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Coluna do Adilson Cardoso – Refugio Mental

Coluna do Adilson Cardoso – Refugio Mental

Quando era criança brincava de ser adulto, dizia que era o pai, pegava no volante (tampa de panela) e saia dirigindo para o meu trabalho. Por vezes  deixava de ouvir o que o amiguinho ao lado estava dizendo por  achar o papo chato e sem emoção. Curiava os adultos, a vontade de crescer aflorava dentro daquele  peito sem juízo. Mas infelizmente não entendia nada do que diziam, pareciam  falar  em códigos. Queria mesmo era ser como o meu pai, sair a qualquer hora sem dar satisfações a ninguém. Meu tio Bernardo, só conheci por histórias. Diziam que foi morar no Rio de Janeiro na comunidade da Rocinha, naquele tempo a televisão pouco se lembrava do monte de rejeito social que saindo de outros rincões do Brasil em busca de trabalho, se apinhava morro acima para não dormir ao relento nas calçadas da zona sul. Certo  dia  quando estávamos de pratos no chão, almoçando com os olhos no desenho dos Thundercats, meu pai entrou pisando forte com a bota suja no cimento encerado, direto ao quarto, pouco depois voltara com uma bolsa de documentos que  guardava em uma mala sobre o guarda-roupas. Minha mãe era Manicure e fazia as unhas de uma cliente  nos fundos, viera com sua típica cara de pavor nos dizer que ficássemos quietos, pois a policia estava lá fora conversando com o pai. Instantaneamente eu e os outros três irmãos como se fosse combinado, nos levantamos para esconder embaixo da cama, era lá nosso refugio. O medo da policia  descobrir o esconderijo  fizera o caçula dos quatro fazer xixi na roupa, na minha cabeça vinha as imagens da policia correndo atrás dos manifestantes nas ruas, batendo com cassetetes, atirando de metralhadoras, soltando cães e prendendo. Outro irmão perguntara se íamos ser presos, aquela pergunta foi mais que um soco no estomago, perdi o ar e tive um ataque sufocante de claustrofobia, para mim já era um sinal de que seriamos presos. Meu pai saindo com aquela pressa com os documentos na  mão já poderia ser indicio, principalmente porquê naquela bolsa estavam todos os nossos documentos, era ali que minha mãe pegava a carteirinha do INPS para levar-nos ao medico, ali tinha os registros de nascimento de todos nós, com os boletins da escola assinados pelo meu pai.  Esse meu tio dissera a minha Vó que seria Radiotecnico lá no Rio, trabalharia com um amigo que o convidara. Flamenguista de coração minha Vó abriu seu potinho de economias para lhe facilitar os primeiros passos, não queria ouvir falar que o filho fosse visto feito mendigo por Toni Ramos ou Elizabeth Savalla, par romântico de uma novela que ela adorava. Meu tio para conseguir mais reforço financeiro dissera que no Rio de Janeiro as pessoas conversavam com personagens das novelas, como eles estavam conversando naquele instante e minha humilde Vovó acreditava com direito a visualizar o filho naquele meio. Mas dois anos depois as noticias que se tinha dele era através de cartazes do DOPS (Departamento de Ordem e Política Social) com sua foto e dizeres informando que se tratava de um subversivo fora da lei e que era dever de qualquer cidadão que o visse, entregá-lo as autoridades. No auge da minha agonia ouvi minha mãe insistente perguntar a meu pai o que estava acontecendo, e por que não estava trabalhando. Sem dizer nada vimos os pés dele, inquietos, próximo da linha dos nossos olhos, pelo ruído, parecia pegar outra coisa na mala, depois dizer a minha mãe que ela tinha cinco minutos para arrumar as roupas e os documentos.  Seu Zarú era um velho estranho que andava falando de Revolução Socialista para meu pai, dizendo que já havia passeado na União Soviética e que crianças como nós deveriam ser educadas lá. Ele sempre andava armado, sua arma ficava escondida dentro do gesso falso que ele tinha no braço esquerdo. Naquelas minhas curiadas eu fazia coleção de segredos, como me achava no direito de ser adulto, mas não tinha um adulto para conversar, os ocultava dentro de mim. Minha mãe cumprira os cinco minutos sem questionar, ao findar o tempo entramos com algumas roupas e o periquito Nico, dentro de um caminhão baú escrito Frigorifico Brasil. Severamente meu pai ordenava que não disséssemos nada, nada era nada. Atrás de um imenso congelador havia um compartimento com dois buracos em baixo para ventilação, uns sobre os outros andamos com fome e sede durante quase dez horas.  Hoje tenho vontade de ser criança, em algumas chatas reuniões tento sempre fugir para curiar o que as crianças estão dizendo. Pena que o papo é tão tecnológico que eu não consigo entendê-los parece falar em códigos.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

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