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Quarentena pode agravar transtornos alimentares

Quarentena pode agravar transtornos alimentares

Uma barra de chocolate, um pedaço de pizza, um copo de refrigerante bem gelado e um pão quentinho. Para alguns, o home office parece ter virado home eating. Confinados em casa sem ter muito o que fazer, muitos acabam tendo na comida uma válvula de escape, segundo especialistas. A gente sabe que, mais do que saciar a própria fome, a comida também pode ser um carinho, mas é preciso atenção. A ansiedade, a tristeza, a insegurança e o estresse têm sido prato feito para despertar ou piorar casos de transtornos alimentares. 

Quarentena pode agravar transtornos alimentares
Quarentena pode agravar transtornos alimentares Foto: stockexpert/divulgação

 

No mês passado, a modelo Andressa Surita admitiu nas redes sociais estar sofrendo de compulsão alimentar durante o isolamento. A influencer contou que teve que recorrer à ajuda de profissionais e está tomando remédios para diminuir a ansiedade.

“A quarentena com certeza desencadeia uma série de desequilíbrios, estamos falando do emocional, a comida está muito relacionada a isso. Comer muito ou não comer, assim como outros vícios, como o cigarro, o álcool, o jogo e o sexo, está associado à incapacidade do ser humano em lidar com as suas emoções. A comida acaba virando artifício para tornar o dia menos difícil e vai amenizando as frustrações, porque o ser humano não gosta de lidar com o sofrimento”, explica o psicólogo Wesley Carneiro.

Para a professora Nayara Mussi Monteze, do Departamento de Nutrição da faculdade Una, é normal associarmos o ato de comer à sensação de prazer. Segundo a nutricionista, alguns estudos mostram que, quando comemos comidas com alto teor de açúcar e gordura, por exemplo, ou até quando nos lembramos de alguma experiência com a comida, é liberada no organismo a dopamina, que é mais conhecida como “hormônio do prazer”. Então tudo bem se você fizer aquela receita do bolo da sua avó e também ficar feliz.

Nayara lembra ainda que para muitos, inconscientemente, comer está associado a comemorações e momentos felizes. Em outros casos, o ato de comer pode ser remédio. Atire a primeira pedra quem nunca se deu de presente o direito de comer aquele pedaço de chocolate por estar triste. Mas é preciso diferenciar compensação, exagero e transtorno.

Segundo a professora, não chega a ser um problema passar da conta na quantidade de pizza ou não resistir àquela feijoada num fim de semana isolado. Porém, quando o exagero passa a ser rotina, pode ser indicativo de compulsão alimentar ou outro distúrbio.

“Transtornos alimentares no geral são doenças psiquiátricas que modificam o comportamento alimentar do paciente, seja ela causada por uma ansiedade ou depressão. O comer compulsivo, por exemplo, é quando a pessoa come muito em curto espaço de tempo, é ligado ao sentimento de descontrole e culpa. Uma coisa é um quadro isolado; outro é quando há uma recorrência disso. É preciso deixar claro que o alimento não é o vilão de nenhum transtorno, o que é preocupante é a forma como enxergamos os alimentos”, avalia.

Fantasmas
Se a má relação com a comida tem sido novidade para muitos, de acordo com especialistas, pessoas com transtornos alimentares têm tido o risco maior de recaídas durante isolamento. Um estudo publicado pela revista “The Lancet” mostrou que o medo pelo isolamento tende a aumentar a sensação de não estar no controle em pessoas com distúrbios alimentares. Esse é o caso da estudante Cynthia Fiúza, 27. A descoberta da compulsão aconteceu no ano passado. “Eu comecei a perceber que eu estava com problema com a comida quando eu comi 12 pedaços de pizza e me senti horrível por ter feito isso. Parecia que eu nunca me sentia satisfeita e logo depois vinha o sentimento de culpa”, conta.

