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Coluna do Edson Andrade – Aposentar-se e morrer

Coluna do Edson Andrade – Aposentar-se e morrer

Tenho muito medo. Após 45 anos de estado, 25 de professor, 35 como jornalista, 26 nas ondas do rádio e 15 como advogado, cheguei aos 146 anos de idade laboral. Tenho muito medo, eu repito, já que o espelho denuncia minha tentativa de morrer para a esperança. Ali, minha imagem refletida desnuda uma ausência de coragem. E não mais sou a tenacidade que forjou o sonho, açoitado que sempre fui pela vergasta de uma vida cuja origem tem o filme de um homem jovem, negro, deitado em uma urna funerária. Era meu pai, vítima do descarrilamento que o matou para a orfandade de oito, no longínquo inverno de 1961, imagem impossível de apagar, até que minhas luzes sejam enegrecidas pela dor inelutável.

É chegada a hora? Eu já escrevera no livro “Sinestesia” que a “morte é como a vida: uma dor eterna”. Carlos Drummond de Andrade, incomparável, asseverou: “Stop. A vida parou ou foi o automóvel?” Quem parou? Minha emoção? A ambição desmedida da juventude que embarcou no trem do tempo? Quem estacionou? Quem guardará o carro na garagem e seguirá por passos trôpegos em direção ao nada?

Foram longos anos construindo o sonho da Saúde no norte de Minas, protagonista de momentos impagáveis. Hoje, ao divisar o tempo pretérito, eis o professor em sala de aula, grávido de algum saber, exposto ao cansaço noturno dos alunos queridos e inesquecíveis, vendendo a preço de banana seu conhecimento para alimentar de esperança as lutas tantas dos olhares em si. Concomitantemente, o jornalista já escrevia sua teia de vocações, enquanto o escritor, GRITANDO suas palavras para o mundo surdo, arvorava-se em personagens e versos e desativava, a cada ponto final, algumas bombas em seu interior em guerra.

O radialista nasceu em 1993. Não era âncora até que a oportunidade o empurrou para os microfones e para a glória de amar o rádio, incondicionalmente. Aos 45, venceu o vestibular e tornou-se estudante de Direito. Em 2004, iniciou uma carreira em que as teses desenharam vitórias, algumas com repercussões em todo o Brasil. Com alguma vaidade e um sem número de polêmicas, atravessou o rio caudaloso a golpes de noites insones e livros cheios em mãos de amor por todas as causas em que a Justiça necessitasse imperar.

146 anos de vida doados a todas as aventuras. Stop. O servidor público quer parar. Stop. O advogado quer parar. O professor já parou. O radialista ainda sonha. O comentarista de televisão ainda sonha. O escritor JAMAIS se aposentará, pelo bem da crença inarredável de que viver ainda vale a pena. Mas está morrendo.

Ao aposentar-se, o que fará? Não mais o trajeto para o ambiente de trabalho em que marcou pontos e tarefas por longos 45 anos? Onde o Professor? Onde o Advogado chicoteando argumentos e teses perante adversários e clientes? Onde o oxigênio para esse universo de sonhos e certezas de fim de linha? Onde o sonho da Saúde em um Estado Brasil eivado de loucuras e desrespeito às leis e às cláusulas pétreas?

É chegada a hora do retirement, la retraite, do ritiro, do retiro, do ruhestand. Mas, não deveria ser uma retirada em glória e êxtase, exatamente neste país com expertise em retirar direitos dos retirantes? E, por assim dizer, em sede de direito adquirido, aproveitar enquanto não nos retiram o resto? Não saberia responder com a convicção necessária, já que o navio soçobra e se sente ameaçado pela tempestade a boreste.

A chuva molha o barco, o vento ameaça parti-lo em dois. É hora de mirar o futuro e acreditar na finitude de todos os suspiros. E chove mais.

O autor é escritor, professor, jornalista, radialista e advogado.

 

Edson Andrade
Edson Andrade

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