Conforme o governador, o grande problema não são as crianças em aula em si, já que, segundo Zema, há comprovação de que elas são pouco afetadas pelo vírus. A questão seria a transmissão para pessoas mais velhas, dentro de casa.

“Nós não sabemos o desenrolar da crise. Pode ser que no mês que vem já esteja disponível uma vacina. Acho pouco provável. Mas já está provado que as crianças são pouco afetadas pelo vírus, mas elas levam o vírus para dentro de casa. São quase que imunes, mas acabam levando para os pais, avós. Nesse momento, não seria nem um pouco adequado. Nós vamos estar acompanhando, mas a previsão é que isso (retorno das aulas) não seja feito tão cedo porque o vírus está no meio de nós. Nós estamos acompanhando muito de perto. O meu desejo é que isso aconteça o quanto antes, mas não podemos expor ninguém a risco”, disse.

O professor de educação física Daniel Alves, de 44 anos, acredita que o retorno das aulas deve ser feito apenas em momento seguro. Segundo ele, mesmo que as aulas retornassem na semana que vem, ele não permitiria a volta da filha, Isabelle, de sete anos. A menina começou o primeiro ano do Ensino Fundamental neste ano e chegou a ter pouco mais de um mês de aulas antes da suspensão pela pandemia de Covid-19.

“Do ponto de vista em relação à proteção, eu acho uma boa ideia (o retorno em 2021). É claro que isso vai atrasar as crianças. Mas se voltar semana que vem, eu não voltaria com a minha filha. Eu acho que um prazo seguro, sendo otimista, seria setembro”, opinou.

Zema também afirmou que é favorável ao adiamento do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) porque a prova tem como característica a reunião de muitas pessoas. “Se o Enem for significar grandes aglomerações e, pelo que eu sei, sempre foi, eu sou favorável a um adiamento ou que se faça de uma forma que as pessoas não fiquem concentradas. Nem sei nem se é possível”, declarou. A declaração foi dada antes do anúncio oficial do governo federal sobre o adiamento da aplicação dos exames nas versões impressa e digital.

Afirmação precipitada, considera SinepMG

A declaração inicial de Zema à rádio, melhor explicada mais tarde pelo próprio gestor no Twitter, gerou repercussão no Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais (SinepMG). Em nota, Zuleica Reis Ávila, presidente da entidade, considerou “extremamente precipitada” a hipótese de que o retorno presencial das aulas ocorra em 2021.

Segundo ela, a fala, a 234 dias antes do término do ano, “gerou instabilidade nas 4.292 instituições particulares de ensino de Minas Gerais, responsáveis pela matrícula de mais de um milhão e 100 mil alunos”. Conforme Zuleica, essas empresas já vêm “sofrendo problemas suficientes de inadimplência, cancelamento de matrículas e diversos problemas relacionados à suspensão das atividades presenciais”. A nota na íntegra pode ser lida ao fim desta reportagem.

Outro lado

A reportagem de Hoje em Dia entrou em contato com a Secretaria de Estado de Educação (SEE) para entender em que é baseada a fala de Zema sobre a possibilidade de que as aulas só retornem em 2021 e também para saber se a mesma é válida para o ensino superior, como é o caso dos turnos na Universidade Estadual de Minas Gerais (UEMG). A pasta se posicionou em nota. Leia na íntegra:

Conforme orientação do governador Romeu Zema, em consonância com as medidas e protocolos adotados pela Secretaria de Estado de Saúde, as atividades com aglomeração de pessoas não têm previsão para serem retomadas. Não é possível afirmar como será o comportamento da pandemia nos próximos meses. Por isso, as escolas seguem fechadas, sem previsão para reabrirem. Havendo mudança de cenário, as aulas poderão ser retomadas.

Leia a nota do Sinep na íntegra:

No dia 15 de março, domingo, três dias antes do anúncio da suspensão das atividades escolares no Estado, o Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais foi chamado para uma reunião com a Secretaria de Estado da Saúde, Secretaria de Estado da Educação e demais representações educacionais sobre a situação escolar em Minas Gerais, como forma de alinhar e informar sobre as medidas de saúde pública e as estratégias no enfrentamento à disseminação do novo coronavírus. Na reunião, foi definida, por uma questão de saúde pública, a suspensão das atividades escolares presenciais em todo o Estado, desde a Educação Infantil até o Ensino Superior. Posteriormente, no dia 22 de março, uma Deliberação do Comitê Extraordinário Covid-19 de número 18, estabeleceu que “ficam suspensas, por tempo indeterminado, as atividades presenciais de educação escolar”.

Desde então, o Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais, apesar de não ter sido convidado para nenhuma reunião com os órgãos públicos, tem tido um contato muito produtivo e respeitoso com representantes da Secretaria de Estado da Educação, do Conselho Estadual de Educação e demais órgãos representativos do ensino no Estado. Estamos atentos à realidade das escolas de Belo Horizonte e também municípios do interior, muitos sem registros de casos da doença. Como estamos lidando com uma questão de saúde pública, tendo em vista a necessidade de cumprimento de protocolos, as escolas particulares do Estado aguardam as orientações das autoridades competentes para iniciar o retorno às atividades presenciais, tendo em vista o pedido de muitos pais e instituições de ensino. Temos um compromisso inegociável com a vida de nossos alunos, pais, professores e funcionários e qualquer retorno deve ser feito com absoluta responsabilidade.

Apesar das atividades presenciais de educação escolar estarem suspensas por tempo indeterminado, o Sindicato das Escolas Particulares de Minas Gerais esclarece que, em nenhum momento, foi ventilada a hipótese do retorno presencial das aulas apenas no ano de 2021, como sinalizou o governador Romeu Zema, em entrevista à Rádio Itatiaia neste 20 de maio. O SinepMG, sendo um órgão de representação, não se opõe a qualquer determinação legal do poder público, mas acredita que tal declaração, há exatos 234 dias antes do término do ano, é absolutamente precipitada.

A declaração do governador Romeu Zema gerou instabilidade nas 4.292 instituições particulares de ensino de Minas Gerais, responsáveis pela matrícula de mais de 1 milhão e 100 mil alunos, que já vêm sofrendo problemas suficientes de inadimplência, cancelamento de matrículas e diversos problemas relacionados à suspensão das atividades presenciais. Além disso, uma vez que a determinação do governo é a da suspensão das atividades presenciais por tempo indeterminado, o SinepMG solicita participação nas reuniões com o poder público, com o objetivo de informar as escolas sobre os próximos passos e não haver surpresas nas declarações dadas à imprensa.