Desde então, a estudante já vinha estudando e tratando a compulsão. O problema é que no meio do caminho veio a quarentena. Nos últimos meses, Cynthia engordou sete quilos. “Na quarentena isso piorou. Como eu fiquei sem atividade física, que é um fator principal para tratar esse tipo de transtorno, eu comecei a ficar ansiosa, com medo, me sentia culpada por não estar treinando e de repente já estava descontando tudo na comida. Nesse tempo acabei descobrindo também que um dos fatores pelos quais eu costumava passar três horas dentro de uma academia era a própria compulsão, eu supria na atividade física a quantidade de comida excessiva que eu estava comendo”, relata a estudante.

 

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🦋MIL MOTIVOS PARA DESISTIR E UM PARA SEGUIR EM FRENTE… 💪❣️ . . 🦋 De um ano e meio pra cá, estava sem paz ao me alimentar mesmo amando a nutrição. Mas talvez essa seja a minha evolução mais nobre. Onde estou em paz. 🙏 Venho de um lugar onde já tive pre diabetes. Já fui considerada obesa mórbida. Já sofri com bullying. Já tive crises de ansiedade fortíssimas, síndrome do pânico e depressão. Já precisei usar medicamentos ( não uso tem 7 meses )🙏. Tudo isso por causa de dietas restritivas. . . 🦋 Já me “fizeram” fazer cetogênica por 2 meses. Já me passaram T3 e T4 que quase me mataram. Já tiraram minhas frutas porque diziam que elas não eram bem vindas. Já me passaram metiformina. Já tive crises de hipoglicemia de madrugada, com a sensação de que não acordaria mais. Tudo isso por causa de “massacres nutricionais”. Poderia ter desistido, mas isso nunca passou na minha cabeça. Porque entendi que a dor poderia ser minha amiga. 🙏 . 🦋 De um tempo pra ca, eu decidi aprender sozinha. Talvez tenha sofrido mais. Sozinha estou me entendo, sozinha estou me libertando. Porque foi sozinha que eu precisei encarar de frente os alimentos que me amedrontava. Porque foi sozinha também que tremia ao me alimentar. Porque foi sozinha que precisei GRITAR para a minha família para deixarem de ser “policiais alimentares”. Foi sozinha que eu chorei. Foi sozinha que eu me senti perdida. 📍Mas foi sozinha que eu me tornei a minha melhor amiga. 📍Foi sozinha que entendi que desistir nunca seria uma opção. Afinal, de fato, eu nunca desisti pq Deus sempre esteve aqui me segurando.🙏 . . 🦋 Agradeço muito a musculação! A atividade física! Porque foi nela que encontrei o meu amor próprio. Ela me salvou. E continua me salvando dos meus piores dragões. E como aprendi amar a atividade física ? Porque parei de fazer dela “punição” e fiz dela o prazer da minha vida. A musculação me libertou. E talvez seja por ela, que estou aqui até hoje. Porque ela nunca falhou comigo. Ela me deu a mão nos meus dias mais sombrios. 🙏❣️ . . 🦋Pronta, para prosseguir o que eu sempre amei viver, porém, agora em liberdade… 🦋🦋 . . #emagrecimento#emagrecer#30tododia#motivation#academia#nutrição

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“Todos os quadros de transtornos se agravam, mas tenho percebido que a compulsão tem sido mais recorrente e durante a quarentena não tem um padrão de pacientes para os distúrbios no geral. A pandemia, a ansiedade e a insegurança fazem com que as chances de desenvolver uma doença mental em geral, e o transtorno alimentar para quem tem uma tendência, acabem sendo maiores”, destaca o nutrólogo Adriano Faustino.

Emocional x merecimento
Durante a pandemia, é normal que as pessoas tenham comido mais pela emoção. Mas é preciso desconfiar se a alimentação tem sido a única forma de lidar com os problemas ou se o peso tem causado alguma angústia. Para os casos que precisam de atenção, a reeducação alimentar e o tratamento psicológico são as principais formas de lidar com os distúrbios alimentares.

