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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – Delírios de Greta

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Coluna do Adilson Cardoso – Delírios de Greta

A porta se abriu mais uma vez como dentes que rangem de dor. Na memória a velha e sua voz amargurada berrando demônios em nomes dos Santos, pedia que a morte antecipasse a chegada, vomitava seus horrores intrínsecos, esbravejava com a neta, a pequena criança pálida de olhos secos e aterrorizados, apenas oito anos, mas há tempos sustentava aquele fardo. A televisão que não se apagava, por dias e noites sem tréguas, ruído irritante chuviscos fora de sintonia. A velha se sentia realizada quando incomodava o silêncio de quem se candidatasse ao remanso. O vizinho mais próximo havia se mudado. De algumas casas depois reclamações choviam nos ares, “Quem se importa estou morrendo mesmo!” Dizia ela com seus olhos semi-abertos de luz incerta, odiava o mundo, exumava o passado para culpar a todos pelos seus males. A garota era filha de mãe alcoólatra. Desde os primeiros dias de vida, freqüentava os piores ambientes, enquanto sugava o leite materno à mãe permitia ser bolinada por quem lhe pagasse a próxima dose, de um programa em um campo de futebol engolido pelo mato, desaparecera sem deixar registros. Naquela época a velha não aceitava ao menos ouvir que a criança existia “Filha de vagabunda, cresce vagabunda!” dizia sem remorsos algum. Foram quatro longos e terríveis anos em abrigos para órfãos, O pai oculto desde o nascimento, surgira através de procuradores oferecendo um vigoroso sustento mensal a quem desse um lar digno a sua filha. A velha tomara conhecimento dos valores, vestira-se com a fantasia de boa senhora entrando na justiça para adotar a neta. Após alguns meses de litígio a causa estava ganha, no entendimento da lei o grau de parentesco facilitaria a evolução psicológica da garota. A velha jamais recebia visitas, quando lhe batiam por engano no portão, jogava água e mal dizia a quem quer que fosse. O marido havia morrido antes da sonhada aposentadoria. Morte suspeita, principalmente depois do seguro de vida, tê-la deixado com as contas recheadas no banco. Tiveram dos filhos, a mãe da menina que mergulhara no álcool após a morte do pai, sempre falava que havia segredos a serem revelados, mas também morrera com eles para si, do outro filho não há registros. Greta aspirava outra carreira do pó, virava na boca a garrafa de conhaque, o marido falava no celular com o rosto virado para a janela, a Iguana verde em suas costas era tatuagem viva, parecia se mexer entre os delírios dela, Que continuava ouvindo os gritos da velha se ardendo no fogo e clamando que os demônios se apossassem da neta. A amiguinha Emilia autora da idéia, dizia como se fosse naquele momento. — Olha a vovó queima igualzinho a boneca, o fogo sai colorido por causa do álcool, foi meu pai quem falou! Emilia havia morrido assassinada na época em que tinha muita amizade com Greta, conversavam de um buraco em baixo do portão quando a velha dormia. Mesmo depois de morrer elas continuaram amigas, conversando em sonhos.

 

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