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Coluna do Adilson Cardoso – Roleta Russa

Coluna do Adilson Cardoso – Roleta Russa

 No bar do Sabino, Mengão, Rasteira e Velhinho brindavam com Viriato ouvindo Beth Carvalho, naquela mesma mesa há uma década fizeram a despedida, Vi como era chamado pelos amigos, decidira aventurar-se pelo mundo após a morte do pai. Anfilofio Drumond o poeta da turma, estava com cabelos ralos, mas a voz continuava astuta. Sabino puxou uma cadeira, queria saber sobre as mulheres da praia de Nudismo, onde Viriato passara os dois últimos anos, o papo interessou a outros curiosos que se aglomeraram para ver as fotos e vídeos de Tambaba. Agneta prima de Amarílis chegou com o celular no ouvido, fingia uma conversa demorada, pediu um Tridente de hortelã e um cigarro, acendeu e parou na porta fingindo ignorar os olhares de Viriato. Saiu rebolando com seu short jeans curto, mostrando parte da bunda branca.

— Nossa cara! Como essa Dália ficou gostosa!– Disse Viriato.

— Essa é Agneta, Dezesseis aninhos de pura sacanagem! Só frequenta os barzinhos da alta, balada de segunda a segunda, duzentos contos por uma hora! – Falou o Sabino, olhando a moça por cima dos óculos.

Minutos depois, entra Amarílis acompanhada por Dália. Cabelos curtos blusa branca com o símbolo do Estado de Minas Gerais, saia preta curta com flores de Girassol pintadas, ao contrario da prima, que olhava desconfiada para Viriato, ela passou de cabeça baixa e sentou-se numa mesa próxima. Seu cheiro ainda era o mesmo de dez anos atrás, um perfume com cheiro amadeirado que ele não se lembrava do nome, mas o odor exalando do corpo dela, jamais deixara o seu olfato, os dois nus no sofá da varanda, aqueles peitos redondos, os olhos carentes se fechando, a boca sussurrando seu nome. Mas Amarílis estava diferente, os anos fizeram bem a ela, estava mais bonita, as pernas finas estavam malhadas com letras chinesas tatuadas na panturrilha. Mengão que havia se ausentado voltou com um Tan Tan, um Pandeiro e um Cavaco. Naquele clima Viriato deixava as lembranças aflorarem, o álcool subia a cabeça, não conseguia desviar os olhos das pernas de Amarílis que estavam cruzadas em sua direção, relembrava o ultimo sexo no hotel São Pedro próximo a Rodoviária, o ruído do choro dela era de tesão e saudade antecipada, há tanto tempo, mas ao mesmo tempo estava tudo tão claro na memória. Acreditava que ainda era o homem da sua vida, estava convicto de que a qualquer instante ela se levantaria para ir ao banheiro, ele diria as mesmas palavras que a encantara adolescente, Anfilófio a postos para declamar um romântico poema de Neruda. Amarílis se descuidava e ao trocar de pernas expunha a cor da calcinha, branca, perfumada com aquele cheiro de que ele não se recordava do nome. Sabino que há anos não bebia, resolveu tomar em homenagem a sua volta, mas Amarílis o ignorava, mudou de lugar com a prima, ficando totalmente de costas para ele, sua bunda havia crescido, o volume era maior, “E aqueles pelos entre as nádegas?” Pensou num suspiro profundo. O celular tocou, ela mostrou o visor para a prima e atendeu curvando a cabeça, Viriato, pediu um litro de Wisque e passou a virar o cowboy como se tomasse água. Marconiedson adentra o bar, magérrimo, cabeleira negra e os brincos de argola na orelha e no nariz, parecia mumificado, durante os últimos dez anos que não se viram era o mesmo, cumprimentou a todos, dando um abraço especial em Viriato que com malicia, quis saber aonde andava Ivana. Ex-namorada de Marconi que dava para os amigos dele.

— Pra mim já tá superado! – Disse Marconiedson sorridente.

— Mas continua na bronha? Ou arranjou uma doida? – Disse Viriato com sarcasmo.

— Arranjei uma doida! – Falou caminhando na direção de Amarílis.

Viriato petrificou-se em cima da cadeira. Ouvia a percussão do samba tocar longe, enquanto as imagens desapareciam dos seus olhos. Marconiedson passou a mão nos ombros dela e beijou-a febrilmente, o ruído dos instrumentos foram substituídos nos ouvidos dele, eram sinos, panelas batidas com barras de ferro, era gritos de horror, o coração palpitava, sua cor fugia da pele. Na mesa ninguém percebia aquela mutação, Sabino já não atendia aos fregueses, Dona Belinha fritava os tira-gostos e assumia a peleja, maldizendo o marido. Viriato aumentava os goles, um shot, inconsequente para minimizar aquele descontrole emocional, levantou-se em busca de um argumento para ir até a mesa, pegou o prato com alguns petiscos, mas as pernas o traíram, o excesso de álcool descontrolou seus passos e o derrubou antes de pisar pela segunda vez naquela direção. Amarílis assustada agarrou-se ao namorado fazendo coro com a gargalhada geral, Marconiedson foi o mais irônico, para o aumento da fúria de Viriato. O samba parou por alguns instantes até que o ébrio companheiro voltasse ao lugar de origem, se ouviu uma voz com chalaça na mesa dos fundos;

— Segura pau d’agua!

— Pau d’água é a puta que pariu! – Berrou Viriato.

Cambaleante foi até o banheiro, a caminho viu abaixo da caixa registradora do bar, um revólver deixado displicentemente sobre papéis com rabiscos de conta. Agachou como se fosse pegar um doce no balcão e escondeu-a dentro da camisa, lavou o rosto no banheiro e deu a volta, indo na direção da mesa em que ouvira o desacato. O rapaz de cabelos coloridos estava de costas, usava camisa do Manchester United, time de futebol da Inglaterra.

— Chama de pau d’água de novo, filho da puta! – Gritou com o revolver trêmulo na mão.

— Calma ai meu irmão! Baixa isso ai, vamos conversar!

— Calma é o caralho! Chama de novo!

— Desculpa ai cara, foi só uma brincadeira!

— Te conheço de onde pra você brincar comigo? Vai fazer graça no inferno agora! – Berrou levando o cano na direção da cabeça do rapaz.

A arma tinha apenas uma bala e, ao girar o tambor o cão bateu no vazio, na mesa do lado um policial Civil assistia a cena com a Ponto quarenta destravada, no “Tec” do revolver Viriato tomou um tiro na testa. Quando o resgate chegou ele já estava morto.

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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