas e até uma carroça se chocassem numa burlesca cena de comédia, para os que ainda não acreditava na veracidade das suas ameaças, João Noiado apertou o gatilho duas vezes, por sorte as balas não atingiram nenhum dos seus perseguidores, mas acertaram a testa de Gil Pedro que batia um conflituoso  papo consigo mesmo;

— Viver ou morrer? Viver ou morrer? Acho melhor… – Calou-se Gil Pedro.

A arma dele estava descarregada, no momento em que pressentia o perigo, Gioconda antes de fugir tratara de livrar-se daquelas balas.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso