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Leandro Heringer
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Coluna de Leandro Heringer – Vigilância Suprema e os cartões perfurados

Em todo o mundo, são gerados 2,5 quintilhões de bytes de dados por dia. Esses dados podem ser classificados como “estruturados” ou “não estruturados”. A maior parte dos dados gerados é não estruturada, representando cerca de 80% do total. Mas, o que são dados estruturados e dados não estruturados?

Dados estruturados são aqueles que possuem uma ordem predeterminada. Uma estruturação prévia. Por exemplo, um formulário. Em contrapartida, vídeos, fotos e textos nas mídias sociais são exemplos de dados não estruturados. Para ilustrar, imagine um cubo mágico. Se ele estiver com todas as cores devidamente montadas, é um “cubo mágico estruturado”. Se estiver “embaralhado”, é um “cubo mágico não estruturado”.

Como a maior parte de dados gerada no mundo é não estruturada, tecnologias são desenvolvidas para que possam ser compreendidos. Uma das formas é por meio da mineração de dados. Procurar os dados que fazem sentido para uma organização.

No caso da saúde, termos como dengue, vacina, posto de saúde, SUS são importantes para verificar como ocorre uma ação ou política pública. Nos Estados Unidos, perceberam que em determinada localidade havia uma busca grande por determinadas palavras. Correlacionaram as palavras e viram que eram sintomas de salmonella. O Ministério da Saúde interveio enviando equipe para o local.

Fazer a mineração de dados também é útil para verificar a reputação de organizações e pessoas. Representantes da população, eleitos, podem buscar citações a seus nomes em suas bases eleitorais. É viável checar a aprovação ou não de determinada proposta de projeto de lei ou a receptividade à alteração no protocolo de atendimento do hospital.

O mapeamento por meio da mineração de dados também pode ter finalidade policial. Inteligências policiais podem utilizar a busca por dados para identificar crimes e enfrentamentos de gangues. Como cada dispositivo eletrônico possui uma “digital” chamada IP, torna-se factível identificar o perfil na mídia social, a região e até a localização do aparelho.

Contudo, nem tudo são flores. O mapeamento foi utilizado na II Guerra Mundial de modo bem mais primário, mas com uma infeliz eficácia. Segundo o livro, “A IBM e o Holocausto”, de Edwin Black, a empresa norte-americana foi contratada pelo governo de Hitler para identificar a população judaica por meio de cartões perfurados. Esse “censo judeu” proporcionou a prisão, tortura e extermínio de milhões de pessoas.

O Supremo Tribunal Federal, órgão que não possui representantes eleitos, lançou edital para monitorar as postagens nas mídias sociais. Com o argumento de realizar listagem de notícias e verificar a reputação do órgão nas plataformas digitais, a suprema corte brasileira irá investir mais de 300 mil reais no monitoramento da população brasileira.

O desejo é saber quem fala o quê, onde, com qual repercussão a respeito dos membros do STF. O Judiciário não é composto por representantes eleitos, mas que possuem, como na monarquia, cargos vitalícios. Também não cabe a esse poder nem legislar nem executar ações e políticas públicas.

Identificar as opiniões em nível individual pode trazer várias consequências. Desde a perda da imparcialidade até a censura e perseguição individuais. Instituir crimes de opinião ainda mais com propostas de pretensa “regulação das plataformas digitais”.

Cercear a liberdade de expressão e promover o uso de “novos cartões perfurados”.  Essa é uma situação que a população deve reagir contra a Suprema Vigilância.