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Coluna de Leandro Heringer – Decolonialidade, polarização e o novo “nós contra eles”
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Desde o primeiro mandato do presidente Lula, o discurso do “nós contra eles” foi construído e requentado diversas vezes: PT x PSDB, Dilma x Temer, ricos x pobres, progressistas x conservadores. A polarização tem origem em uma postura radical, que chegou ao identitarismo, potencializou as bolhas — virtuais e reais — e criou a briga entre “comunistas e fascistas”.

Toda essa narrativa se baseia em simplificações rasas de conceitos e contextos. A estratégia é clara: dividir para conquistar. Quanto mais fragmentações ocorrem, menos a população se reconhece nos problemas reais, seja enquanto indivíduos, seja enquanto classes sociais. A luta por direitos torna-se pulverizada. A mulher rica é diferente da mulher pobre. A mulher pobre branca é diferente da mulher pobre preta. A mulher pobre preta heterossexual é diferente da mulher pobre preta homoafetiva. Assim, não há união em prol de conquistas sociais, econômicas e políticas universais.

Com o enfraquecimento do discurso woke, a nova narrativa construída por alguns acadêmicos gira em torno de termos como decolonização e Sul Global. É o novo “nós contra eles”. Questionamentos sobre a falta de repercussão internacional de pesquisas acadêmicas devem considerar o foco e o contexto nacional: desde a escolha dos temas — muitas vezes ligados a situações locais — até a limitação linguística das publicações em português. Pesquisadores de países centrais na produção científica global geralmente têm menos orientandos e contam com investimento robusto, inclusive de organizações privadas. São apenas alguns fatores a serem considerados.

Politicamente, em termos teóricos, os BRICS — grupo formado por Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã — seriam os líderes desse “Sul Global”. Notadamente, trata-se de países com histórico democrático questionável: a Rússia e seus neoczares, a Índia e seu sistema de castas, a China com censura digital, e o Irã com uma teocracia antissemita. Essas seriam, ironicamente, as referências de uma nova “Guerra Fria”, com a separação agora feita entre Sul e Norte, em vez de Leste e Oeste.

Para dar uma roupagem acadêmica e revolucionária, os conceitos de decolonialidade e decolonização surgem em eventos e artigos científicos. O conceito de colonialidade do poder, formulado por Aníbal Quijano, nos ajuda a compreender que o colonialismo não terminou com a independência formal das nações latino-americanas. Ele persiste em padrões de saber, de ser e de poder. Ou seja, não basta desmontar estruturas políticas coloniais se a mentalidade e as hierarquias raciais, epistêmicas e econômicas permanecem intactas. Essa é uma das premissas da decolonialidade.

É necessário reconhecer que houve múltiplos processos de colonização, e que os chamados povos originários” eram diversos. Não havia unicidade: tribos rivais guerreavam e, muitas vezes, escravizavam etnias derrotadas. Tratar os povos originários como homogêneos é, portanto, um erro. Em segundo lugar, há uma disputa narrativa por nova hegemonia. Uma nova “corrida colonial” em termos de discurso, política e economia.

Há  risco de a decolonialidade ser uma “nova colonialidade do discurso” — um modismo teórico consumido em congressos e papers que esvazia a potência transformadora do conceito. A contraposição entre teoria e prática é notória. Muitos acadêmicos que construíram seu saber com base em teorias europeias, como as neomarxistas, tornam-se hoje os defensores de povos historicamente oprimidos ou “não plenamente libertos”.

Na comunicação pública, essas contradições tornam-se ainda mais evidentes. O Estado exalta a diversidade em campanhas publicitárias, mas não se comunica efetivamente com a população nas esferas públicas digitais. Vemos apenas o “informacionismo oficial” e a apropriação dos canais institucionais por uma pós-verdade construída nos gabinetes de quem está no poder.

A decolonialidade surge, assim, como uma estética do discurso. Uma nova versão do “nós contra eles”, potencializada por um vitimismo do Sul contra as potências do Norte — ignorando as contribuições recíprocas para o desenvolvimento da humanidade e desconsiderando os processos históricos e dialéticos que moldaram as sociedades. Também ignora, muitas vezes, a possibilidade real de ascensão social, intelectual e econômica.

A convivência entre diferentes é necessária — fundamental para o avanço social, econômico e acadêmico. O maniqueísmo muda de roupa, mas o resultado continua insatisfatório. Espera-se que os dualismos e reducionismos da modernidade fiquem para trás e não retornem em nova roupagem, como uma “Guerra Fria 2.0”. Aprender com a história é necessário. Ir adiante, primordial.

🌍 Decolonialidade, polarização e o novo “nós contra eles” no Brasil

➡️ O discurso decolonial se tornou bandeira em muitos espaços acadêmicos e políticos — mas será que está mesmo promovendo transformações reais? Ou estamos apenas trocando de roupa para repetir velhos maniqueísmos?

⚖️ Na nova coluna, Leandro Heringer analisa como a retórica da decolonização tem sido usada no Brasil, os paradoxos dos BRICS e os riscos de transformar crítica em moda.

🧭 Um texto para refletir sobre o presente e repensar o futuro.

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