O nutrólogo Adriano Faustino, especialista em medicina interativa, aconselha que, neste período, as pessoas estabeleçam uma rotina e horários, além de buscar manter um padrão alimentar, com o planejamento de comidas frescas como legumes, frutas e verduras. “Não devemos pensar que já está tudo muito difícil e que depois você corre atrás da saúde ou emagrece. Não funciona assim; em média, você demora o dobro do tempo para emagrecer do que levou para engordar. Além da estética, estamos falando de outras doenças que podem surgir com a alimentação desregulada, diabetes, dores na coluna, joelho”, alerta.

“Não coma enquanto trabalha, na frente do computador ou da televisão, assim você termina um pacote de salgadinho sem ver e se sentir satisfeito. Evite beliscar também. Se está com vontade de mastigar algo até para controlar a ansiedade, tome água ou algum chá”, completa o especialista. “Em média, 70% de uma dieta de sucesso é alimentação e 30% é exercício. Só não pode usar isso como desculpa para ser sedentário, porque o sedentarismo é um dos fatores de risco para o coronavírus”, lembra.

Anorexia: pessoas com transtorno alimentar sofrem mais na quarentena 
Apesar de parecerem maioria, os casos de compulsão alimentar não são os únicos a ser impactados durante a pandemia. Um estudo realizado pelo Centro de Excelência em Distúrbios Alimentares da Universidade da Carolina do Norte mostrou que pessoas com anorexia e bulimia também estão tendo que lutar ainda mais contra o transtorno durante o isolamento. Segundo o estudo, 62% dos americanos e 69% dos holandeses entrevistados que sofrem com anorexia nervosa relataram medo por não conseguir encontrar alimentos consistentes com seu plano de refeições devido à restrição do isolamento. Na França o Serviço Nacional contra Anorexia e Bulimia teve um aumento de 20% a mais de ligações durante o período lockdown.

“Sabemos que na pandemia as pessoas também estão mais expostas a padrões estéticos, estão mais ligadas às redes sociais, então os transtornos provocados pelo ideal da magreza e boa forma são agravados sim”, destaca a professora Nayara Mussi Monteze, do Departamento de Nutrição da faculdade Una.

A professora do Departamento de Nutrição da Escola de enfermagem da UFMG, também confirma a tese: “Nesses quadros de transtornos essas pessoas geralmente gostam de comer escondido, não gostam de ter companhia para se alimentar por vergonha por estar comendo ou por se sentir mal por comer. Nesse aspecto a quarentena pode desencadear ou piorar esses distúrbios”.

Um aplicativo para controlar a compulsão alimentar 
Um estudo publicado no periódico científico “American Journal of Psychiatry” mostrou a  efetividade de um aplicativo de smartphone para o tratamento de diversos sintomas de transtornos de compulsão alimentar. O dispositivo funciona associado ao auxílio de coaches de saúde e a profissionais, que ajudam o paciente a compreender seu quadro, e ao uso da telemedicina, para o tratamento de diversos sintomas de transtornos de compulsão alimentar.

O trabalho foi conduzido por pesquisadores da Icahn School of Medicine at Mount Sinai, nos Estados Unidos. No sistema organizado pelos pesquisadores, os coaches de saúde foram treinados para aplicar a terapia cognitivo-comportamental aos pacientes por telefone. O método é focado em dois aspectos. O primeiro é o comportamento: o que a pessoa faz, as circunstâncias que desencadeiam as ações e como podem ser modificadas. O segundo, o cognitivo, diz respeito a crenças, associações, ideias que podem ser distorcidas por emoções negativas. Por meio do aplicativo, o paciente monitora suas respostas ao tratamento, e as informações são acompanhadas pelo coach de saúde num dashboard.

A pesquisa comparou os resultados de 52 semanas de uso do dispositivo com o atendimento convencional, que incluía consulta psiquiátrica tradicional. Os pacientes que utilizaram o aplicativo relataram maior redução nos dias de compulsão alimentar (cerca de três dias a menos por mês) e alcançaram maiores taxas de remissão (56,7%) do que o grupo que não seguiu nenhum tratamento específico para transtorno alimentar (30%).

Algo semelhante também foi verificado em comportamentos compensatórios, como uso de laxante ou excesso de exercício, sintomas de transtorno alimentar (preocupação demasiada com o peso) e comprometimento clínico. A eficácia do sistema deverá ser testada em uma base maior de pacientes. Se confirmada, servirá como nova opção de tratamento para um transtorno que afeta cerca de 5% dos brasileiros. (Com agência Einstein)

Minientrevista
Camila Kumell Duarte
Professora do Departamento de Nutrição da Escola de enfermagem da UFMG

É possível afirmar que a quarentena potencializa quadros de transtornos alimentares? Esse momento da quarentena tem sido difícil para todo mundo, não é um momento fácil. Estamos todos em casa, tem uma oferta grande de alimentos, de pedidos de tele-entrega, por exemplo. Mesmo para aqueles que estão passando por um momento de dificuldade financeira existe uma ansiedade maior por não saber se aquele alimento vai estar ali em breve, é realmente uma situação complicada. A ansiedade e o medo estão presente na maioria das pessoas nesse momento seja por uma angústia ou outro aspecto. Por isso é importante ter atenção porque esse estresse e essa ansiedade pode ser um gatilho para o desenvolvimento dos transtornos alimentares ou desencadear uma crise. Ninguém vai desenvolver por esse aspecto específico, essas pessoas já possuem fatores de risco que levariam ela a um ambiente de estresse ou outras condições talvez a desenvolver esses transtornos. A pandemia pode ser o fator que gere o estresse e a ansiedade, desencadeando o transtorno alimentar em pessoas que já possui predisposição.

Quando é considerado compulsão e quando é considerado apenas um exagero? A compulsão é uma patologia, ela faz parte dos transtornos alimentares, é uma patologia mais recente que outros transtornos como a bulimia, a anorexia. Mas vemos que os transtornos têm uma incidência bem considerável na população. Os transtornos é mais presente em indivíduos que têm sobrepeso ou obesidade, há momentos que se come regularmente em quantidade adequada, mas há momentos que se consome uma quantidade muito grande de alimentos e calorias e isso é diferente de um exagero ou de uma noite que eu como um pouco mais de macarronada, por exemplo. O que diferencia é que o indivíduo foge do controle em relação a quando parar, ele já comeu o volume que ele necessita para se alimentar, mas continua comendo, porque ele não consegue controlar o momento de parar. Na compulsão o indivíduo perde o controle. Para receber esse diagnóstico isso também precisa ser periódico, algo recorrente. Já sobre o sobre o exagero, todos cometemos exageros alimentares de vez em quando seja numa festa ou confraternização, isso faz parte mesmo agora em casa, repetimos um prato para o jantar. Isso não é uma compulsão, porque a gente identifica quando está saciado.

Na compulsão as pessoas dependentes de comida? Qual seria o tratamento? Tem como prevenir? Em relação a dependência da comida, como vemos no fumo e no álcool e outros aspectos, isso é bem discutido na área. Mas o que sabemos é que temos um sistema de recompensa. Se eu comer muito açúcar eu vou ter a sensação da recompensa, porque eu vou sentir bem estar e prazer. Por isso, no tratamento da compulsão alimentar é muito utilizado a terapia cognitiva comportamental, às vezes, algum medicamento para controlar a ansiedade, mas existem estratégias como o acompanhamento em grupo. É preciso que o indivíduo conheça os alimentos e faça escolhas. É preciso cuidar também do padrão alimentar e do processo de reeducação alimentar porque eles ajudam a trazer a sensação de saciedade. É importante destacar também que quando falamos de alimentos ultraprocessados, que são aqueles que possuem adição de substâncias, como saborizantes, eles acabam nos estimulando a querer a comer mais, eles trazem muito prazer, uma sensação muito boa. Esses alimentos possuem substâncias químicas que geralmente não fazem bem para a nossa saúde a longo prazo, porque traz muito sódio e corantes. Então, um padrão alimentar sem esses alimentos traz benefícios para a compulsão alimentar periódica.

Por LETÍCIA FONTES do Portal O Tempo