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Coluna do Adilson Cardoso – Velinhas apagadas

Coluna do Adilson Cardoso – Velinhas apagadas

Velinhas apagadas

Micaela passa lentamente a mão sobre a enorme barriga, se olha no espelho e aperta o lábio inferior com os dentes. Carlos Eduardo está imóvel no meio do quarto com os braços cruzados.

— Termina de contar a história! – Fala com voz meticulosa.

— Foi este o desfecho da trama! – Disse a mulher sem tirar os olhos do espelho.

— Sinceramente eu custo a acreditar que existam mulheres, ou melhor, demônios travestidos de mulheres que são capazes de matar os próprios filhos para vingar-se do marido! – Ponderou Carlos virando as costas para sair.

— Absurdo é o homem pegar a mulher toda bonitinha com as coisas no lugar, arrombá-la o quanto pode, enchê-la de filhos e depois meter o pé na bunda para ir se aventurar com outras! – Berrou Micaela tirando os olhos do espelho.

Carlos Eduardo suspira forte, silencia-se por alguns instantes, olha para a mulher de semblante tenso e sai do quarto. Micaela no topo da escada observa o marido descer como se contasse os degraus.

— Eu sempre te falei que não queria ter filhos! – Micaela grita, a voz ecoa por toda a casa.

A porta do quarto bate com força, Carlos Eduardo vai até a cozinha, uma senhora de aproximadamente sessenta anos, cabelos curtos, pintados de louro com franja na testa, conversa com uma também senhora, negra gorda de lenço branco na cabeça. O homem dá bom dia e parece esquecer o que faria na cozinha, coloca a mão na cabeça, aperta os olhos e sai pela porta lateral, vai em direção a garagem. Sente que está sendo observado, gira o corpo e olha para cima, a janela do quarto esta semi-aberta. Ele volta, da porta da cozinha chama por dona Aldina, vem à senhora de cabelos pintados. É a sogra, mãe da Micaela, ele pede a ela que não deixe que a esposa saia sozinha, olha para a senhora gorda e faz um sinal de psiu, ela balança a cabeça concordando. Os meses se passam angustiosos, a criança nasce numa tarde de dezembro. Micaella pouco se preocupa com ela, quer saber onde o marido andou, pede o celular dele e busca por provas de infidelidades. Diz que não quer os peitos caídos, manda que a mãe arranje “ama de leite” ou ela mesma dê de mamar. Liviane é o nome da filha que cresce com a carga dos ciúmes doentios da mãe sobre o pai. Certo dia, Micaella busca na internet sobre incestos, clica; “Filha se apaixona pelo pai” e passa a ler compulsivamente todo aquele conteúdo, faz anotações e cria um caderno com todos os casos que encontra. Liviane já tem cinco anos e muito medo da mãe, o pai conversa, diz que as coisas vão mudar, tenta convencer Micaella a consultar um Psicólogo, se oferece para ir junto. Ela diz que é armação dele para interná-la em hospital de louco. Faz surpresas desagradáveis no seu trabalho, pergunta quem é a vagabunda que anda saindo com o marido dela, pois ele está brochando em casa. Carlos se sujeita a ligar uma câmera dentro do escritório, Micaella não faz mais nada além de espioná-lo, briga quando ele vai ao banheiro, segundo ela, o marido combina com alguma mulher para esperá-lo no ponto cego da câmera. Liviane faz seis anos, está linda, fala inglês e quer conhecer o exterior quando completar quinze anos. Micaella ouve a conversa da filha com o pai, toma uma garrafa de uísque e quebra os copos na cozinha, agride a própria mãe e grita que ninguém no mundo irá tomar o marido dela. A ambulância chega, ela ainda está agressiva, berra que não é louca, se encostarem-se a ela serão processados. Micaella é Bacharel em Direito. Carlos se tranca com a filha para não ver a saída compulsória dela, durante trinta e cinco dias a paz reina naquela casa. Aline é lourinha, baixa e tem voz rouca, há uma semana sai com Carlos Eduardo, agradece na cama pela força na conclusão da Monografia. Mas Micaella volta para casa, silenciosa, desconfiada, anda como se pisasse em espuma, evita falar o que foram aqueles dias de internação. Liviane fica de longe, observa a hora de aproximar-se para abraçar a mãe, Micaella quer apenas saber o que o marido fizera. Se ele a beijava para dormir, se a beijava quando saia, se já se beijaram na boca. Se já haviam tomado banho juntos. A filha temerosa balança a cabeça negando, mas suas faces coradas despertam ódio em Micaella que esconde algo por trás do sorriso fingido. Chama pela mãe e pede que vista o melhor vestido na menina, aquele que usara no aniversário de seis anos, pede também que coloque uma Tiara de flores na sua cabeça, quer a filha parecida com um anjo. Desce com a filha arrastando um vestido enorme, a avó orgulhosa agradece a Deus. Liviane está feliz, talvez numa felicidade pouco sentida, estava com a mãe.

— Vamos fazer uma surpresa para o papai?

— Sim Mamãe, vamos sim, ele vai adorar!

— Ah é e por que ele vai adorar? – Indagou mudando o semblante.

A menina fica em silêncio. Roi as unhas e procura reconhecer o lugar onde estão indo.

— Reconhece este prédio?

— Sim, meu pai trabalha aqui!

— Muito bem! – Falou estacionando o carro do outro lado da rua.

O prédio é de quatro andares, o escritório da Empresa em que trabalha Carlos Eduardo é o primeiro. Elas sobem de mãos dadas. A mão da criança está fria, seu coração bate acelerado para encontrar o pai.  Chegam ao terraço, Micaella mostra o céu azul de nuvens espessas, diz à menina que as nuvens tomam formas de animais, porque os anjos os constroem com uma massinha especial.  Liviane quer ver o pai, pede que ela conte a ele sobre os anjos que fazem os animais de massinhas. “O numero de pessoas que praticam incestos no mundo, aumenta a cada dia!” Uma voz fala na cabeça da mulher, ela aperta os ouvidos e abaixa a cabeça, a voz fala novamente. Micaella grita, aperta a cabeça. Liviane chora, pede pelo pai, diz que está com medo. A mãe pega o telefone e liga, aguarda, cai a ligação, insiste até ouvir a voz do outro lado.

— O que é que você está fazendo, que não pode atender minha ligação?

— Micaella onde você está? Acabei de falar com sua mãe? Cadê a Livi?

— Vim trazê-la pra você, pode ficar com ela só pra você!

Sem desligar o telefone puxa a filha pelos cabelos e a joga lá embaixo como se fosse um boneco. Seus gritos de socorro são ouvidos por Carlos Eduardo que chega segundos após a sua queda, perplexo se atira sobre a criança que ainda respira com hálito de sangue, Micaella está no mesmo lugar, o telefone na mão chamando pelo marido.

— Carlos Eduardo! Alô estou vendo você, por que não quer falar comigo?! Atende droga! – O grito é alto e reverbera. Impaciente ela joga o telefone na multidão de curiosos

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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