Inicio » Colunistas » Adilson Cardoso » Coluna do Adilson Cardoso – Não é mentira e nem lenda

Coluna do Adilson Cardoso – Não é mentira e nem lenda

Coluna do Adilson Cardoso – Não é mentira e nem lenda

O fato que se descreve não é mentira nem lenda, foi a verdade testemunhada por Zé Catira da Venda. A peleja se passou, há muitos anos atrás, Zé hoje é ancião, mas no tempo era rapaz. A cidade era pequena, onde tudo sucedeu, tinha um nome diferente, Lapa do Dirceu. Não chegava a cem habitantes, mas se enchia com a presença de constantes visitantes. João de Teobaldo um magricela, tocador de violão, disse que fugira do Angico, quando mataram Lampião, fora um dos seus coiteiros, falava com admiração, até mostrava cicatriz, de um tiro de raspão.

Dorão ovo crú não informava paradeiro, mas freqüentava noite e dia a Luzete do Puteiro. Mesmo sendo casado com Maria da Salvação e, ser pai de Braulina, Manelina e Zé Adão. Luzete era uma mulata de bunda, peito e simpatia, fora levada a ser quenga, por Judite sua tia. Antes até se formava, fila grande no puteiro, “Quem quiser comer limpinho, deve chegar primeiro!” Dizia seu Quinca Peido Roxo, um velho corno e punheteiro. Mas a história mudaria, quando Dorão ovo cru, resolveu trocar Maria, Mas não seria fácil assim, João de Teobaldo era pretendente, lutaria até o fim.

Luzete gritava sem paciência, ás vezes pedia clemência, “Pelo de amor de Jesus cristo e dos seus santos de devoção, vão comer outra menina, olha ali a Conceição!” Dorão ovo cru já armado de tesão, contestava aquela fala trazendo doce e requeijão. Mas João de Teobaldo não queria ficar sobrando, dedilhava o violão e começava cantando. “Tia Judite, me aconselha o que devo fazer então? Um me pega pela boca e o outro pelo coração!” Pedia conselhos a tia, a dedicada Luzete, que começou a dar novinha, para tudo que era pivete.

No puteiro da tia Judite, tinha Gilda Solamite, Eva botijão, Maria boca de pinto e a linda Conceição, Flora Butãozinho, Sila Labareda e Zileida Fiofozinho. “Nenhuma delas tem o chamego da mulata Luzete, é a fala de João de Teobaldo, mas Dorão também repete!” Dizia Judite orgulhosa da sobrinha, mas ela também adorava, liberar sua Priquitinha. Ninguém se atrevia entrar na frente do Parabelo, do ex-coiteiro de Lampião, tampouco na fama do arruaceiro Dorão. Assim foram muitos anos, conforme disse Zé da Venda, “Não é mentira nem lenda!”

Até chegar Zé Comprimido, um estranho de pouca fala, que dizia já ter morrido. “Mas defunto pode falar?” Indagou Tia Judite sem querer acreditar. “Estava no reino dos infernos, pagando meu pecado, mas hoje vim aqui pra vingar um considerado!” “Meia volta e vá saindo, Peste mandada pelo cão, aqui tem bala que foi benzida por meu padrinho Lampião!” Gritou alto o magricela de parabelo na mão. “Veja com quem falas resto de chacina, venho de muitas guerras lá de baixo e lá em cima!” Por horas, travou-se a contenda entre os dois, até o dia amanhecer e a noite chegar depois.

Diziam coisas de outros tempos, já sopradas pelos ventos. Dos tráficos de escravos ás guerras da Abolição, de Antonio Conselheiro á Virgulino Lampião. Dias se passaram sem arredarem o pé, João de Teobaldo e o estranho Zé. Até que certo dia começaram a sussurrar, um do lado do outro até não mais se avistar.  Parece que foi, assim então, ninguém mais ouviu falar de João e o violão. Mas o coveiro Ariosvaldo, descobriu no cemitério, a sepultura de João de Teobaldo. E o pior ainda viria, coisa de arrepiar, destas que da medo até mesmo de contar. O tal violeiro, não passava de assombração, pois havia sido morto no mesmo dia que Lampião.

 

Adilson Cardoso
Adilson Cardoso

Aviso: Nossos editores/colunistas estão expressando suas opiniões sobre o tema proposto e esperamos que as conversas nos comentários de artigos do JORNAL MONTES CLAROS sejam respeitosas e construtivas.O espaço de comentários em nossos artigos é destinado a discussões, debates sobre o tema e críticas de ideias, não às pessoas por trás delas. Ataques pessoais não serão tolerados de maneira nenhuma e nos damos ao direito de ocultar/excluir qualquer comentário ofensivo, difamatório, preconceituoso, calunioso ou de alguma forma prejudicial a terceiros, assim como textos de caráter promocional e comentários anônimos (sem nome completo e/ou email válido).

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *