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Coluna do Adilson Cardoso – Alípio Capataz o Emissário da Morte (Parte l)

Coluna do Adilson Cardoso – Alípio Capataz o Emissário da Morte (Parte l)

Desde que passou a Cancela dos Priquiteiros, Alípio vinha observando um vulto que se movia a frente. Algo pesava no ar, além da lua acanhada, que se escondeu atrás da nuvem, arrepios freqüentes passeavam pelo seu corpo. Mas ao mover a cabeça para os lados em sinal de alerta, a coisa desapareceu misteriosamente.

— Deve de ser alma penada, vagano sem prumo! Mais se fô bicho home quereno tucaiá! Pode vim, a boca da lagarta de fogo, ta cheia de porva! – Falou Alípio com voz mansa, segurando o Papo Amarelo.

 Deu duas baforadas no cigarro de palha e continuou imóvel mergulhado no silêncio, um fiapo de vento se atreveu a soprar a fumaça e, cantou no seu ouvido. Alípio Capataz era devoto de Nossa Senhora da Boa Morte e a ela entregava seus passos, puxou as rédeas da Egua parda, fez o sinal da cruz no peito e foi num trote sorrateiro. No local em que avistara o banzé, esticou a lanterna de pilhas novas e fez a luz atestar que nada havia ali, além de entrelaçados de ramos com galhos secos e touceiras de capins, pendendo sobre o barranco. Um pouco mais embaixo entre a margem da estrada e o sopé da ribanceira, estava uma cruz recém fincada. Alípio tirou o chapéu e apertou contra o peito, entoou um Pai Nosso com Ave Maria, fez novamente o sinal da cruz e partiu.  A Egua bufava o cansaço de muitas léguas e o peso daquelas cabeças apodrecendo nos sacos, a parada estava prevista para dali á uma hora, na Baixa do Capitão, próximo ao Riacho das Lavadeiras, lugar que ele conhecia muito bem as entradas e saídas. Levantou a cabeça para observar mais uma vez a sua volta, era um hábito que trazia da época de criança, quando saia para caçar com o pai ficava em determinado ponto com um piador na mão, o pai subia na arvore e aguardava seu sinal, era preciso ficar alerta. Mas certa vez entreteve-se com um redemoinho soprando numas folhas, se esquecendo de olhar o lado que vinha o Veado-catingueiro. Alípio apanhara com a pirata de bater em cavalo e passara a noite do lado de fora da casa com polacos dependurados no pescoço, sem direito a um simples cochilo, se os polacos tilintassem o pai se levantaria com o chicote na mão. Depois daquele dia, entrara em estado de vigilância ininterrupta. Seu pai era Esperidião Felisberto de Jesus conhecido como Zé da Extrema, filho do Cangaceiro Muquiado, homem de confiança do Capitão Corisco. Vinha os gritos de Hermetina pedindo para não morrer, junto com um arrepio feito agouro interior. O cheiro de carne podre era insuportável, mas precisava cumprir a missão da forma que fora confiada. Um ruído atípico veio da mata, ao virar-se notou que havia um caixão esticado no meio da estrada próximo a cruz, algumas pessoas estavam em volta, a Egua relinchou com assombro e acelerou o trote, Alípio sem pânico conteve o animal, retirando o chapéu fez o sinal da cruz e uma nova prece.

– Inome de Jesuis e Noss’Sinhora, eu rezo que a paz ti encontres agora! A todas as armas que penam, pelos pecado seus, eu rogo in oração que encontres a Deus! In nome do pai, do filho e do esprito Sant’, amem!

        A lua surgia pálida por de trás das nuvens, clareando a estrada, as árvores espichavam suas sombras e uma Coruja Buraqueira observava imóvel de cima do formigueiro, pouco a frente mais uma cruz, esta com visíveis sinais de abandono, uma Cobra avermelhada estava enrolada sobre ela. Zé da Extrema era um sujeito rude e cruel, o dialogo dentro de casa se resumia a agressões físicas e ameaças de morte. Maria da Piedade a irmã mais velha de Alípio, estava com dezesseis anos, quando ficara cega do olho esquerdo por conta de um soco desferido pelo pai, motivo banal, ela folheava uma revista velha com fotos de atores de novelas. A mãe de Alípio era Jesuína Santa Maria de Jesus, morta com um tiro pelo marido, por ter se recusado a dançar com ele, numa festa de entrega da Bandeira de São Pedro, na frente dos filhos e convidados. Naquela época Alípio tinha dezoito anos e estava levando um Gado na fazenda Palmital para o Coronel José Rudriqo. Com aquela violenta perda da mãe, também perdera parte do juízo, passando a vagar pelo mundo sem vontade de viver, desaparecera completamente de todos os contatos, até ser dado como morto. O próprio pai acreditava que fora trucidado por Onça Pintada, quando dormia numa gruta. Mas, alguns anos depois num fim de tarde do dia vinte e nove de junho, exatamente três anos após a morte da dona Jesuína, Zé da Extrema estava deitado numa rede amarrada entre os dois Cajueiros, Dona Lica do finado Viriato estava junto, os dois balançavam sorrindo feitos adolescentes. A mãe de Alípio comentara pouco antes de morrer, que por outras línguas, sabia que os dois andavam se amassando em moitas de capim.  Alípio tinha um Rifle Papo Amarelo que herdara do Avô Cangaceiro, era inseparável e estava sempre carregado. Os irmãos não moravam mais na casa, expulsos pelo pai, haviam se perdido no mundo. Nada mais restava, além das lembranças. O balanço da rede emitia um ruído peculiar do atrito cadenciado, às vezes harmônico, lembrando uma gaita. Os dois se beijavam sorridentes, Alípio se aproximou com cautela, sabia que o pai não desgrudava do Colt Cavalinho niquelado, sempre cheio.  Quando buscava posição para a mira, alguns Passarinhos que estavam na copa do Cajueiro voaram assustados, Zé da Extrema saltou da rede de arma em punho, mas Alípio já estava engatilhado e abriu fogo, quando o corpo se estirou no chão a amasia ajoelhou-se clamando pela vida, seus grandes olhos eram assombrados de pavor.  Alípio viu ali os momentos finais da sua mãe frente ao seu assassino, ouvia nitidamente pela garganta daquela mulher sua mãe gritar pelo nome dos filhos. Mas dominado completamente pelo ódio, a pegou pelos cabelos lhe atravessando um punhal no pescoço, nos últimos instantes daquela agonia assistida, fizera uma prece em nome da mãe, levantara a cabeça olhando para os lados e arrastara os dois corpos para o chiqueiro dos porcos Duroc. Depois daquele dia, passara a vagar pelo mundo, tendo o firmamento como teto e a morte como profissão.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso