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Leandro Heringer
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Coluna de Leandro Heringer – As boas intenções…

“O inferno está cheio de boas intenções”. Esse é um ditado popular que alerta a respeito da diferença entre a intenção e o resultado. A catástrofe do Rio Grande do Sul exemplifica de várias formas as implicações das boas intenções.

Boatos, mentiras e informações equivocadas podem trazer grandes prejuízos. Em situações extremas, como a vivida no estado gaúcho, podem representar a possibilidade de viver ou morrer. Um endereço equivocado de um abrigo, posto de saúde ou local de donativos pode proporcionar consequências indesejáveis e até irreversíveis.

Nesse contexto, foi lançada a campanha Verifica RS. Ação que parte da ação positiva de aumentar o alcance de notícias verificadas. Liderada pelas jornalistas Luíza Fritzen, Juliana Coin e Taís Seibt, a iniciativa contou com apoio da Afonte Jornalismo de Dados e do curso de Jornalismo da Unisinos tem o objetivo de divulgar conteúdo verificado nas mídias sociais e em grupos de moradores, além de fornecer material para livre reprodução por influenciadores digitais.

Essa ação é um ótimo exemplo de estratégia para enfrentar as fraudes informacionais. Focar em aumentar a relevância de conteúdo correto. Mesmo quem possui críticas a ações de agências de verificação não se contrapõe à divulgação da informação. Um “certificado de qualidade da informação” pode fazer toda a diferença para a audiência escolher acessar e compartilhar.

No lado oposto, a Universidade de São Paulo (USP)lançou uma ferramenta para checagem da informação baseada em critérios de aprendizado de máquina. Entendendo que as chamadas “fake News” possuem um padrão, o “Detector de Fake News” possui grandes riscos assim como a ação da Secretaria de Comunicação da Presidência que busca voluntários para enfrentar as fake News.

Começando pela análise mais óbvia, a ação da Secom pode contar com militantes que tentem cercear todo e qualquer conteúdo que não o agradem. O então responsável pela Secom, Paulo Pimenta, admitiu o desejo de censurar críticas ao Governo Federal nas plataformas digitais. Sem a transparência a respeito de quem são os voluntários, o preparo e as responsabilidades caso firam princípios da Administração Pública, as críticas à ação da Secom possuem múltiplas perspectivas.

Já a ação da USP une tecnologia e comunicação. A aprendizagem de máquina é uma estratégia tecnológica de grande importância em diversas áreas. Vários hospitais realizam diagnóstico de imagem baseado em aprendizagem de máquina. Milhares de imagens, como de braço fraturado e bração não-fraturado, são lançadas e classificadas como braço fraturado e braço não-fraturado. Assim, a máquina aprende o que representa cada imagem.

Na comunicação, essa atividade é temerária por diversos motivos. O primeiro é que cada matéria jornalística possui diversas percepções dos fatos. Um acidente de trânsito, por exemplo, pode ser relatado pelo pedestre, pelos motoristas de carros envolvidos, por motorista de outro automóvel, pelas autoridades policiais, entre outras pessoas que presenciaram. Escolher uma versão como a verdadeira é um erro. Deslegitima todas as outras visões.

Outro fator perigoso é não considerar os diferentes estilos de narração que envolvem, desde regionalismo até o uso da língua portuguesa. Usar como modelos os textos das grandes empresas de comunicação tradicionais impede que a mídia alternativa e comunitária seja percebida. Há a possibilidade de censura dentro da própria “Grande Mídia”. Recentemente, uma matéria veiculada pelo SBT foi erroneamente chamada de fake News.

Textos de órgãos governamentais também podem ser classificados como desinformação, uma vez que cabe à imprensa contrapor as informações passadas oficialmente. A população pode contradizer o governo sobre a eficácia de um serviço.

Boatos, mentiras e desinformação existem desde o início da história da humanidade. O ganho de escala devido ao alcance das plataformas digitais deve ser uma preocupação. Várias plataformas digitais assinaram termo de enfrentamento à desinformação em 21 de maio de 2024. É um princípio de regulação das plataformas. Ou seria um marco para a volta da censura permeada de “boas intenções”?