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Coluna do Dr. Marcelo Freitas – As administrações municipais e a política do pão do e circo

Coluna do Dr. Marcelo Freitas – As administrações municipais e a política do pão do e circo

As expressões latinas “Panem et circenses” foram adotadas durante o império romano a fim de se referirem à política do pão e circo. Em resumo, era a maneira como os líderes romanos lidavam com a população em geral, para mantê-la fiel à ordem estabelecida e conquistar o apoio do povo.

Esta frase tem origem na Sátira X do humorista e poeta romano conhecido por Juvenal, que viveu por volta do ano 100 d.C., e no seu contexto original criticava a falta de informação do povo romano, que não tinha qualquer interesse em assuntos políticos, só se preocupando, por consequência, com o alimento e o divertimento.

Já de início nesta loa à consciência crítica, não é por demais citar Bertolt Brecht, para quem “o pior analfabeto é o analfabeto político. Ele não ouve, não fala, nem participa dos acontecimentos políticos. Ele não sabe que o custo de vida, o preço do feijão, do peixe, da farinha, do aluguel, do sapato e do remédio depende das decisões políticas. O analfabeto político é tão burro que se orgulha e estufa o peito dizendo que odeia a política. Não sabe o imbecil que da sua ignorância política nasce à prostituta, o menor abandonado e o pior de todos os bandidos que é o político vigarista, pilantra, o corrupto e lacaio dos exploradores do povo.”

Historicamente, pesquisadores e historiadores acreditavam que essa política fora criada como uma medida de manipulação de massas, onde a aristocracia incentivava a plebe de certa forma a ficar cada vez mais desinteressada em política e dar atenção somente para prazeres como a comida, através do pão, e o divertimento, retratado pelo circo.

Carcopino, arqueólogo e historiador francês, afirmava que, por ter muito tempo livre e por ser ociosa, a plebe poderia revoltar-se contra o governo, e para que isso não ocorresse era necessário criar políticas como a do pão e circo, para mantê-la sob controle.

Em verdade, assim, a política do pão e circo foi de extrema importância para se buscar uma estabilidade social na sociedade romana. Com ela, as classes dominantes buscavam controlar e conter os ânimos da população pobre, evitando, dessa forma, que as rebeliões se tornassem cada vez mais constantes.

Projetando o pão e circo para os nossos dias, particularmente para as administrações municipais, abro os jornais do sofrido Norte de Minas Gerais e vejo como os hospitais estão sucateados, sem médicos, sem medicamentes, sem atendimento. A educação em frangalhos, sem merenda, sem bons professores, sem dignidade. A segurança pública estrangulada, sem policiais, sem viaturas, sem armamentos, sem coletes, sem local adequado para “reciclar” presos. Sim, lixos são recicláveis, recuperáveis. Seres humanos parece que não são…

Surge, a partir destes intricados problemas, as seguintes indagações: como os gestores brasileiros governam sem, pelo menos, haver sinal de subversão social? Por que a maioria se submete, silenciosamente, a essa forma aviltante de privação?

A resposta parece estar nas estratégias políticas. No Brasil, percebe-se a aplicação – nas devidas proporções – do pão e do circo, em que o governo, em suas três esferas, por meio de medidas assistencialistas, jogos de futebol e shows musicais, alienam a população em relação aos problemas da nação.

Sem olvidar da relevância da cultura, como pode um prefeito se preocupar com festas populares enquanto a população não possui remédios básicos nos hospitais? Como aceitar municípios quebrados, sem dinheiro para pagar servidores, com dívidas para todos os lados, contratar cantores musicais a preços de ouro?

Causa revolta observar, com lucidez, o que tem acontecido em nossa região. Meu Deus, festejar o quê, se o povo está morrendo à mingua, se a criança não tem merenda na escola, se o bandido rouba à luz do dia, se o pai de família não tem emprego? Vamos corrigir, com prioridade, problemas estruturais de nossa sociedade! Só após, com serenidade, poderemos comemorar algo! Será que estou escrevendo qualquer coisa difícil de ser compreendida? Vale realmente à pena sorrir em um dia de festividades musicais e penar um ano inteiro de tristes realidades? Sem trabalho, sem educação, sem saúde, sem segurança!

O professor Paulo Freire dizia que “o ser alienado não procura um mundo autêntico. Isto provoca uma nostalgia: deseja outro país e lamenta ter nascido no seu. Tem vergonha da sua realidade”. Nada mais realista para uma região que parece ter parado no tempo, onde IDH’s e IDEB’s são siglas completamente desconhecidas daqueles que, eleitos pelo povo, ainda insistem em distorcer a imagem do real.

Dr. Marcelo Eduardo Freitas – Delegado de Polícia Federal e Professor da Academia Nacional de Polícia.

 

Dr. Marcelo Eduardo Freitas
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