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Coluna do Adilson Cardoso – A sorte veio no domingo de manhã

Coluna do Adilson Cardoso – A sorte veio no domingo de manhã

Marcelo abriu mais cedo as portas do mercadinho. Thor o cachorrinho marron estava do outro lado da rua, sua dona pode ter descuidado na hora de trancar o portão. Ele cheirava uma sacola de lixo e olhava em volta com receio de que outros cães aparecessem para lhe tirar o achado. O sol driblou o serviço de meteorologia que anunciara templo nublado, Mas chegava robusto naquele domingo de manhã. Uma senhora da rua de cima vinha devagar apertando um rosário com as pontas dos dedos, pela forma que mexia os lábios era Padre Nosso o carro chefe, por um minuto interrompeu a reza para agachar no chão e pegar uma moeda de cinqüenta centavos, segurou olhando para trás e limpou na blusa que tinha uma foto de Nossa Senhora de Aparecida com dizeres sobre encontro de casais. Uma legitima moeda de cinqüenta centavos, abriu o zíper da pequena bolsa de couro que se escondia dentro do sutien e depositou a moeda. Um sinal da cruz e um olhar para o céu “Obrigado Senhor, já posso levar a balinha do meu neto!” Seu destino era o mercadinho de verduras que poderia ser visto a aquela distancia, mas outra vez interrompe a reza para pisar violentamente em uma nota de dois reais, aquela atitude era necessária para resguardar-se de uma repentina aparição do dono. Girou sobre a nota e olhou mansamente para os quatro pontos cardeais, parecia seguro agachar e pegar a nota, que foi colocada junto à moeda. Mais um olhar para os céus, “Deus seja louvado!” Agradeceu e seguiu sem conseguir concentrar-se na oração, as pontas dos dedos que apertavam as bolinhas se misturavam e, o Padre nosso que estais no céu fundia-se com Ave-maria. O olho estava no chão, feito detetive de filmes vasculhava impiedosamente cada espaço que pisava de repente o peito gelou, as pupilas se dilataram e um assovio saiu involuntariamente daquela boca de dentadura que por pouco não vai ao chão. Era dez reais que parecia ter caído do céu, pois até sentiu como se estivesse roçado lentamente a sua perna. Mais uma vez a forte pisada, a postura incontestável de girar sobre o próprio eixo, ninguém a vista, que bom que era domingo, pensava ela, “se é segunda feira, aqueles futriqueiros que pegam o ônibus ai no ponto já teriam embolsado” falou a velha em voz sutil, como se confidenciasse aos muros manchados de pés. “Ai meu senhor, por isso que eu nunca perdi minha fé, nem nunca perderei. Não sou nenhuma fofoqueira, detesto falar da vida alheia, mas a infusada da Lena, bem que mereceu ter perdido o dinheiro ontem, tudo dela é, vou ali tomar um litrão! Vai tomar litrão só se for fiado! olha eu, tinha o dinheiro purinho do frango, agora posso comprar até refrigerante!” Mesmo com os supostos milagres a senhora não voltou a bolinar o rosário para sua reza. Sua meta era um pente fino jamais visto na história dos caçadores de dinheiro, pretendia com ajuda do santo de devoção encontrar mais alguma coisa, naquela altura já eram doze reais e cinqüenta centavos. Virando a esquina de frente ao mercadinho de verduras ela esperou um carro passar para atravessar a rua, era uma pick-up com moveis, colchão e uma antena de televisão feita de cano marrom. “Quem será que está mudando para cá?” – disse ela baixinho dando um passo a frente, quando por pouco não tropeça no próprio corpo e se esborracha no asfalto. Estava ali em cores vivas e alegres uma nota de dez reais, a exemplo da ultima sentiu que parecia descer do céu pois o leve toque da sua queda foi sentido na perna. Era felicidade que não tinha como aprisionar, tinha que sorrir, tinha que agradecer pelo milagre de dobrar a quantia que trouxera de casa, exatamente vinte e dois reais e cinqüenta centavos, valor que geralmente ficava o frango do domingo no tamanho para alimentar ela o marido os filhos e alguma visita inesperada agora era quarenta e cinco e ela não cabia em si. A velha disse bom dia ao cachorrinho Thor que continuava absorto na sua sacola de lixo, acenou para o lotação e entrou perguntando a Marcelo pela esposa, filha e a neta. A sorte estava tão explicita que na entrada do recinto havia outra moeda de cinqüenta centavos. A dona recebedora dos milagres nem juntou as outras dentro da bolsa que jazia no sutien, apenas pediu o frango no mesmo tamanho. Refrigerante, balas, trufas de chocolate e um pé de alface, com soberba para que o comerciante notasse que ela tinha mais do que o corriqueiro valor que sempre trazia, lançou a bolsa sobre o balcão, “O senhor pode retirar o dinheiro e cobrar por favor!” O homem nem precisou abri o zíper da bolsa, puxou as notas pelo imenso rasgo que havia no dorso e educadamente reagiu: “Só o frango deu vinte e dois e trinta e cinco, aqui tem vinte e dois reais, é para a anotar o restante?”

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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