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Coluna do Adilson Cardoso – O crime da Rubelita

Coluna do Adilson Cardoso – O crime da Rubelita

A meteorologia não havia anunciado chuva, eram dezoito horas vinte e quatro minutos. O vento frio  sacudia a cortina em frangalhos, baratas saiam em busca de abrigo, dois olhos congelados estavam fixos na casa do outro lado da rua. A chuva chegava sem previsões, caia em diagonal, uma mão ligeira de veias salientes arrastou com esforço o puxador enferrujado que rangeu carregando os vidros encardidos que há muito não se fechava, os pingos grossos tamborilavam na parede de tábua. Diandro iniciou uma silenciosa retirada de objetos entulhados sob a cama, numa velha mala estava uma grande quantidade de jornais em datas seqüentes, algumas revistas sem capas  e uma jaqueta de Brim com vários buracos pelo corpo. Nas bordas de sangue seco se via umas espécies de anéis escuros maus desenhados. Um casco de Tartaruga e um par de botas cheirando a sujeira foi retirado também, uma enorme Ratazana com seu filhote descansava em seu ninho dentro de um dos pés, Diandro se assustou, levantou-se imediatamente, mas deixou que os bichos tomassem seus rumos, não estava em condições de chamar atenção de vizinhos. O guarda-roupa de duas paupérrimas repartições estava se decompondo ao simples tocar, mesmo assim foi arrastado cuidadosamente até próximo a cama, um saco plástico de papéis amarelados que se encontrava em uma das deterioradas gavetas foi aberto sobre um farrapo de lençol, sutilmente foi colocando em ordem de necessidades até se dar conta de que estava tudo ali. Os fios de luz que se projetavam das gretas das janelas Diandro ia consumindo com cautela, amarrou com força os cadarços da bota imunda e tateou a mão em um canto  para apanhar um bolo de dinheiro amarrado em tiras de tecidos. Havia um insuportável cheiro de sangue ali dentro, uma nauseante combinação com os odores dos ratos, baratas e um mofo irrespirável, mas ele suportava, o coração aos poucos disparava enquanto os pés se moviam rumo à porta, a rua estava deserta, cabia prudência, as luzes do poste piscavam como olhos sensíveis desvencilhando-se da força dos pingos da chuva.  De repente um ruído de moto acelerando do outro lado da rua, vagarosamente Diandro pisou de volta ao interior do barraco, a escuridão era intensa, seus ouvidos criavam ruídos adicionais aos cochichos que o motoqueiro e o cliente faziam  sob um guarda-chuva negro. A moto não era a mesma de outros dias, traficante que se preze muda o veículo para não “rodar” nas mãos dos “Canas” pensou espremendo o olho em um buraco dos vidros encardidos da pequena Janela. O cara que estava de pé era o “Madorna”, “Filha da puta de Agente Penitenciário metido a policia, mas não desgruda o nariz do pó!” – Falou sibilando com os dedos pinçados na cortina. O portão se fechou e a moto saiu acelerando forte. A mulher do Madorna chegava mais tarde, trabalhava em um estúdio de fotografias  em um Shopping Center, de segunda a sexta ficava de dez ás vinte e três horas, sábado era até as vinte e no domingo ela folgava. Ele trabalhava em um presídio dia sim dia não, nos finais de semana pouco se viam. Ela adorava usar vestidos curtos, quem nunca havia flagrado a bunda branca dela, fora por simples falta de paciência em ficar esperando ela entrar no carro, já que ao invés de sentar-se normalmente ela pulava com o único e medíocre propósito mostrar-se, quando notava  alguém olhando seus espetáculos pervertidos, repetia a cena sem o menor pudor. Era uma festa para a turma da “bronha” que jogava pelada no campinho dos “Mano” onde além da bola rolava sexo com umas putinhas metidas a manconheiras. Enquanto isso Madorna estava sozinho dentro de casa mergulhado o “focinho” nas carreiras de pó, era fácil saber pela altura do som com os clássicos do Led Zeppelin e Black Sabbath.  Diandro misturava todos os pensamentos em um, queria divagar para não entregar-se aos pavores daquela escuridão, sentiu que aquele era o momento para a fuga, mais uma olhada na rua e um chumaço inflamado sobre o botijão de gás, fez questão de abrir todas as chamas e andar apressadamente rua abaixo. As chamas lambiam vorazmente as alturas, algo com mais de dez  metros, os Bombeiros chamaram reforços quando perceberam um corpo sendo consumido, ao conseguirem conter a fúria do fogo atestaram que se tratava de uma mulher por uma corrente do sapato não devoradas pelas chamas,  mas muito pouco havia sobrado daquela criatura. “Identificação só mesmo com um DNA” – Afirmou um Legista retirando as vistas do cadáver. Madorna assistia de longe o desfecho misterioso daquela cena, se encucava, pois tinha certeza de que o individuo não havia resistido aos tiros e aquela altura que havia sido jogado. “Não pode ser, naquele rio tem Piranhas!”- Pensava em voz alta.  “O barraco estava abandonado há muito tempo, pode ter sido um raio!”. Mas voltou-se para se entupir  em  novas fileiras da droga. Por telefone pediram que fosse com urgência até a parte escura da Rua Santiago Piacenza, o carro da sua esposa estava abandonado com as portas abertas, a bolsa e o celular não haviam sido roubados. Outras informações davam conta de que ela não também não  comparecera  ao trabalho.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso