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Adilson Cardoso
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Coluna do Adilson Cardoso – O Homem e a cadeira

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Coluna do Adilson Cardoso – O Homem e a cadeira

Ninguém sabe ao certo de onde viera aquele homem. Escondia os olhos atrás dos  óculos escuros e não usava da voz para cumprimentar as pessoas. Balançava a cabeça ou a mão que estivesse desocupada. Preciso dizer também que tinha barbas e cabelos longos, a bota do pé esquerdo parecia mais gasta que a do pé direito, prova disso era o dedo menor que começava a aparecer embrulhando numa meia encardida, num dia daqueles, duas senhoras conversavam em um ponto de ônibus, uma olhava para baixo, pois aguardava o lotação que iria subir, a outra olhava para cima aguardando aquela que desceria. Maliciosamente disseram  que o homem calçava uma meia que fora de algum defunto, mas ele não se esforçara para ouvir, mesmo que ouvisse não se importaria, já que não teria outra para substituir. Nada naquele homem chamava tanto a atenção do que uma cadeira que carregava, levava do lado direito, quando se cansava mudava para o lado esquerdo, tudo isto dentro da mesma cidade. Norte, Sul, Leste, Oeste já havia passado pelo menos cinco vezes, o Jardineiro da praça o vira no mês de Janeiro, quando precisou mudar-se  para outra praça de um bairro distante, aquele homem passou  com sua cadeira, o Jardineiro que ralhava com as crianças abelhudas que vinham da escola e paravam para lhe interrogar sobre sua enxada de cabo torto, não suportara a curiosidade, “Amigo que mal lhe pergunte estás a pagar alguma promessa?” Mas o homem com seus óculos escuros continuava a passos lentos e progressivos, “Amigo não mate este pobre Jardineiro de curiosidade, pagas promessa por algum milagre conquistado?” Não adiantou, nenhuma palavra se ouvira daquela boca, ele sequer direcionara o olhar ao Jardineiro, seguia sua peleja. Em frente à barraca do caldo de cana costumava parar, o dono era taciturno quase não falava, quando o cliente pedia o caldo, perguntava apenas se gostaria de uma pedra de gelo, quando pediam  salgado ele interrogava sem fitar no olho, “Carne ou frango?” Por isso o homem da cadeira se sentia bem ali, o vendedor jamais lhe questionara sua esquisitice.  Além da cadeira ele era uma pessoa previsível, tomava um copo de caldo de cana sem gelo e comia um pão de queijo. Pagava e saia com um palito de dentes na boca. À noite o homem parava exatamente as vinte e duas horas e quinze minutos, encostava a cadeira em uma parede qualquer e debruçava sobre ela, às cinco horas e dez minutos se levantava e  rolava no chão como se fosse dar uma cambalhota, depois pegava a cadeira e seguia .

 

 

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