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Coluna do Adilson Cardoso – Escorpião Amarelo

Coluna do Adilson Cardoso – Escorpião Amarelo

Na casa da minha tia, vi um escorpião Amarelo, estava  mergulhado num vidro com álcool, perguntei a ela o porquê, respondeu sem querer mais assunto, que havia encontrado embaixo da cama. Fui embora e levei aquilo como um troféu, trabalho numa padaria fazendo pequenas serviços de rua e limpando o chão, mas  a maioria das  horas fico  no estacionamento, lá  sou o responsável pela boa aparência do lugar. Gosto de trabalhar ali, ás vezes ganho mais que os quinhentos reais que o  seu Agnaldo me paga, “Não reclama menino, imagina o tanto de gente que está desempregada, além do mais o que você come quase não é descontado!” Diz ele quando peço aumento. Mancó filho de uma rapariga, não desconta um pão seco sem manteiga e o copo de café com leite que tomo de manhã, o resto até um chiclete  manda anotar. Ainda bem que existe a Marly, ela é a gerente, tem que olhar as bolsas de todo mundo quando sai, o escroto deixa bem claro que quem rouba um pão rouba um vagão, só se for o vagão que cabe no cú  da mãe dele, aquela gorda que fala forçando o S, como se fosse carioca. Marly ás vezes deixa eu levar  pedaços de bolo que sobra, as vezes também,  levo  coxinhas, mas não é de graça, aos sábados que o seu Agnaldo não vem na Padaria, ela  entra para o escritório com o rapaz da Eletrônica e esquece do mundo, ninguém conta nada, este é o preço.  Arleide diz que os dois ficam no bem bom, eu concordo. Um dia  espiei, dei até cãibras na mão  vendo  Marly peladona, revirando aquele olho verde. Enquanto ela fica  lá,  todo mundo enche  as bolsas e os bolsos. No estacionamento eu ainda tenho que ficar olhando para os doidos não defecarem  no beco, é a pior parte, outro dia o Aranha entrou quando eu estava lavando a grade, quando eu vi ela já estava levantando a calça, puta que pariu, eu gritei e só não dei na cabeça dele de pedra, porque uma moça que estacionava uma Biz disse que se eu fizesse aquilo chamaria a policia. Resumindo, passei horas limpando a merda, mas ele nem encosta mais, quando me vê corre, eu fico  pensando que ele não é doido porra nenhuma,  se fosse  não tinha medo. Dizem que doido rasga dinheiro e come bosta, aquele deixa para os outros limparem. Então, o dinheiro que eu ganho ali é de gorjeta, da dona Marcia, dona Nininha, Paula filha do seu Gaspar, Jorgino do carro branco e Esmeralda da casa de ração, poderia ganhar mais se Neco Barbudo e Milton Polaco não atrapalhassem,  além de não dar, também falam  que os outros estão me acostumando mal. Já tenho dezenove anos e continuo na mesma inhaca que estivera  aos dezessete, pensei que fosse passar no Exercito, pensei que fosse ser jogador de futebol, mas nada, restou a padaria, meu pai ao invés de me ajudar, está cobrando uma ajuda maior dentro de casa, dou cento e cinqüenta dos quinhentos que ganho, ele disse que vai aumentar para duzentos. Comecei namorar a Catiane minha ex-colega de ensino medio, na época eu era apaixonado com ela, mas ela gostava de outro cara, o cara tirou a virgindade dela e espalhou para quem quisesse ouvir,  mesmo assim ela continuava apaixonada com ele, ficaram por um tempo até ele ser preso ajudando fraudar provas de Vestibular. Agora Catiane vive se desculpando, diz que poderia ter me dando uma chance naquele tempo, diz que por ela teria guardado a cartinha que lhe dera, mas rasgara por medo do sujeito. Tudo bem, ainda gosto dela e não me importo com passado, só queria que ela me respondesse  se ainda o ama, mas ela desconversa e diz que o importante é que ela está comigo. Minha irmã acha que sou tolo, mudo de assunto e sigo a rotina.  Eu soltei o escorpião dentro do carro do Milton Polaco, o carro dele é daqueles adaptados para quem não mexe  as pernas, não fiquei por perto para ver como foi, ouvi dizer que ele se assustou quando viu o bicho no painel e bateu noutro carro. Seu Agnaldo disse consternado que Milton Polaco teve  traumatismo craniano, colocaram um aviso convidando os funcionários para o sepultamento.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

 

 

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