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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – Miudezas do Sertão

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Coluna do Adilson Cardoso – Miudezas do Sertão

Maria Mulata  estava engessada no retângulo da pequena janela, o calor do fogão lhe aquecia enquanto a chuva lá fora não dava tréguas, desde o inicio da noite a mesma cantiga tocava nas telhas. Mas era bom e ela agradecia a Deus por ver as plantas matando a sede. Com um crucifixo dependurado no pescoço cumpria o mecânico ritual de apertar as bolinhas divididas em orações, mas o olho não deixava de passear sobre o verde das hortaliças dentro do cercado de varas de bambus. Alface mimosa, salsa lisa, cebolinha francesa, couve manteiga e hortelã, já estavam no porte de  fazer o transplante para a horta maior. Pensava falando baixinho misturando verduras e  rezas. Dali aquele olhar inquieto sob os óculos que constantemente se embaçavam  pela umidade tentava em vão enxergar os telhados coloniais da fazenda Mulungu. A chuva formava uma cortina branca bloqueando qualquer investida da vista poucos metros à frente. Era lá que moravam há um ano  os dois filhos, Adelino que no mês de junho completaria vinte e cinco  e Adelmo que  faria vinte e quatro em doze de outubro dia da celebração da padroeira do Brasil, Nossa Senhora de Aparecida, em homenagem a ela o filho tem um  “Aparecido” junto ao seu nome . Com aqueles, pouco contava, aliás, pouco ainda era muito, não contava de jeito nenhum, nasceram e cresceram  com a personalidade do pai, duas peçonhas que só se lembravam dela quando careciam dos  favores para confecção das  suas roupas de festejos. As indolentes filhas do fazendeiro Chico Baiano  que tomaram por esposas  não sabiam sequer enfiar a linha no buraco da agulha. Maria Mulata por um momento retirou os óculos e desnudou a vista para rever um passado guardado a muitas chaves. Adelino tinha apenas dois anos de idade e acordara no inicio de uma  noite de novembro, véspera de dia dos Finados chorando alto e queixando  dor. No céu, uma chuva tenebrosa ameaçava chegar breve, ventos fortes retorciam  as árvores, trovões furiosos e raios se revezavam  partindo as nuvens. Osório saíra  antes do meio dia  para comprar querosene e não voltara, as lamparinas estavam  vazias e as velas haviam sido queimadas para São José. O pavor aumentaria ainda mais, quando Maria abrindo a caixa de fósforo descobrira  que também não tinha nada. O  menino chorava e esperneava  com  a mão  sobre a barriga, a escuridão se ampliava,  os trovões em fúria pareciam  chocar-se  com a terra, os raios clareavam as caricaturas do medo e o vento não cessava. Maria Mulata não  pôde mais se  segurar  dentro daquele buraco ofegante,  inerme e escuro,  detonou sua loucura e saiu a correr  feito louca no inferno inóspito do breu, gritava intensamente  por socorro, mas só ouvia  o reverberar da sua voz.  Até ser contida por uma luz de lanterna que vinha de uma charrete, a fala mansa de tranqüilidade eterna era conhecida e apreciada pelos seus ouvidos como o cheiro marcante do perfume Lancaster que identificava o dono a grandes distancias. Subiram e instantaneamente sentiram as batidas violentas dos pingos de chuvas na capota. Felizmente estavam próximos e chegaram rápido a fazenda Mulungu dentro de casa, ela ninava o filho que ainda  chorava  com a mão onde doía, paralelo se ouviam atentos  as pancadas medonhas do granizo sobre as telhas. Ana Rosa, esposa do Chico Baiano atuara há tempos como auxiliar de  enfermagem em um hospital do Rio Grande do Sul,  conhecia aquelas dores   em  crianças e tinha uma receita que considerava  infalível. Com o chá pronto em uma xícara,  explicara  calmamente a  mãe inexperiente  o que fora utilizado e como usar, Um punhado de camomila, meia colher de chá de erva doce, uma folha de louro e um copo de água. Tudo fervido durante cinco minutos, depois era só deixar que esfriasse ao ponto de um morno suportável por ele, administrar de duas em duas horas. Depois das primeiras colheradas e a mudança de posição no colo da mãe, ouviu-se ruídos de arrotos seguidos de puns e o ressonar de anjo sem mais reclamar de dores.

Por Adilson Cardoso

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