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Coluna do Adilson Cardoso – Felizes para Sempre

Coluna do Adilson Cardoso – Felizes para Sempre

“Madalena é uma santa!” Diziam vizinhos, parentes e amigos. Era a rotina do casal estranho que morava na esquina da pracinha, sobradinho de plantas na janela e um portão amassado de pedra abaixo da maçaneta. Felizes para sempre, batia o coração da esposa ao passar a roupa do marido e tirar a poeira do carro todos os dias. Já passaram dos cinquenta anos, ”Bem conservados pela graça de Deus” pensava ela, quando não conseguia fugir da pergunta sobre sua idade. Filhos não tiveram juntos, ela se divorciara do ex-marido, quando aquele decidira arriscar a sorte no garimpo de Serra Pelada, aliás, ele fora o pedinte da separação quando encontrara uma pedra de ouro, pela “rádio peão” ela soubera que  estava rico e lhe mandara um “pé na bunda” como recompensa. Gilliard é o nome do marido atual, pai de dez filhos com outras quatro mulheres, de duas delas, separou-se por ter levado chifres, as outras duas por ter colocado. Estava empate. Desta forma Madalena se sentia segura e não acreditava no que diziam na rua. No banheiro em frente ao vaso colara um cartaz, “Felizes para sempre”.

Certa manhã  de junho, tremendo de frio, Madalena se levanta e religiosamente vai com a flanelinha sobre a lataria do carro, o vermelho vinho espelha aquele rosto sonolento, cumprindo com satisfação a sina de esposa. O marido sorrateiro surge depois, cheirando a perfume Jequiti  dado por ela no dia dos namorados. Quis  que ela ouvisse com atenção, o que ele tinha a dizer, há coisas que só o  casal que se ama pode compreender. Ela tremia se mantendo austera com sorriso fingido, ele continuou, afirmando  que pessoas no trabalho andavam dizendo que ele teria caso com a Ester. Um punhal cego cravou-se no estomago de Madalena, um gosto de sangue acido escorria impiedoso, a respiração foi ficando ofegante. Aquele era um nome reincidente na memória dela, boatos corriam há tempos. O marido indiferente  a beijou na testa  e bateu a porta.

 A noite, Gilliard lhe trouxe bombons, latas  de leite condensado e uma revista de palavras cruzadas. Beijou-a na testa e disse com drama no olhar, “Preciso sair, não queria, tentei evitar, disse que queria ficar com você esta noite, mas marcaram uma reunião!” Madalena engoliu um nó de cimento enrolado com arame farpado, em silêncio servil, resumiu-se a uma cabeça na janela espiando o marido sair com sua gravata amarela de ocasiões especiais. O perfume permanecia naquele ar de contendas, enquanto ele virava lentamente a esquina. No dia seguinte já estava acelerando para sair, quando disse que daria uma carona para Ester que o aguardava no portão, lembrando que ser feliz para sempre depende da compreensão de quem se ama. Madalena apenas concordou, o coração bateu  tão forte que os olhos sacolejaram.

Ao final da tarde, trancou a casa e foi fazer uma surpresa ao marido. Vestindo as roupas de Cooper, quis parecer despretensiosa, passando por acaso. Todos a conheciam, alguns a cumprimentaram baixando a cabeça, outros perderam  o sangue do rosto e sorriram acanhados. A secretaria impediu que ela se adiantasse dizendo que o chefe saíra mais cedo. Por coincidência a mesa de Ester era vazia. “Não tenho nada a ver com isso” Disse um vizinho do bairro que trabalhava ali, falou sem olhar nos olhos dela. Madalena afastou-se cabisbaixa, deveria aceitar sem reclames, a felicidade depende do entendimento, ás vezes de uma mordaça, de um tapume nos olhos.

“Felizes para sempre é o caralho!” Lembrou-se furiosa  que aquele cartaz ficava a altura dos olhos para quem se sentasse no vaso. Resumindo, qualquer um naquela casa, estava cagando para aquilo. Feito filme americano, um taxi amarelo desembarcava uma passageira na frente do Supermercado. Madalena entrou e bateu a porta.

— Boa tarde  senhora!

— Senhora está no céu!

— Para aonde vamos?

— Qualquer lugar que você possa parar o carro e me comer!

 

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

 

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