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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – O Massacre na Favela do Canhoto

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Coluna do Adilson Cardoso – O Massacre na Favela do Canhoto

Menino era o nome dele. Preto de cabelos carapinha tinha barriga grande e se cansava ao menor esforço. A idade era perto dos nove anos, segundo seu Miguel da frutaria de tábua, Menino era mais novo que “Bueiro” que tinha dez completos quando morreu de Leptospirose, “Foi um desencarno sem choro, daquele bichinho que era seco feito tripa, mas ruim feito o capeta.” Dizia o comerciante. Os pais estavam presos, ele por associação ao trafico de drogas e armas, ela por tentar vender o “Rato d’água” irmão mais novo de Menino, que fora encaminhado para adoção no Conselho Tutelar. Menino vivia sozinho no mundo, dormindo num barraco caindo aos pedaços, onde fora casa da família, quem tinha pena e podia, dava um prato de comida, outros um cafezinho de manhã e assim ele ia sobrevivendo. “Dibôa” tentava cooptá-lo para soltar fogos no alto do morro, era o sinal que avisava quando a policia chegasse. Dibôa era  gerente na Boca do Zói de Tingue. Rival da Boca do Satú.  Mas Menino ouvia os conselhos da dona Quininha e não aceitava aquelas ofertas. Aliás, não aceitava… Porque  tudo mudaria a partir  daquele dia do Baile Funk na quebrada do  Fogo em Cima. Menino vira  as novinhas do Beco do Limão,  subindo com  Graveto e Ruminante, dois  amigos do  Caga-Sebo, aquele negrinho manco  que estava celebridade  após participar de um filme de Fernando Meirelles, já  visitara   até os Estados Unidos em avião da Força Aérea Brasileira. Cheio de inveja e vontade de estar junto da turma, Menino pediu com acanho  um tênis  emprestado ao filho de Bento Pato, um Bicheiro que morava no morro, mas tinha casa bonita e amante loira em bairro nobre. O  garoto esnobe que em outros tempos  jogara bolinha de gude com Menino, fazia  coleta do dinheiro do bicho com o pai e  desembolava na Boca do Zói de Tingue, ajudando dolar o fumo. Desfilava com Pistola na cinta e cordão de ouro no pescoço. Sem poupar palavras dissera  bafejando o  hálito de maconha na cara de Menino. “Não tenho onda com pivete pau-no-cu! Sai fora de mim seu doente!” Subia outro grupo de menininhas, celulares nos ouvidos, cada uma mais produzida que a outra, saias curtas e decotes grandes exibindo  os pequenos peitos que apontavam os  bicos acesos. O filho do bicheiro tripudiara sobre aquele inseto medíocre que se rebaixava a sua frente, ouviam-se risos e frases vilipendiosas, Menino chafurdado na lama tinha lágrimas nos olhos, mas não queria demonstrar fraqueza, andara cambaleante com o psicológico em frangalhos, mergulhara na sua tapera com o insignificante tamanho da barata que subia na parede. De repente um tropel atraiu sua atenção, Piolho, Cascão e Bota Suja, surgiram correndo, procuravam lugar para se esconderem com uma bolsa atulhada de drogas. A policia vinha logo atrás, passaram trombando em Menino, sua insignificância corria mundo, mas as coisas pareciam ter mudado, fizera um psiu aos fugitivos que caíssem para dentro do barraco, num dos cômodos insalubres havia um buraco que dava para um túnel que saia na tubulação de esgoto, era segredo. Ali o pai de Menino já havia escapado inúmeras vezes da polícia. Os três sem outra opção desceram na confiança, tropeçando em Camundongos e respirando aquele cheiro pútrido, apenas pequenos percalços, diante do que poderia ser nas mãos da policia corrupta quando subia o morro. Após uma longa e apavorante caminhada chegaram do outro lado da Favela, a mercadoria estava salva. Menino que havia coberto a entrada do buraco com seu colchão encardido e os pedaços de papelão, apenas balançara a cabeça negativamente quando a policia interrogara. “Essa porra aí é aquele negrinho do cú sujo! Sabe de nada não! Olha o tamanho da pança, deve ter verme ai do tamanho de um cavalo!”– Dissera um dos policiais com um fuzil na mão. O ultimo passara lhe chutando a bunda, depois dos outros que deram cascudos e cutucadas com os canos das armas. Lágrimas fervendo voltaram a brotar dos teus olhos tristes, bufava com o cansaço extremo que lhe vinha do nada, além de  um nó cortante lhe travar a respiração. Como sempre, olhara para os lados em proteção ao orgulho e fora sentar-se no interior do seu mundo caótico para chorar. Horas depois, Piolho, Cascão e Bota-Suja reapareciam visivelmente chapados, comemoravam felizes, traziam frango assado e garrafas de bebidas, cumprimentaram-no  batendo as mãos e fazendo sinal de armas, agradeceram a preza, disseram que em nome do Satú, a partir daquele dia, ele era considerado no morro, sua nova morada seria no Beco do Cajá, barraco com televisão, banho quente com sabonete e bandeco da hora direto do restaurante da tia Fabi. Menino tinha muita fome, por isso rasgava o frango com voracidade, entornara uma lata de cerveja em goles duplos, seus olhos ganhavam forças, estavam febris visgados nos amassos que Cascão dava na Mila, uma sardentinha de quinze anos, ex- mina do Dibôa. É bom ressaltar que depois que Menino ajudara  a salvar a droga, Cascão que estava no comando do carregamento, fora graduado a gerente da Boca do Satú. Menino tomara outras latas de cerveja e fora batizado, a sessão de batismo incluíra um grosso baseado e uma carreira de pó que começava no joelho e terminava no triangulo peludo de Angélica, a irmã mais velha de Mila. Menino dormiu tão louco que acordara num hospital, tinha mascara de oxigênio no rosto e  as mãos amarradas. Seus olhos embaçados passearam pelo teto do quarto, se esticara  com dificuldades para alcançar um campo maior de visão, estava numa enfermaria com outros pacientes. Uma mulher bem branca e baixa com cabelos amarelados e presos por um diadema aproximara-se, Menino fingira estar dormindo, ela estava acompanhada de dois homens, um bem alto de barba e cabeça comprida, outro era negro de estatura média, ambos usavam jalecos brancos. Menino se assustara a ponto de tossir, quando a mulher apontando um gráfico na prancheta, afirmava que o paciente havia reagindo bem ao novo tratamento, controlara a albumina, nas palavras dela era possível dizer que a desnutrição já estava em números aceitáveis, para o trigésimo quinto dia. Após sair do hospital  fora  adotado por  Damiano Batista Menezes Rocha, o “Satú”, que havia perdido seu  filho mais novo em  acidente de carro.  Passara  dois anos se tratando de desnutrição crônica, quando  estava  curado  fora   trabalhar como “Vapor”, ficando na atividade  até os dezoito  anos, quando a turma do Dibôa fechara  o paletó do Cascão,  Menino já tinha experiência e malicia, indo a sub-gerência da boca, a gerência na época fora ocupada pelo Piolho. Eximio articulador, subornara  os policiais da Unidade Pacificadora e forjara a morte do Satú. Fizeram  sepultamento com  caixão cheio de pedras. Satú “metera o pé da Favela” Pois estava jurado. Naturalmente pela evolução e poder de liderança, Menino  assumira o topo, era o dono da boca. Mas outra grande estratégia estava nos seus planos,  para a surpresa geral, emitira  um comunicado dizendo que daquele lado estava decretado o fim da venda de drogas,  todos se converteram  ao evangelho. Abriram  uma igreja  com Pastor e tudo. Dibôa crescera  o olho e mandara  a molecada averiguar, montaram escuta, filmaram até de satélite, mas nem um movimento anormal fora detectado. Passavam armados, dia e noite provocando, atiravam pra cima, enquanto Menino e seus antigos soldados estavam cantando louvores de bíblia na mão. Até que relaxaram e marcaram o dia da tomada do território, “A filial da Boca do Zói de Tingue, no território dos Alemão” comunicaram na radio pião da favela. No dia anunciado estava tudo silencioso, Dibôa e Zói de Tingue desfilavam  numa Ferrari de teto solar, o som vibrava o morro inteiro, novinhas enlouquecidas desciam até o chão, pivetes com cordões de ouro no pescoço, pagavam de soldados com armas na mão. Outros seguiam de peito aberto, relaxados, cantando o Funk da invasão.  Eles só não sabiam que em cada buraco de barraco daqueles, havia um cano de fuzil apontado, esperando apenas o sinal, quando o sino da Matriz de Nossa Senhora da Morte dera sua primeira batida, os canos cuspiram  fogo sem poupar ninguém, não houvera tempo de reação, estavam encurralados no olho do inferno, estouravam  do A-K- 5 ao  A-K-103, Submetralhadoras Thompson, P90, Kriss Vector e a Mp5 que com a qual  Menino trucidara pessoalmente o Dibôa, os corpos foram todos queimados.  Na entrada da  Favela,  o socorro fora chamado para atender o filho do bicheiro Bento Pato, fora  deixado ali com  os dois pés decepados por uma serra elétrica.

 

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